Wednesday, January 14, 2015





Quadrinhos: parte da sexta arte ou nona arte?



Por Roberto Amaral Santos.
Nos últimos anos os quadrinhos tem se popularizado no Brasil, quero dizer, as novelas gráficas tem ganhado popularidade, pois os quadrinhos sempre tiveram um espaço relativamente grande em nossa sociedade devido à cultura de gibis nas bancas de jornais (principalmente às “revistinhas” da Turma da Mônica, lidas por 11 entre 10 crianças brasileiras). Tal fato merece destaque, uma vez que há muito preconceito com relação aos quadrinhos, considerando-o uma subforma de literatura ou, ainda, de arte. Sobre as críticas aos quadrinhos como expressão artística deixo a critério do leitor avaliar sua sustentação. Porém, a afirmação de que quadrinhos são uma forma menor de se fazer literatura é de difícil justificação, dado que possuem uma forma extremamente peculiar de comunicação que difere em muito da literária. Em suma, quadrinhos não são literatura!
Minha argumentação sobre a distinção entre quadrinhos e literatura não será acadêmica e poderá conter imprecisões, uma vez que não sou especialista no assunto. Na verdade, tentarei expor algumas constatações que podem ser obtidas na comparação ou observação de ambas as artes.

À primeira vista, o que distingue os quadrinhos da literatura para um leitor desatento é o fato dos primeiros possuírem imagens. Mas isso, por si só, não seria suficiente para diferenciar totalmente, ao menos na minha opinião, as duas artes. Afinal, quem nunca leu um livro ilustrado? Na verdade o que as distinguirá será principalmente o tratamento dado à imagem e a importância dela para a expressão artística. Contata-se que o visual tem papel essencial para os quadrinhos, embora seja dispensável para a literatura. Em geral, nos quadrinhos podemos notar imagens bem definidas servindo como substitutas à descrição de paisagens, fisionomia de personagens entre outros não são obrigatoriamente necessárias. Por exemplo, o brasileiroMarcelo Saravá produz tiras valendo-se apenas dos balões, muito comuns aos quadrinhos, o que o aproximaria bastante à linguagem literária, visto que o centro de sua produção seria a palavra escrita. Porém, deve-se lembrar que muitos outros elementos podem ser utilizados (mesmo que não explorados por uma escolha do artista) pelo autor de modo a transmitir mensagens, por exemplo, o formato dos balões, a cor, o formato de tira ou outro, a tipografia, entre outros. Discutiremos sobre este último elemento a seguir.

A tipografia (aqui entendida como o tipo das letras, sua forma, como estão escrito, enfim, suas características gráficas) já foi e é utilizada na literatura com fins de transmissão de mensagens e emoções. Entretanto, é nos quadrinhos que se observou a aplicação em larga escala de técnicas relacionadas à tipografia. Will Eisner em sua obra seminal “Quadrinhos e Arte Sequencial” sobre a teoria por traz da prática quadrinística considerou “o letreiramento, tratado “graficamente” e a serviço da história, funciona como uma extensão da imagem. Neste contexto, ele fornece o clima emocional, uma ponte narrativa, e a sugestão de som”[1]. Isso mostra que, tão importante quanto o sentido das palavras é o que a forma desta sugere. Um letreiramento em letras garrafais pode buscar expressar um grito enquanto em letra cursiva pode indicar uma carta escrita a mão pela personagem da história.

Sobre o fato da linguagem da nona arte valer-se de imagens há ainda outro ponto interessante: o tipo de linguagem utilizada numa obra em quadrinhos costuma ser diferente daquela empregada numa obra literária. Alguns pontos sobre isso são: uma história em quadrinhos pode prescindir da palavra escrita, a escrita não precisa descrever lugares, fisionomias, emoções das personagens e muitos outros detalhes que podem ser diretamente expressos em imagens. A cronologia também pode ser expressa pela sequencia das imagens. Com isso, altera-se muito do locus onde se desenvolve a arte, pois na literatura muito do fazer artístico está na forma dada ao texto nas “seções” que são desenvolvidas como imagens nos quadrinhos.

Voltando à questão da essencialidade da imagem aos quadrinhos, gostaria de destacar uma das coisas mais interessantes de qualquer arte: seu poder sugestivo (de sugerir, despertar emoções, sentimentos, estados de espírito). Enquanto na literatura o foco é a sugestão por meio da palavra escrita e sonoridade, nos quadrinhos o foco costuma ser na sugestão por meio da imagem (embora a palavra também possa ser utilizada com tal fim). Talvez por isso os quadrinhos tenham sido relegados ao plano de arte menor, pois houve uma busca de algo que transcendesse o que estava impresso no papel na linguagem escrita utilizada pelo quadrinista, enquanto muitos apenas buscavam, por meio desta, contar a história, deixando as sutilezas para as imagens. Uma última observação é que os quadrinhos são uma hibridização entre diferentes formas de expressão artística como desenho, fotografia, pintura (artes visuais em geral) e escrita que se diferencia destas por uma série de elementos. Aliás, tal diferenciação pode se dar de maneiras inesperadas, por exemplo, como na obra S.A.C.R.E.D. do artista Ai Weiwei, que possui muitas das características que considera-se constituintes, mas não necessariamente exclusivas, da linguagem quadrinística.
Edição: Samy Dana e Octavio Augusto de Barros.
http://gvcult.blogosfera.uol.com.br/2013/10/22/quadrinhos-parte-da-sexta-arte-ou-nona-arte/

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