Thursday, May 28, 2015

“É possível aprender a desenhar histórias em quadrinhos” – uma entrevista com Anke Feuchtenberger


Birgit Weyhe: Reigen / Ich weiß; Perfil; © Editora Avant  / Editora Mami / privat (Perfil) / T. Köster (m)
Anke Feuchtenberger é professora de desenho e ilustração midiática na Escola Superior de Ciências Aplicadas de Hamburgo (HAW). Uma entrevista sobre o ensimo da arte do desenho de histórias em quadrinhos nas escolas superiores alemãs.Se uma pessoa se interessa por quadrinhos e tem inclinação artística, em que casos você recomendaria a ela estudar numa escola superior de artes na Alemanha?

Eu não recomendaria isto a ninguém que não tivesse esta ideia por si mesmo. Eu não poderia assumir esta responsabilidade: para alguém que pretende ganhar a vida na Alemanha, as histórias em quadrinhos ainda são um setor complicado. É preciso ampliar seu campo de ação, seja na área de ilustrações ou de design gráfico, para se poder desenhar HQs paralelamente.

Por aqui, desenhar histórias em quadrinhos continua não sendo reconhecido exatamente como uma profissão e não há nenhuma escola superior que ofereça uma formação deste tipo. Até meu próprio cargo na Escola Superior de Ciências Aplicadas de Hamburgo refere-se oficialmente a desenho e ilustração. Eu tive que me empenhar para poder trazer à sala de aula certos temas e tarefas relativos aos quadrinhos. Mas atualmente já estou dando um curso que trata exclusivamente disso.






Quem tem talento pode aprender a contar histórias


Qual o assunto de seus demais cursos?
Ofereço um curso de especialização em que os alunos trazem um projeto próprio, que nem sempre tem a ver com quadrinhos. Também ofereço um curso de desenho com enfoque acadêmico, no qual posso tratar muito bem de desenho narrativo e da época inicial do desenho de HQs. Neste curso, desenhamos, por exemplo, paisagens. Isto é um bom fundamento para o desenho de quadrinhos, por exemplo, em relação ao desenho de cômodos.
Para o desenho de histórias em quadrinhos, quanto pode ser aprendido e quanto depende de talento?
O talento para desenhar já deve existir. Todo o resto se aprende. Alguns estudantes vêm conversar comigo no início do semestre para dizer que não sabem contar histórias. Neste caso, os primeiros passos são difíceis. Mas minha experiência é a de que os estudantes se familiarizam com o processo narrativo quando desenvolvem leveza ao desenhar e param de pensar em como uma história em quadrinhos deveria ser de acordo com suas concepções iniciais.

Traduzir a realidade em abstração


Como se posiciona sua escola em relação a outras escolas superiores de arte, que também dão espaço a histórias em quadrinhos, como as de Kassel e Berlim?
Não existe grande diferença entre nós. Normalmente os estudantes de Kassel ou Berlim têm uma formação geral muito boa em artes gráficas e design. Na nossa escola, design e ilustração pertencem a áreas separadas. Isto tem vantagens e desvantagens.
Na minha opinião, os estudantes devem desenvolver seu desenho livremente, adquirir um amplo repertório quando se trata de traduzir realidade em abstração. Para mim, o estilo não ocupa o primeiro plano. Quero que os estudantes passem o maior tempo possível sem se fixar, mantendo seus caminhos abertos.

Muito inspirados pelos professores


Ao observar o trabalho dos seus estudantes, muitas vezes se tem a impressão de reconhecer claramente suas influências estilísticas...
Um fenômeno semelhante também acontece com meus colegas de outras escolas. Por exemplo, sei exatamente quando tenho diante de mim um estudante de Henning Wagenbreht, professor da Universidade de Artes de Berlim. O mesmo acontece com os alunos de Hendrik Dorgathen, de Kassel.
Acho que, de maneira geral, os estudantes são muito marcados e inspirados por seus professores. Mas não ensino meu próprio estilo, nem mostro meus trabalhos na escola. E também tenho muitos ex-alunos que têm trabalhos bem diversos, como Sascha Hommer, Birgit Weyhe, Arne Bellstorf e Line Hoven.

O interesse por mangás não atrapalha


Suas aulas são o lugar certo para estudantes que se interessam pelo mangá, gênero que continua sendo muito popular?
Arne Bellstorf; © Oliver GörnandtEntre meus estudantes há algumas jovens que se interessam por mangá. Acho isto muito interessante, pois gosto muito de absorver as influências dos grandes mestres do mangá. Para mim, o importante é que os estudantes trabalhem com temas pelos quais tenham interesse pessoal e que encontrem seu próprio estilo.
O que você acha de instituições privadas que se dirigem a futuros quadrinistas, como a Academia de Design de Berlim ou a Comicademy?
Ao contrário de muitas instituições privadas, nosso objetivo principal nas escolas superiores de arte é que os estudantes desenvolvam um repertório amplo, com enfoque muito pessoal e artístico. Trata-se de uma formação artística com nível de vanguarda, não de um curso direcionado primariamente ao mercado comercial. Apesar disso, é claro que nossos estudantes devem ter condições de vir a conseguir um trabalho mais tarde.

Como se apresentar a editoras?


Os estudantes também aprendem como, mais tarde, podem vir a ganhar a vida com HQs?
Sim, na nossa escola isto faz parte do programa mais abrangente de ilustrações. Também convidamos pessoas do setor que trabalham em agências e se encarregam do marketing, ou editores como Dirk Rehm, para falar sobre como apresentar seus trabalhos a editoras.
As escolas superiores de arte de Hamburgo, Berlim e Kassel são as mais importantes da Alemanha no campo dos quadrinhos artísticos. Como vão as outras regiões?
A Escola Superior de Arte de Berlim-Weissensee também tem uma boa fama nesta área. Em Kiel, onde Markus Huber leciona, há cada vez mais pessoas interessadas pela narrativa através de imagens. Em Essen, onde Martin tom Dieck leciona, com certeza também vão acontecer coisas interessantes nos próximos tempos.

Anke Feuchtenberger: A  mulher que passeia; © Feuchtenberger/Reprodukt VerlagAnke Feuchtenberger, nasceu em 1963 e é professora de desenho e ilustração midiática na Escola Superior de Ciências Aplicadas de Hamburgo (HAW). Ela publicou muitas histórias em quadrinhos, a maioria delas pela Editora Reprodukt. A mais nova é a compilação “Die Spaziergängerin” (“A mulher que passeia”).



Lars von Törne
realizou a entrevista. Ele é redator do jornal berlinense “Der Tagesspiegel”, onde edita, entre outras atividades, a página de quadrinhos (www.tagesspiegel.de/comics).Tradução: Renata Ribeiro da Silva
Copyright: Goethe-Institut e. V., Internet-Redaktion
Novembro de 2012
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