Sunday, January 4, 2015

E por falar em quadrinhos...

Quando isso tudo começou? É melhor hoje do que era antes? É pior? Quem faz isso funcionar? É tudo culpa da internet? A culpa é nossa?? Descubra tudo e um pouquinho mais acompanhando a conversa de oito especialistas no assunto

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PUBLICADO EM 04/01/15 - 04h00

E por falar em quadrinhos...

Quadrinhos, charges, cartoons, caricaturas, tirinhas, ilustração. Tudo isso começou a ser possível no Brasil há dois séculos, com as litografias e, pouco depois, nos jornais e revistas, por meio de sátiras, geralmente, de cunho social e político, onde humor costumava prevalecer. Também nos dias de hoje, os objetivos são os mesmos, e o caráter de crítica continua. Mas os temas podem variar e, nem sempre, a preocupação com o social precisa necessariamente prevalecer. O uso é válido como mero entretenimento também, pra fazer a gente rir de piadinhas de quinta série, como lembrou o criador do “Capitão Presença”, Arnaldo Branco.

Os fãs não têm cara mais, não fazem parte de uma seita ou de um nicho específico. Não são chamados de nerds. Hoje, todo mundo curte, vai curtir ou já curtiu uma tirinha na internet. E pensando bem, não foi sempre assim? Afinal, quem nunca colecionou revistinhas da Turma da Mônica na infância, que atire o primeiro coelhinho azul.

Para ir além das divagações, nada melhor do que conversar com quem realmente entende do assunto. São eles o criador dos “Malvados”, André Dahmer; o chargista de O TEMPO, Duke; o pai do “Capitão Presença”, Arnaldo Branco; o cartunista e roteirista Allan Sieber, responsável por “Vida de Estagiário”; o homem por detrás daquele menininho fofo do Facebook chamado “Armandinho”, Alexandre Beck; um dos melhores ilustradores do país Elloar Guazzelli; o organizador do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), Afonso Andrade; e o responsável pela Zarabatana, editora brasileira especializada em quadrinhos, Cláudio Martini.

Entre na sala, não repare a bagunça, pegue um café e se sente na cadeira mais confortável para acompanhar o bate-papo dos melhores no assunto:

BECK

FOTO: Wahington Alves/Light Press
Eu comecei publicando em jornal só o Armandinho, mas eu escrevia o que eram mais reflexões minhas. Eu não tinha esse controle de quem estava gostando, se eu estava despertando uma reflexão nas pessoas também. Foi depois do Facebook que ele ficou conhecido, e eu passei a ter este retorno imediato. As pessoas compartilham, curtem, colocam suas opiniões ali. Eu acredito que muita gente está tendo contato com a opinião alheia, uma realidade diferente da sua, acaba aprendendo alguma coisa, a gente vai construindo melhor essa visão de mundo.

Eu sou engenheiro agrônomo, não tenho a formação dessa turma que trabalha com cartoons e quadrinhos, mas um dia apareceu uma vaga de ilustrador e eu peguei. E muito do Armandinho eu me inspiro na minha própria vivência, nessa questão com o meio ambiente, que vem da minha formação, na convivência com meus filhos. Quando comecei a criar o Armandinho, minha filha estava nessa faixa dos 6 anos, e eu reaprendi a olhar o mundo com os olhos de uma criança, com ela.

DAHMER

FOTO: Bruno Stock/divulgação
“O quadrinho teve um bom público na década de 1980, milhares de revistas eram vendidas por mês, mas isso tudo faleceu com o plano Collor. Muita coisa boa acabou naquela época. Era a geração pós-Pasquim, né? Imagina se tivesse internet naquela época, o tanto de cara bacana que a gente podia ter hoje também.

Os quadrinhos chegaram nas livrarias. Você não vê mais os quadrinhos na sessão de crianças, não é mais restrito a Turma da Mônica e ao mangá. Eles perceberam que existem outras coisas também, como Robert Crumb; perceberam que os quadrinhos tratam do público adulto também; não é só para o adolescente ou para a criança.

GUAZZELI

FOTO: André Conti /Divulgacao
“Eu fico feliz com o reconhecimento da linguagem. O quadrinho sofreu um preconceito estúpido, como é todo preconceito, que não faz o menor sentido. Muitos pensadores como Umberto Eco, conseguiram ampliar essa visão. Sem falar que, no caso, a linguagem dos quadrinhos vive um grande momento. Chega a ser um absurdo ainda existir algum tipo de barreira para esse tipo de linguagem. Hoje você tem a o hiper espaço, a internet, que articula imagem e texto. Quem nos preparou para isso? O quadrinho. Ele está muito integrado ao modo de vida que a gente tem hoje.

O quadrinho sempre teve essa coisa do protesto, sempre foi uma linguagem mal comportada, crítica. Às vezes, o bom comportamento é péssimo. Está aí o nazismo pra provar isso. O quadrinho é crítico, ele é de combate, ele mostra que o rei está nu.”

ANDRADE

FOTO: nathália Turcheti/divulgação
O público dos quadrinhos tem aumentado sim. A gente começa a ter um público mais não tão específico. E ele tem crescido porque hoje as pessoas leem os quadrinhos como veem uma série de TV, como um romance, e isso vai deixando de ser uma linguagem de nicho. A Mafalda é um bom exemplo disso, o Snoopy também, o Armandinho, mais recentemente. São tirinhas que acabam conquistando o público mais amplo, o quadrinho é uma linguagem cultural artística.

DUKE

FOTO: Pedro Silveira - 15.12.2009
Eu acho que antes o público dos quadrinhos era menos segmentado do que hoje. Na minha infância, por exemplo, há uns 30 anos, no bairro onde eu morava, todos os adolescentes tinham caixas e caixas de revistinhas da Marvel, da Turma da Mônica, independente se gostavam ou não, se desenhavam ou não. Quando o quadrinho era vendido em banca, era um hábito completamente comum comprar e colecionar os gibis. Depois ficou mais segmentado, quando começou aquela onda de mangás, de animações japonesas. Houve uma linha de corte ali, as pessoas que curtiam quadrinhos, passaram a curtir as animações, principalmente, japonesas.

Alguns autores têm sim esse viés político e social, a charge tem isso. Ela nasceu pra isso. Nas tiras e quadrinhos, eu não percebo muito esse engajamento neste sentido, apesar que muita gente faz isso, como o Quino mesmo, de uma forma muito forte. A charge nasceu junto com a imprensa, por isso tem essa coisa da crítica política, e o cartoon já traz mais humor e aborda temas mais universais, mas também não deixam de ter essa críticas ao comportamento humano, consumismo, questões ecológicas etc.

SIEBER

FOTO: Vânia Laranjeira/ CULTURA.RJ
Sempre gostei de quadrinhos, aprendi a ler com eles. As minhas inspirações quando comecei a criar são as mesmas de hoje, os baixos sentimentos: ódio, rancor, inveja, vingança. Isso que me movia e é o que me move ainda hoje. E caras como Robert Crumb, Millor e Jaguar.

Hoje existem mais editoras; tem muito mais quadrinhos nas livrarias. Há 20 anos não havia sessões de quadrinhos nas livrarias como vemos hoje. Mas, mesmo assim, o quadrinho ainda é pouco consumido, um corpo estranho dentro do mercado. Nunca foi fácil para um cartunista mostrar seu trabalho. Fazer um blog ou colocar no Facebook é de graça. Por outro lado, o mercado continua complicado, nenhuma revista publica quadrinho, só a Piauí. Se meu filho decidisse fazer quadrinhos,eu o desestimularia.


BRANCO

FOTO: Rafael Roncato / DIVULGACAO
Apesar de o Capitão Presença ter nascido de uma brincadeira com um amigo (não vou dizer que é o fotógrafo, editor e empresário Matias Maximiliano, vulgo Matias Maxx) que tem na vida real os mesmos poderes do Preza na ficção, ele nunca foi um personagem totalmente zoeira, sempre ajudou a mostrar as incoerências da guerra contra as drogas, sempre falou um pouco sério sobre o assunto nas entrelinhas das piadas. Nunca achei muito gratuito, não tem muito daquela coisa adolescente de tirar onda porque fuma maconha ou algo assim. Tenho inclusive esperança que uma reforma nas leis do país tornem o Presença obsoleto.

Acho que o público dos quadrinhos está ampliando por causa da internet, que mostrou vários artistas de qualidade sem a necessidade da intermediação dos editores da grande imprensa. Hoje em dia, você precisa morar em uma caverna sem conexão para ignorar o trabalho de algum cartunista com uma mínima base de fãs.

Não sei qual é a preferência nacional, mas acho que o subdesenvolvimento prejudica a criação de super-heróis nacionais. Tudo aqui parece mais precário – você acaba fazendo comparações, tipo como seria a S.H.I.E.L.D. brasileira etc. O Brasil é mais avacalhado, quadrinhos de humor estão em seu habitat natural. Acho também que se o Laerte fosse norte-americano já tinha um museu dedicado à obra do cara.

MARTINI

FOTO: Luiz Cequinel / FundaÇÃo Cultural de Curitiba
Eu não acredito no quadrinho panfletário, mas acredito no quadrinho como uma forma de expressão artística que pode também abordar temas políticos e sociais, como as HQs de Robert Crumb. Mas há exceções. Certas HQs de Henfil podem ser enquadradas como ativismo político, mas feitas com uma maestria incomum, muito humor e que resistiram ao tempo.

Hoje o autor não precisa mais de uma editora que publique seu livro ou de um jornal para mostrar sua tirinha. Pode colocar seu trabalho na internet. Pode financiar através de sites, editar e vender seu livro pela internet e em eventos. O autor se desvencilhou um pouco dessa cadeia produtiva secular. Isso deu uma liberdade muito grande aos quadrinistas, onde eles podem experimentar e dizer o que pensam. Creio também que estamos em uma fase de transição e não dá para prever o rumo que os quadrinhos irão tomar (assim como tantas outras coisas também).

http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/e-por-falar-em-quadrinhos-1.968539

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