Monday, April 20, 2015

Os quadrinhospodem impactar a 
sociedade 
Zine, lambe-lambe e quadrinhos

Zine, lambe-lambe e quadrinhos

Oficina em São Paulo reúne artistas independentes que têm conquistado espaço no país através da internet. Brasiliense Lovelove6 representou o zine da capital

As artistas Gabriela Masson (Lovelove6), Evelyn Queiróz (Negahamburguer) e Sirlanney Nogueira (Magra de Ruim) se reuniram em São Paulo para a oficina de quadrinhos, zine e lambe-lambe Ménage Artístico, organizada pelo grupo Hogar Coletivo. Criado por Evelyn e os grafiteiros Tico Finkenauer e Harã Nascimento, o coletivo paulistano tem pouco mais de um mês. “A ideia é fazer vários eventos, festas e exposições para mostrar o trabalho de gente nova”, conta Evelyn. O evento foi realizado no último sábado (27) na Casa de Lua, espaço de trabalho coletivo apenas para mulheres criado em 2013 e começou com um bate papo sobre as dificuldades de ser uma garota que quer fazer arte.
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Sirlanney explica como tornar o desenho mais atraente enquanto rabisca a cartolina azul: “Para enriquecer o quadrinho, é interessante dizer uma coisa e mostrar outra no desenho”










Enquanto a voz da cantora jamaicana Dawn Penn soava ao fundo, dezessete meninas em uma roda escutavam atentamente Gabriela Masson, a artista brasiliense por trás da personagem de quadrinhos Garota Siririca: “Quanto mais eu trabalho com temas específicos da mulher, mais eu percebo que esse rolê com os caras não é para mim”. A resistência não é só no cenário dos quadrinhos. “Desde que você começa no grafite, você sai para pintar e os caras acham que é por causa deles. Nos eventos, alguns ficam te observando e julgando”, completa a paulistana Evelyn.
Às vezes, as próprias meninas têm dificuldade de se articular. “Nos quadrinhos, quando eu comecei, tinha muita pouca mina fazendo. E as que existiam tinham essa mentalidade de competição”, relata Gabriela. Para Masson, o cenário só mudou após a criação da zine XXX, projeto organizado por Beatriz Lopes no final de 2013 que reuniu quadrinhos de diversas mulheres. “Eu considero a XXX um grande marco porque antes dela as autoras nunca tiveram interesse de se organizar para conversar sobre quadrinhos”, explica Masson.
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Quadrinho de Sirlanney publicado na página do Facebook “Magra de Ruim”
“Demorei a fazer quadrinho porque não me identificava. Só comecei depois que entrei em contato com o desenho mais livre”, contou a cearense radicada no Rio de Janeiro Sirlanney. Já Gabriela incentiva aquelas que têm medo de não ter a voz ouvida: “A impressão é de que os quadrinhos não têm público, mas eles podem impactar mais a sociedade porque chegam aonde a Academia não vai, por exemplo”.

Os formatos

Para quem ainda está começando, a zine pode ser o formato ideal. A revista artesanal tem como características a tiragem pequena e irregular e a distribuição reduzida. “Ela tem uma aura que permite que você erre”, define Masson. Além disso, é uma forma alternativa de publicar o próprio trabalho, já que não é fácil chegar até às grandes editoras.  Masson também conta como vantagem o maior controle na produção e na distribuição. “A zine é um instrumento de empoderamento. Fiz a minha primeira zine, a Ética do Tesão na Pós-Modernidade, num momento muito difícil da minha vida, quando decidi que ninguém ia falar por mim”, relata.
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Lambe-lambe de Evelyn Queiróz. Foto publicada na página Negahamburguer

Já o lambe-lambe é um cartaz colado nas ruas com tinta látex ou farinha e água. Segundo Evelyn,  é um formato interessante para quem está começando na arte de rua e ainda não tem tanta coragem de se expor, já que o desenho pode ser preparado com antecedência antes de ser colado em muros ou postes. Mas a artista ressalta: “É uma arte da qual você se desapega, porque sabe que vai ser arrancada de lá depois”.
Para consolidar o próprio trabalho, as três enfatizam o papel da internet. “Divulgação no Facebook dá bastante visibilidade e é bom sempre manter a página atualizada”, aconselha Sirlanney. As meninas destacam também a importância de ir a eventos para conhecer artistas locais e estabelecer uma rede de contatos. O trio mostra que o diálogo entre internet e as ruas é possível.

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