Sunday, January 4, 2015

Entrevista com o cartunista Carlos Latuff em Pelotas



Carlos-Latuff











O cartunista /chargista Carlos Latuff esteve em Pelotas no dia 07 de fevereiro de 2013. Tive o prazer de entrevistá-lo e, compartilho aqui a entrevista.
Maiara Marinho – Tu defendes causas específicas ou basta elas serem sociais?
Carlos Latuff – Eu defendo causas justas. Eu defendo causa em que tenha um segmento que é desfavorecido, eu costumo dizer que defendo a parte mais fraca da corda. Então seja o sem-terra, o republicano na Irlanda, o curdo na Turquia, o palestino, o cara na favela. Eu tento colocar o meu trabalho a serviço desse segmento desprotegido ou à margem.

MM – Tu consegues expressar toda a ideia de uma opinião em uma única charge?
CL – A charge ela tem muito foco. Em um tema abrangente a charge normalmente é sintética. Eu escolho um ponto daquele tema. Com isso, creio que a charge até pode, em última análise, ser abrangente, mas também pode ser pontual. A charge tem a capacidade de síntese. De expressar uma ideia que com palavras seria complexa ou seria muito prolixa e rebuscada.

MM – Por exemplo, no Brasil, as pessoas ficam indignadas com a corrupção, mas participam muito pouco na política e, essa falta de participação é o que faz dela tão insistentemente corrupta. É possível expressar isso em uma charge?
CL – É possível expressar qualquer ideia em uma charge. Quanto a essa questão da corrupção eu queria fazer um adendo e deixar claro o seguinte, eu não sou petista, lulista ou dilmista. Eu sou cartunista. Existe um argumento que se vê muito em voga nos dias de hoje que o PT é o partido mais corrupto do Brasil. De que o governo do PT é o mais corrupto da história do Brasil. De que a solução para a corrupção é o fim do governo do PT. Então, existe uma tentativa por parte, particularmente, dessa oposição ao governo do PT de apresentar o governo como se fosse corrupto. A questão não se resume a governo, a questão se resume a um sistema político que é corruto desde a colônia. Então o PT não inaugurou a corrupção no Brasil e imaginar que o fim do PT é o fim corrupção no Brasil é uma ideia, no mínimo, ingênua. No caso da oposição ela é uma ideia maliciosa. O governo do PSDB foi tão corrupto quanto. Evidentemente que hoje a imprensa dá bastante destaque a corrupção do PT por que tem interesse político nessa questão. Quem está sendo honesto ou sincero ao dizer que é contra a corrupção no Brasil vai ter que pegar o sistema e não ficar se debatendo no partido X ou no partido Y.

MM – Por que a sociedade precisa de polícia?
CL – Se a gente for falar na sociedade, for falar em organização social, dos seres humanos, pode-se dizer que ele (o ser humano) sempre precisou de uma ordem, uma ordenação. Só que o que a gente percebe é que a função principal da polícia é mais do que simplesmente impedir que o crime aconteça. Essa visão é muito maniqueísta: o bem e o mal, o bandido e o policial. Então, a polícia tem cumprido o papel de proteger os interesses do Estado, em primeiro lugar. Proteger o status quo, a chamada classe dominante. Quando você vê a polícia muito mais empenhada na repressão aos movimentos sociais do que ao crime esse é um “bom indício”, sem falar que a polícia tem feito parte do crime. Nos noticiários mostram-se quadrilhas formadas por policiais. Praticamente não tem crime que não tenha um ou mais policiais envolvidos. No Rio de Janeiro, por exemplo, tem as milícias que são organizações criminosas inteiras formadas por policiais, ex-policiais, militares. No México, um cartel de drogas poderoso chamado Zetas, foi formado pela polícia mexicana. Isso não é um fenômeno do Brasil. É um fenômeno mundial. A polícia sempre a serviço do Estado. Então, se a gente tiver que pensar numa polícia que proteja os cidadãos de elementos violentos, criminosos, teria que pensar em uma polícia comunitária, uma polícia local formada por cidadãos do lugar que fossem escolhidos pela comunidade, que tivessem um envolvimento e identificação com a comunidade. Mas a questão é: a polícia não pode ser analisada à parte do Estado. A polícia não é um órgão autônomo, então para que se tivesse uma polícia comunitária e popular era preciso que tivesse um governo comunitário e popular.

MM – Como a tua charge influencia na sociedade?
CL – Eu acho que o papel da charge é mais do que fazer rir. É preciso apontar um ponto de vista que os outros não apontam. Seja por falta, seja por omissão ou por má intenção. Se a chamada grande imprensa tem foco diferenciado em relação aos temas, se ela privilegia uma visão empresarial das coisas, mercadológica das coisas. Se a grande imprensa tenta demonizar os movimentos sociais, tenta apresentar os sem-terra como invasores, o favelado como bandido, o palestino como terrorista eu acho que o cartunista que não está ligado a grande imprensa ele pode promover o contraponto. A charge que ele produz pode indicar outro caminho de observação. A charge pode despertar consciências, pode despertar ira dos governantes. Eu, por exemplo, já recebi uma condenação por parte do governo do Bahrein por conta das minhas charges. Quando isso acontece é por que as charges estão incomodando quem deve ser incomodado. A charge tende à sociedade quando ela é mais do que uma ilustração em um jornal. Mas quando ela é utilizada em um cartaz, em protesto ou em uma camisa ela passa a ser viva e cumprir um papel social, mais do que simplesmente decorar um jornal.
MM – Eu li uma entrevista em que tu disseste não colocar tua opinião nas charges e sim aquilo o que os movimentos estão defendendo, mas ao fazer um desenho criticando um governo ou defendendo um movimento social, automaticamente a tua opinião já não está inclusa?
CL – Por exemplo, um movimento social me propõe uma charge para um evento, para um protesto. Muitas vezes eu posso ter uma visão mais radical daquilo ali, pegar mais pesado e muitas vezes eu não emprego a minha visão objetiva por que eu preciso atender o que eles querem. Evidentemente se eu estou trabalhando para um movimento social é por que eu me identifico com a causa. Mas, mais importante do que colocar a minha visão particular daquele movimento é que eu faça alguma coisa de acordo com a visão deles para que esse trabalho seja útil para eles. Eu me preocupo em fazer alguma coisa que vai atender a demanda do movimento social, mais do que, simplesmente a minha opinião.
http://www.alagoasnanet.com.br/v3/entrevista-com-o-cartunista-carlos-latuff-em-pelotas/

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