Monday, March 30, 2015

Quadrinhos no Ceará: entre o papel e 

o digital

Iniciativas empreendedoras e trabalhos diferenciados fazem dos quadrinistas cearenses uma das grandes apostas para os próximos anos. Saiba como a internet vem colaborando na divulgação e formação do público
 
 
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Quadrinista, no estúdio Daniel Brandão, produzindo durante entrevista. Foto: Maggie Paiva
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Vivemos um período que a produção de quadrinhos tem influenciado todos os segmentos de arte, como o cinema, TV, os videogames e artes plásticas, levando seus autores a conquistas e criação de novos espaços e novas maneiras de inserção no mercado.
 
Há uma oportunidade única de alcançar novos mercados, não mais apenas pelas folhas de um gibi, como também pelas telas reluzentes de um tablet ou computador. É chegada a vez das histórias regionais despontarem no mercado nacional e serem alternativas para novos e velhos consumidores ávidos por um bom “gibi” para matar a saudade de uma infância envolta de tanta imaginação.
 
Quadrinhos como “Capitão Rapadura”, de Mino; “Quem matou João Ninguém”, de Zé Wellington e Wagner Nogueira; “Liz”, de Daniel Brandão e iniciativas como a Oficina de Quadrinhos e estúdios próprios são alguns dos inúmeros exemplos de como o Ceará está se tornando um polo exportador e fomentador de um novo público de histórias em quadrinhos, que não fica preso apenas aos arquétipos americanos, mas investe em produções que fogem do convencional - seja em arte e roteiro ou em novos meios de divulgação de suas produções.


 
Oportunidade na internet
 
Desde criança, o sonho almejado por quem desenha seus personagens favoritos é fazer sua vida a partir dessa paixão. Ter uma obra publicada da maneira mais rápida, fácil e segura é outro desafio. Com o passar do tempo, esta dificuldade foi amenizada, graças à internet.
 
Com Pedro Brandão, ou PJ, não foi diferente. Como tantos garotos sonhadores que veem em seus desenhos algo que inspire e transforme, o jovem de 24 anos, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Ceará (UFC), levou à frente sua paixão pelos quadrinhos e utiliza as ferramentas que tem disponível no momento.

 
“O interessante nisso tudo é ver que quadrinho é arte, linguagem e forma de expressão. Quando você aprende uma nova linguagem, você pode falar coisas verbalmente e através de quadrinhos”, explica ele.

 
Desenhando e colaborando com roteiros de sua autoria, Pedro é um entusiasta que batalha por um reconhecimento maior do quadrinhos. “É uma linguagem subaproveitada em algo mais próximo de seu primo rico, a literatura", garante.

 
E desbravando os conceitos do que seria arte, PJ vê a internet como uma grande aliada quando o assunto é distribuir e atrair os olhares para os desenhistas de nossa terra. 


 
“Vale para divulgar. Se você tem interesse em fazer coisas só para internet, vai ter espaço para isso. Existem ferramentas de programação, as webcomics, que têm movimento e interação. Bem, existiriam quadrinhos sem a internet? Sim, mas ela foi uma mão na roda para quem produz para quem quer comprar, enfim, como é a melhor maneira de saber o que estão produzindo? Na internet”. 

 
Na visão do professor da UFC e da Oficina de Quadrinhos, Ricardo Jorge, o webespaço não só divulga como cria novas mentes criativas no Estado.



 
“Quando não se tinha a internet, você tinha que fazer um fanzine, um trabalho independente, arcar com custos gráficos. Hoje com a internet é só você ter uma boa rede de amigos, de contatos, divulga seu trabalho e pode até chegar ao mercado editorial tradicional”, aponta.
 
Como parte de seu espírito acadêmico, Ricardo destaca também a iniciativa de grupos que captam novos criadores para seminários e oficinas, proporcionando o suporte teórico necessário para um conhecimento de mundo básico e que isso tornaria, em conjunto com a intuição da internet, mais fácil a distribuição e compra de produtos não só cearenses, mas nacionais e internacionais.
 
“Cada vez mais cedo as crianças entram em contato com os quadrinhos e vão tendo contanto com essa linguagem”, esclarece o professor.

 
Carreira de sucesso
 
Quadrinista com passagem e produções para editoras americanas, criador de Liz, inspirada em sua simpática filha, o cearense Daniel Brandão vê com bons olhos o papel da internet como um importante caminho de publicação, mesmo que aquela pequena faísca de sonho do cheiro do papel publicado ainda seja o grande movedor de novos traços. 
 
“A internet tem uma importância fundamental na carreira de qualquer quadrinista, seja aquele que quer enveredar para o webcomic, mas também aquele que tem a internet como um canal de vendas, de distribuição”, justifica.
 
Inspirado pelos clássicos traços de Jon Romita, John Buscema e pelos momentos em família, Daniel viu nos quadrinhos uma forma de "entrar em outro mundo", onde as coisas davam certo. O sonho foi levado a sério e Brandão resolveu conhecer mais da área, estudando Artes Visuais nos Estados Unidos. De volta ao Ceará, suas experiências serviram de base para um novo projeto no mercado local. Desde 2002, ele atua no estúdio que leva seu nome.  Hoje ele vê um bom momento de produção, sejam pelas maiores facilidades de distribuição como também pelas oportunidades de capacitação.
 
“Muita gente que está no mercado hoje, dessa nova geração, passou pelas nossas mãos, como Denílson Albano, com trabalhos na área de moda e alguns outros para a Rede Globo, outros que trabalharam para o mercado americano, enfim, é muito corriqueiro haverem eventos no Estado, como palestras, onde acabo me sentando ao lado de alunos e ex-alunos, escutando e pensando sobre quadrinhos. É muito gratificante e me mostra que faz valer a pena”, destaca.
 
Como palavras de auxílio para aqueles que debutam na carreira, o ilustrador exalta que além do talento e postura profissional são essenciais certos tons de empreendedorismo para seguir em frente no mercado.


 
“É importante ter talento, mas ele não é primordial. É necessário também ter uma postura profissional e passar por coisas que às vezes os desenhistas relegam a segundo plano como o estudo formal, para que sua comunicação e compreensão de mundo também sejam boas. Saber defender e explicar sua profissão, porque quando isso não acontece é muito difícil um artista conseguir se sobressair só pelo talento”, aponta.

 
Empreendedorismo no mundo dos quadrinhos made in Ceará
 
Um dos pontos mais evidentes nas iniciativas dos cearenses que apreciam e produzem quadrinhos, além da paixão pelo que fazem, é a noção de empreendedorismo aplicada nos projetos que desenvolvem.
 
O projeto Qomics é uma daquelas ideias que nascem de um estalo e podem gerar bons trabalhos e sucesso profissional. Desenvolvida da união de 5 sócios, Rafael Dantas, Raul Peixoto, Tereza Machado, Leandro Santos e Marlon Raphael, a plataforma, com previsão de lançamento ainda para o primeiro semestre de 2014, aposta na produção e divulgação online de histórias em quadrinhos com temáticas brasileiras, de quadrinistas cearenses ou não.

 
Essa vertente não é por acaso. Segundo Leandro e Rafael, somente após muitas pesquisas sobre o comportamento do mercado, viu-se que era válido o modelo de projeto que devem lançar.

 
“Notei que esse pessoal de fora tem muita vontade de conhecer o Brasil, mas não tem muito como conhecer. Com isso e a facilidade de termos quatro idiomas (inglês, francês, espanhol, português), vamos buscar seguir nosso slogan: Qomics, do Ceará para o mundo”, ressalta Leandro.
 
A ideia inicial era seguir o convencional e enviar previews das produções para editoras. Mas com diversas negativas e nenhum interesse, os 5 puseram a mão na massa, resolveram apostar em material próprio e ajudar pessoas que têm projetos bons e não vão para editoras.
 
Mesmo sem uma data certa de lançamento, há a certeza da primeira produção do selo, que também será lançado em conjunto com a plataforma. Desenhado por Rafael Dantas,com inspirações nos quadrinhos europeus de Moebius e no cearense Al Rio, Mandacaru Vermelho (vídeo), conta a história de um ex-tenente do exército brasileiro, que fez parte da Coluna Preste e que está reformado após problemas de saúde. Ele será responsável por caçar os cangaceiros no nordeste brasileiro e bate de frente com a ira de um temido coronel do sertão.

 
“Nosso foco é justamente o alternativo, sair mais do comics americano e apostar em algo diferenciado. O cara que gosta de quadrinhos vai gostar do Antônio, do Zé. O nosso sonho é chegar à sala de aula e vermos as pessoas lendo nossas revistinhas sobre cangaço (...)”.
 
Atingir novas e antigas gerações é o foco do grupo. Pela facilidade do digital e com a posterior chegada de versões impressas, a área de atuação dos empreendedores não fica presa apenas a um segmento.
 
“Queremos trazer a galera do iPad, do tablet e também aquela que gosta de sentir o papel na mão, ter o que guardar. Essas pessoas da nossa época que liam Conan, o Superman, a Mônica. Queremos trazer de volta para o mundo do quadrinho e passar de geração a geração”.

 
O plano sem dúvida é ambicioso, porém, Rafael e Leandro sentem-se contentes em afirmar que estão unindo novos e velhos quadrinistas cearenses.

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