Tuesday, January 13, 2015

Jordaniano usa quadrinhos para contra-atacar ideologias terroristas

Suleiman Bakhit cria histórias do Oriente Médio como uma alternativa ao pensamento terrorista por acreditar que maior ameaça na região é o terrorismo disfarçado de heroísmo

17/12/2014 | 03h33
Jordaniano usa quadrinhos para contra-atacar ideologias terroristas Warrick Page/The New York Times
Suleiman Bakhit, artista e empresário da JordâniaFoto: Warrick Page / The New York Times
A carreira de Suleiman Bakhit é baseada em estudar heróis. O jordaniano de 36 anos é empresário e autor de quadrinhos que cria histórias do Oriente Médio como uma alternativa às ideologias terroristas. Sua área de estudo inclui pesquisas com crianças nos bairros pobres de Amã, a capital jordaniana, e suas cercanias, além dos campos de refugiados sírios.
Tudo isso, diz ele, lhe deu uma visão sobre o que move o terrorismo e uma análise sobre as estratégias de propaganda do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, ou EIIL, e como elas melhoraram em relação à pioneira al-Qaeda. Osama bin Laden fazia conferências em vídeos didáticos, mas agora, o Estado Islâmico conta com jovens jihadistas falando a recrutas em potencial em suas línguas nativas – inglês, francês ou árabe – criando uma conexão em nível emocional.

— Eles pregam o terrorismo como uma missão heróica. A maior ameaça no Oriente Médio é o terrorismo disfarçado de heroísmo — disse Bakhit em uma entrevista.

Ele diz acreditar que a narrativa terrorista é essencialmente uma cópia do trabalho de Joseph Campbell, referindo-se ao americano especializado em mitologia. Na visão de Campbell, a jornada heroica é o ponto central na criação de um mito; o herói recebe um chamado à ação, talvez hesite, mas em seguida, sai de casa para ser testado. Entre outras coisas, seu trabalho inspirou o cineasta George Lucas na criação de "Guerra nas Estrelas".

Bakhit estuda Campbell como parte de seu grupo no TED, organização sem fins lucrativos conhecida por patrocinar conferências para divulgar ideias. Ele ampliou essa teoria e sua história em um recente discurso no Oslo Freedom Forum, reunião de dissidentes e ativistas, e em uma série de entrevistas.

— A maior viagem heroica em nossa cultura é a do Profeta Maomé, que deixou sua aldeia para ir meditar em uma caverna no meio do deserto. Enquanto o fazia, o arcanjo veio até ele e lhe transmitiu uma mensagem. Ele saiu da caverna transformado, com uma nova visão do Islã, que seria usada para unir todos os árabes  — diz Bakhit.

E continuou: 

— O interessante é que bin Laden reproduziu essa jornada ao pé da letra. Deixou sua vida de riqueza e aristocracia na Arábia Saudita, foi para as cavernas do Afeganistão e surgiu delas como um novo líder, com a nova visão de expurgar a vergonha da nação muçulmana através da violência. Essa é a mesma mensagem heroica divulgada a todos os terroristas na Europa Ocidental que vão se unir ao EIIL. Um grande apelo para muitos jovens, infelizmente — conclui o autor.

Na visão do Estado Islâmico, a vitória independe de viver ou morrer. 

— Se você for morto, irá se unir ao Profeta e a Alá; caso contrário, sua jornada continua — disse Bakhit.

Ele acredita que os quadrinhos e os videogames, usados juntamente com uma narrativa correta, podem fornecer um antídoto – e fundou sua empresa em 2006, chamada Aranim Media Factory, cujo nome é a fusão das palavras "árabe" e "anime", para produzi-los. Mas seu caminho nunca foi fácil.

Em muitos aspectos, Bakhit está jogando fora sua própria jornada campbelliana. Com peito largo, cabeça rapada e um cavanhaque, ele certamente parece um herói de ação. Como muitas pessoas, viu sua vida mudar no dia 11 de setembro de 2001, quando estudava na Universidade de Minnesota. 

No dia dos ataques, antes que sequer soubesse deles, recebeu um telefonema de seu pai, Marouf al-Bakhit, político jordaniano que duas vezes ocupou o cargo de primeiro-ministro:

— Ele me disse: 'Suleiman, se alguém perguntar seu nome, diga que você é do México e se chama José'. Eu devia ter lhe dado ouvidos. Algum tempo depois, fui atacado por um grupo de homens apenas por ser árabe.

Decidiu visitar escolas na área para criar um relacionamento com a comunidade e explicar para as crianças americanas que a maioria dos muçulmanos não é terrorista. Quando um menino lhe perguntou se o mundo árabe tinha seu próprio Super-Homem ou Batman, ele percebeu que a resposta era não. Descreve o momento como uma epifania. Aprendeu então a desenhar sozinho e começou a criar histórias e personagens. Por fim, voltou para a Jordânia e abriu sua empresa.

Logo no início, conduziu grupos de foco com crianças jordanianas de diferentes classes econômicas:

— Eu perguntava a elas: 'Quem são seus heróis?'. 'Não temos heróis, mas ouvimos muita coisa sobre bin Laden e Zarqawi', referindo-se ao militante jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, que liderava o grupo que acabou se tornando o Estado Islâmico. 

— E perguntei: 'O que você sabe sobre eles?' E as crianças respondiam: 'Que eles nos defendem contra o Ocidente, que quer nos matar.' E esta é a narrativa e propaganda terrorista básicas.

No início, o governo jordaniano apoiou sua empresa, mas ele diz que seu pai não era um grande entusiasta. 

— Ele ficou meio decepcionado a princípio, queria que eu fosse engenheiro. Mais tarde, começou a mudar de ideia e ver seu valor — disse ele.

E conta que mais de um milhão de exemplares de suas histórias em quadrinhos foi distribuído nas escolas da Jordânia e que sua empresa recebeu uma concessão do Fundo de Desenvolvimento Rei Abdullah II. 

Seus primeiros quadrinhos foram sobre heróis de guerra jordanianos; aí, começou a ampliar seu alcance, criando histórias como a que fala sobre uma unidade militar feminina. Contratou desenvolvedores da Internet para criar jogos para o Facebook. Um de seus personagens mais populares, Elemento Zero, era a versão árabe de Jack Bauer, o agente de contraterrorismo da série americana de TV "24 Horas".

Ele diz não ter recebido apoio do governo dos EUA e que não o aceitaria.

— Se eu conseguir qualquer financiamento americano, isso pode ser percebido como propaganda, CIA, e a ideia fracassaria. Nós do mundo árabe precisamos assumir a responsabilidade por esse problema. Temos de desenvolver as soluções a partir do zero — diz.

Ao longo do caminho surgiram problemas: uma agressão de extremistas o deixou com uma longa cicatriz que cruza seu olho esquerdo. E sua relação com o governo ficou tensa.

Depois que escreveu uma história pós-apocalíptica no estilo Mad Max chamada "Saladin 2100", que se passa quase um século no futuro, o governo notou que ele não deixou claro se a atual Dinastia Hachemita ainda estava no poder. A história foi uma colaboração com Tony Lee, prolífico autor britânico de quadrinhos.

— Ela foi considerada 'muito perigosa' porque não respondeu a pergunta sobre quem será o líder daqui a 100 anos. Agora você sabe por que perdi meu cabelo — relata.

No fim, ele acabou fechando sua empresa quando a pressão governamental aumentou. Muitos de seus quadrinhos, incluindo um sobre um mundo governado por adolescentes depois que os adultos desapareceram, ainda são inéditos.

Bakhit enfrenta seus problemas com bom humor. Ainda mencionando sua calvície, falou: 

— Na verdade tenho muito cabelo, ele só está mal distribuído.

Sobre o ataque que o deixou com a cicatriz: 

— Minha vida amorosa melhorou tremendamente.

Ele diz que o posicionamento do governo está mais brando e que agora está em processo de reiniciar sua empresa com um novo nome, a Hero Factor, mas revela estar considerando transferir seu domicílio para as Ilhas Virgens Britânicas. Um porta-voz do governo jordaniano preferiu não fazer comentários.

— Para cada terrorista que matamos, outros cem nascem. As narrativas impostas pelo Estado Islâmico estão anos-luz à frente do que temos e ninguém as enfrenta nesse nível — disse Bakhit.

— Nesses termos, essa é uma verdadeira guerra de mitologias, que pode ser travada por uma fração do custo de um ataque de drones — concluiu.
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/12/jordaniano-usa-quadrinhos-para-contra-atacar-ideologias-terroristas-4665082.html

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