Friday, March 27, 2015

HQ ganha um espaço maior na universidade

profa. Gêisa Fernandes - foto MA Brandt
É fato que as HQs estão ganhando cada vez mais espaço também nas universidades. Mais uma prova disso é o simpósio "História e Quadrinhos: pesquisa e ensino em História e as interações com a Nona Arte", que acontecerá dentro do XXVI Simpósio Nacional de História, de 17 a 22 de julho, na USP, em São Paulo. 
Aos interessados em apresentar trabalhos ou participar como ouvinte, aí vai uma cópia da entrevista que realizei com a Dra. Gêisa Fernandes (FOTO), coordenadora deste encontro.



JBlog >> É perceptível que, aos poucos, a HQ vai ganhando espaço na, arram, "academia". Ela é tema de teses e até de simpósios. A que a senhora atribui esta mudança?
Gêisa - Ao reiterado esforço, senão do meio acadêmico como um todo, pelo menos de diversos de seus setores, no sentido de diminuir a separação entre o que acontece dentro da universidade e as experiências da chamada “vida real”. A ideia de um ambiente fechado em seus próprios problemas, parecido com um clube de difícil acesso (e membros algo esnobes) permitiu, por um lado, a sobrevida da autonomia acadêmica, o que me parece uma importante conquista, sobretudo se pensarmos em momentos conturbados da vida política do país. 

Por outro lado, o processo de construção e estabelecimento de um espaço para o exercício da crítica e do livre pensar passa também por algumas imposições restritivas, indispensáveis para o reconhecimento da instituição frente à sociedade. Em outras palavras: para que o conhecimento produzido pela academia fosse reconhecido pela sociedade (com um todo e não apenas pela própria acadêmica) como “sério”, foram eleitos temas igualmente respeitáveis, linguagens “pesquisáveis”, objetos “importantes” cuja análise pudesse resultar em “ciência”. Não era o caso das histórias em quadrinhos. 

O fato de que o número de trabalhos acadêmicos e de eventos ligados a quadrinhos venha aumentando diz respeito, portanto, tanto a uma alteração no modo como a sociedade enxerga a universidade, vista agora como uma instituição que precisa dialogar, sob pena de se tornar obsoleta, com os agentes sociais; quanto à (nova) imagem que universidade busca construir para si. 

JBlog >> Eu tentei o mestrado na UFF com uma tese sobre HQ. Na UFF primeiro o projeto tem que ganhar uma pontuação alta para, depois, ter o direito ou não de se fazer a prova e a entrevista. Minha pontuação nem me permitiu fazer a prova. No entanto, fora do ambiente acadêmico público, o projeto tem sido super bem recebido em faculdades como ESPM e FGV, que analisam o mercado. Por que esta miopia dentro de algumas universidades públicas? Seria a USP uma exceção?
Gêisa - Eu tenho uma história bem parecida para contar (risos). Aliás, duas: meus projetos de mestrado e de doutorado também não receberam notas que os classificassem para a entrevista da UFF, tendo sido recebidos, porém, na UFPE (mestrado) e na USP (doutorado). Nesta última, apesar da enorme concorrência, obtive uma classificação boa o suficiente para tornar-me bolsista da Capes. 

No meu caso, porém, não posso falar em miopia das universidades públicas. O que talvez aconteça (e estou entrando no terreno da opinião) seja uma confluência de fatores, tais como: a presença de núcleos de excelência dentro das universidades (o que, em si, é bastante positivo), que formal ou informalmente privilegiam determinados projetos (ou determinada metodologia ou bibliografia) em detrimento de outros, diminuindo a pluralidade dos programas, o que é uma pena. 

A USP (e acentuadamente a Escola de Comunicações e Artes, ECA) de fato, se mostra bastante pródiga na produção de material de análise sobre quadrinhos. Porém, este espaço também não veio “naturalmente”, mas sim é fruto da perseverança e do esforço de pesquisadores como o Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro, coordenador doObservatório de Histórias em Quadrinhos da ECA. O papel de destaque do Prof. Waldomiro no que diz respeito à inclusão do Brasil no panorama internacional da pesquisa sobre quadrinhos é reconhecido por grandes nomes da área, como o Prof. Dr. John Lent (Temple University). 

JBlog >> No caso do simpósio, que tipo de público vocês pretendem reunir? Quadrinistas, historiadores ou curiosos pelo tema?
Gêisa - Este ano a programação para quem se interessa por Quadrinhos está variada. A ECA será o local de dois importantes eventos: em julho (entre 17-23) ocorre o XXVI Simpósio Nacional de História da ANPUH, o qual contará este ano com um espaço reservado para as HQs, denominado “História e Quadrinhos: pesquisa e ensino em História e as interações com a nona arte” e, em agosto, entre 23 a 26, será a vez da primeira edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos

O primeiro evento visa discutir as relações entre História e a linguagem das Histórias em Quadrinhos, enfocando aspectos como: ensino, fidelidade histórica, tensão entre ficção e realidade, registro histórico e registro ficcional. 

O segundo, por sua vez, enfoca a divulgação de avanços científicos relacionados às histórias em quadrinhos nas diversas áreas do conhecimento, de modo a promover o intercâmbio de novos saberes e experiências. Ambos os encontros visam reunir aqueles que, de algum modo, estão envolvidas com quadrinhos (como você mesmo citou: pesquisadores, pessoas ligadas à produção de HQs, estudandes, apreciadores em geral). 

Será uma boa maneira de se descobrir que tipo de trabalho está sendo feito com quadrinhos hoje, por quem e com que resultados. Creio que teremos gratas surpresas.

JBlog >> Estou há meses procurando por programas de intercâmbio e pesquisa entre instituições brasileiras e européias para fazer uma pesquisa de campo por lá, e não encontrei nada. Nem mesmo em embaixadas, consulados, etc. O que falta para estreitar esses laços? Seria a HQ um campo de pesquisa ainda novo, de vanguarda, ou mesmo em processo de reconhecimento e legitimação?
Gêisa - Dentre as alternativas que você colocou, fico com a última pois, apesar dos inegáveis avanços, é possível afirmar que o campo ainda busca reconhecimento e legitimação. Há um artigo de Thierry Groonsteen, autor de algumas dezenas de livros sobre arte sequencial (perceba como a própria linguagem experimenta definições, na tentativa de afirmar sua própria identidade), que lança uma questão bem próxima desta que você levantou (Why are Comics still in Search of Cultural Legitimization?, Comics and Culture, MTP, 2000). Groonsteen sugere que o preconceito acadêmico se baseia no que ele chama de “4 pecados” dos quadrinhos: ser um produto híbrido, carregar o estigma de “subliteratura”, estar ligado à caricatura (outra forma de arte marginal) e ser considerado “coisa de criança”. 

O irônico da situação, é que para ultrapassarmos estes preconceitos, para de fato estabelecer um diálogo com a academia, não basta querer ou celebrar o aumento de estudos sobre o tema, o equivalente a mostrar, digamos, por que a academia precisa dos quadrinhos. O ponto mais delicado dessa discussão surge quando os termos são invertidos, ou seja, quando as pessoas que produzem e consomem quadrinhos se perguntam por que os quadrinhos precisam da academia. 

Sobre intercâmbios, você tem razão, ainda são poucos, mas existem. A Profa. Dra. Valéria Bari, por exemplo, realizou na Universidade Carlos III de Madrid parte de seu doutorado, com uma tese que subvertia justamente um dos “4 pecados” de Groensteen, o de que “quadrinhos são coisa de criança”. Os resultados demonstraram que os quadrinhos não só estimulam as crianças a ler, como facilitam a migração para outras para outras formas de literárias, auxiliando na formação plena do jovem leitor.

JBlog >> Como a senhora enxerga a HQ dentro da Economia da Cultura (ou Criativa), que acaba de ganhar uma pasta dentro do Ministério da Cultura, na gestão Anna de Holanda?
Gêisa - Ainda é um pouco cedo para arriscar qualquer prognóstico a respeito do impacto que a pasta poderá ter para os Quadrinhos, seja do ponto de vista da obtenção de recursos para projetos na área, seja no fomento a atividades que, de alguma forma, envolvam a produção e o consumo de HQs. 

A princípio, a medida parece bastante positiva, na medida em que a nova pasta se alinha com o conceito de Economia Nova, baseada em criação e que busca romper com as amarras da economia industrial clássica, como informa o portal da Cultura do MinC e, neste sentido, deveria contemplar linguagens pouco lembradas pelos recursos públicos. No entanto, o (talvez superestimado) episódio envolvendo a retirada da licença Creative Commons do site indica que talvez o próprio Ministério precise se posicionar mais claramente a respeito de suas diretrizes. 

E aí, se animou de participar do simpósio? Nos vemos em São Paulo então.
Para mais infos visite o site do evento.

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