Tuesday, March 15, 2016

Apesar de cicatrizes da tortura, criança vira super-herói e volta a sorrir


A história do menino de 4 anos que chocou Mato Grosso do Sul nos traz grandes dilemas e questionamentos sobre a capacidade de adaptação do ser humano
















Muitas questões ficarão sem respostas, enquanto outras verdades não terão explicação plausível. Mas, o que podemos afirmar é que, o dia 23 de fevereiro de 2016, foi o divisor de águas na vida do menino de 4 anos, que era torturado pelos seus próprios parentes, onde residia, no Centro de Campo Grande. Ele deu entrada na Santa Casa nesta data e o crime veio a público no dia seguinte, comovendo toda a população de Mato Grosso do Sul e repercutindo nacionalmente.

As investigações apontam que as agressões ocorriam durante rituais de magia negra em busca de ‘prosperidade’ e como forma de castigo por desobedecer, cometidas por um casal, uma senhora de 60 anos e um jovem de 18. Desde a data em que o menino deu entrada na Santa Casa acompanhado por sua tia, uma das próprias agressoras, o fato virou caso de polícia e ele passou a ser assistido por uma equipe multidisciplinar que tem a convicção de dizer que “agora ele é uma criança normal”, apesar das eternas cicatrizes e dos traumas que carrega.

Muitos já estranharam como um menino tão pequeno que sofreu desse jeito teria um semblante calmo. O que desperta a atenção dos profissionais é o fato dele ter resistência à dor, já que não reclama nem dos tratamentos, como a maioria. Apesar de não se saber o porquê dessa ‘coragem’, é evidente que sua história é uma lição de vida. Demonstra a capacidade de resiliência de uma criança, ou seja, de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças.

De acordo com a pediatra responsável, Patrícia Otto, sua entrada no hospital causou a suspeita sobre maus tratos, em razão das graves lesões aparentes, muitas já cicatrizadas, como o pulso esquerdo que estava torto porque teria sido quebrado e sarou sozinho. Foi constatada a perda de parte da visão, queimaduras, lesões, anemia e desnutrição.

Foto:Mariana Anunciação

Ele foi avaliado pela cirurgia plástica, por conta das queimaduras, e foi indicado o tratamento clínico com curativos e antibióticos intravenosos. O otorrino também o diagnosticou por causa de um hematoma do pavilhão auricular - orelha - proveniente de algum trauma. Também eram visíveis várias lesões na pele que estavam em fases avançadas de cicatrização, marcas no corpo todo, aumento no volume do pênis “inchadinho” por provável lesão, segundo a pediatra.

Dentre os problemas descritos pela especialista, ele estava desnutrido por conta de uma dieta pobre em proteínas e anêmico, resultando em hemotransfusão (recebeu sangue) logo na entrada. “Provavelmente é por causa de anemia carencial e pelos hematomas”, disse. O hospital informou que a internação também tem o caráter social, em virtude do que o paciente passou e é um procedimento de praxe da Santa Casa.

“O que motivou a internação foi o tratamento clínico das infecções secundárias da queimadura e o abcesso da orelha, sendo submetido a uma drenagem cirúrgica, pequeno procedimento e está programada uma nova avaliação do otorrino, para fazer outra drenagem. Com relação a todos os diagnósticos que fizemos aqui, os ferimentos caracterizaram um diagnóstico que a gente chama síndrome de maus tratos”, destacou a pediatra, revelando que ele se encontra em um quarto isolado no sexto andar, com brinquedos, televisão, acompanhado 24h por uma pessoa e tendo toda a assistência multidisciplinar.

O que se passa na cabeça dessa criança?

(Foto:Divulgação. Voluntários foram até o hospital e o menino ficou encantado com os heróis)

No começo, a equipe percebeu que apesar de aparentar ser calmo, o menino era uma criança um pouco arredia, o que se justifica pelo que sofreu no decorrer dos meses. Aliás, a maioria dos profissionais não consegue precisar quanto tempo ele foi submetido aos maus tratos, já que um dos ferimentos levaria quatro meses para curar (o pulso) e a criança estava sob a guarda do tio avô que o torturava, há 10 meses.

“Ele está sendo observado por nossa equipe, mas a grande dúvida é sobre como está a cabecinha dele. A nossa abordagem é muito mais de suporte e apoio, muito mais voltada à aceitação do tratamento. A princípio, não é direcionado para o tratamento do trauma e tudo o que ele já sofreu. É no apoio, quanto ao tratamento porque passa por diversos procedimentos, alguns não tão agradáveis, dolorosos”, explicou a psicóloga Alexandra do Nascimento.

É perceptível um avanço no quadro, visto que, no momento, ele é uma criança dócil, agradável, carinhosa, está bem assimilada à equipe e a todos. “Hoje ele sorri, brinca, dá gargalhadas. Apresenta outra postura diante das pessoas. Aparentemente, é uma criança normal, que está tendo desenvolvimento e aceitação normal. Está mais comunicativo, participativo, tranquilo. Não há como fazer uma análise profunda, não focamos no acontecido e sim na terapêutica. Não tem como trabalhar o tratamento psicoterápico em curto prazo, terá que ser feito posteriormente”, explicou a médica.

Na tarde de ontem (3), os voluntários da Liga do Bem foram até o hospital e toda a equipe médica se surpreendeu com o entrosamento do menino. Ele foi liberado para ir até o hall e poder interagir com os heróis. Foi visível a felicidade da criança que ganhou um copo do homem aranha, um boneco do super homem e uma fantasia.


Perspectivas

Os resultados ao longo desses dias de internação foram ótimos. Ele teve ganho de peso de  2,300 Kg no período, aceitação boa à dieta, absorve e se alimenta muito bem; as infecções praticamente estão curadas, com previsão de suspender os antibióticos amanhã (5). A orelha teve uma melhora de 50% com apenas uma drenagem.

Já as lesões oculares tiveram evolução progressiva. Os médicos informaram que é difícil avaliar o grau de visão que o menino possui atualmente, mas está próxima do normal. Muitas das lesões dos olhos que eram visíveis sararam: o olho direito teve melhora quase total e o esquerdo persiste uma pequena úlcera, com recuperação de 80%.

A programação é que o menino receba alta nos próximos dias e dará segmento às terapias, com acompanhamentos clínicos de pediatra, oftalmologia e otorrino. A cirurgia plástica deve avaliar a questão estética da orelha. Mas há cicatrizes no corpo, por conta das queimaduras, que não desaparecerão. Já os envolvidos estão presos, devem responder por maus tratos e ainda, o casal por abandono de incapaz, por terem deixado as filhas sozinhas.


“Esse trauma vai persistir, há de ser eterno na vida dele. Na verdade, essa é a diferença de um ser humano para outro, como ele vai lidar com isso. Não temos como ter um prognóstico em longo prazo, tudo vai depender de como vai ser o acolhimento fora da unidade hospitalar”, disse a psicóloga, esperando uma repleta superação do seu pequeno paciente.

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