Wednesday, November 12, 2014

Quadrinista de Mogi faz desenhos para agências de HQs americanas

Douglas Franchin já produziu para DC Comics e fez testes na Marvel.
O sonho dele é desenhar HQs já consagrados, como Batman.

Jamile SantanaDo G1 em Mogi das Cruzes e Suzano
Batman é uma das paixões do quadrinista (Foto: Jamile Santana/G1)Batman é uma das paixões do quadrinista (Foto: Jamile Santana/G1)
Douglas Franchin Souza sempre foi aquele garoto da sala de aula que vivia debruçado sobre a carteira, de cabeça baixa, concentrado olhando para o papel enquanto desenhava. Não importa qual aula fosse – de língua portuguesa à matemática – na folha do menino sempre havia  um rabisco que ganhava formas extraordinárias.  
“Uma vez eu estava desenhando e a professora de português fez uma pergunta para a sala e ninguém respondeu. Eu continuei desenhando, mas falei a resposta certa em voz alta. Ela ficou espantada com o fato de eu estar antenado com tudo o que acontecia em volta. Quando desenho, consigo prestar atenção em tudo a minha volta”, comentou Souza. 
E o que era considerado um “desvio de atenção” do aluno, se tornou profissão. Hoje, com 20 anos,  o professor de desenho possui em seu currículo criações invejáveis para os amantes de histórias em quadrinhos, as famosas HQ. "Não foi fácil conseguir fazer todos estes trabalhos. As agências aplicam testes e avaliam desenhistas no mundo todo. A concorrência é grande, às vezes nem nos dão resposta, tem que ser persistente", contou.
A seleção para Halo, por exemplo, foi criteriosa. "Meu agente solicitou uma amostra de personagens, a pedido da Microsoft e da Dark Horse (que produzem o game e o quadrinho Halo). Fui aprovado e pude seguir com meu traço, e felizmente os caras gostaram muito mesmo, dizendo que era preciso que o arte finalista mantivesse o alto nível de detalhes, e como resultado fui aprovado para mais três edições fora a que concluí esse mês".
No caso de quadrinhos já consagrados como Halo, o artista não pode fugir do traço padrão. "A Microsoft é extremamente exigente quanto a fidelidade visual. Porque Halo já é um universo estabelecido. O primeiro jogo, se não me engano, é de 2000, portanto o visual já está feito, e eles me passam toneladas de referências que tenho que seguir". O roteiro chega para o desenhista escrito em inglês, com especificação de tudo que compõe o ambiente e referências. Com tantos detalhes, o tempo de produção  é maior. "Halo tem sido demorado para desenhar por causa da referência, que preciso ficar olhando o tempo todo. Também preciso mantê-las nos desenhos em perspectiva. É um processo bem minucioso, para evitar correções futuras".
O jovem passa de quatro a seis horas por dia desenhando o cenário e os personagens do universo Halo, uma das maiores séries do mundo dos games que ganhou as páginas dos quadrinhos. O jovem desenhista já concluiu uma edição de 22 páginas, e já tem previstas mais três edições para produzir.
Tudo isso alterou a rotina do desenhista, que também é professor de quadrinhos e faz faculdade de designer gráfico.  "Eu acordo às 7h, começo a desenhar por volta das 8h e só saio da mesa quando termino todas as páginas que tenho que fazer. Algumas são mais rápidas, outras cheias de detalhes. Tem dias que fico 7 horas seguidas trabalhando no mesmo desenho".
Passo a passo para criação dos desenhos em quadrinhos  (Foto: Douglas Franchini/ arquivo pessoal)Passo a passo para criação dos desenhos em
quadrinhos
(Foto: Douglas Franchini/ arquivo pessoal)
A produção de Souza já passou pelas mãos de desenhistas de grandes agências, como a Marvel, titular de revistas famosas como Homem-Aranha, Os Vingadores, Homem de Ferro, entre outros. Produções para a DC Comics, dona da franquia Batman, por exemplo, também estão no currículo. "É um sonho participar de tudo isso", comemora.
Nascido em Guarulhos, o professor e estudante de design gráfico mora em Mogi das Cruzes desde 2008. Quando chegou na cidade, já acompanhava as publicações em quadrinhos há quatro anos. “Os primeiros quadrinhos que comprei foram Liga da Justiça, da DC Comics e Homem-Aranha, da Marvel. Eu comprei porque gostei do desenho nas capas, eram muito bonitos”, conta. Inspirado nas histórias, Souza começou a estudar por conta própria os traços, anatomia humana e outras técnicas. 
Mas foi depois de um curso de desenho em uma escola especializada em artes gráficas na cidade, que a brincadeira no papel sulfite começou a virar coisa de gente grande. De aluno, passou a ser professor de desenho e decidiu no fim de 2012 tentar produzir para grandes agências internacionais.
Douglas começou a desenhar ainda criança (Foto: Jamile Santana / G1)Douglas começou a desenhar ainda criança
(Foto: Jamile Santana / G1)
“Fui até uma feira de quadrinhos, em São Paulo, e mostrei meu portfólio para um desenhista da DC Comics. Foi o primeiro retorno que recebi de um profissional sobre os meus traços. Ele disse que eu já podia tentar fazer testes nestas agências”, lembra o professor. O morador de Mogi, começou a desenhar roteiros baixados na internet para montar o portfólio. Depois de inúmeros contato, conseguiu mandar o material para a DC Comics e participou de um teste. “O agente  me dava ótimos retornos, me copiava nos e-mails dizendo que eu era o artista dele. Mas aí ele saiu da agência e eu não tive mais retorno”.
Os testes são feitos com agentes que selecionam desenhistas para grandes editoras, como Marvel, DC Comics, entre outras. "Os roteiros são variados. As editoras não contratam desenhista diretamente. Ela contrata a agência que tem um núcleo de quadrinistas. Então fazemos testes para entrar nestas agências. Existe uma galeria de artistas para cada função, que vai desde desenhista (penciler), até arte finalista (inker) e colorista. Fica à cargo da agência mostrar os portfólios e conseguir trabalhos para o artista", detalhou.
O ex-professor de Souza, o indicou para a agência Space Goat. Durante os testes, a agência pediu para que o jovem candidato desenhasse muitas páginas, mais do que o volume normalmente oferecido durante os testes. E foi daí que surgiu o primeiro trabalho. “Criei os personagens do Doorkickers, que foi uma espécie de coletânea lançada com o trabalho de vários desenhistas. Cada material de um desenhista diferente, compõe uma parte do livro”, explica Souza. A franquia conta  a história de militares que combatem o sobrenatural.
O quadrinista Douglas Franchin criando mais uma personagem. O desenho é feito direto no computador (Foto: Jamile Santana/G1)O quadrinista Douglas Franchin criando mais uma
personagem. O desenho é feito direto no
computador (Foto: Jamile Santana/G1)
A essa altura, o jovem já havia trocado as folhas de sulfite e lápis, pela tela do computador, onde desenha diretamente. Não demorou muito e o jovem foi contratado pela DC para criar os personagens da série “Person of Interest” que também tem a versão em série exibida no Brasil pela Warner. Peças para Hellboy, da Dark Horse e o cenário de Halo, são os últimos trabalhos do quadrinista. “No Brasil o mercado de quadrinhos ainda é muito restrito. Eu só consegui os primeiros trabalhos depois de um ano fazendo vários testes, ficando sem resposta por muitas vezes. Mas consegui uns projetos interesssantes e o caminho é longo pela frente”, considera.
Batman
O sonho do estudante de design é desenhar HQs já consagrados nas grandes agências americanas, como a franquia Batman, da DC Comics, por exemplo. “Quando eu comecei, queria muito desenhar o Homem Aranha, da Marvel, mas conforme fui aprender mais técnicas e conhecendo mais quadrinhos, vi que existem personagem que oferecem mais para o desenhista, do que esse. Batman é um sonho de criança. Quero muito ser bem experiente para poder desenhá-lo”, contou enquanto arrumava um boneco do Batman na escrivaninha do quarto.
Mas trabalhar com desenho cansa como em qualquer outra profissão. “Muita gente acha que é fácil ficar desenhando, mas dependendo do tempo de produção, as costas doem, por exemplo. Esse é o ônus da profissão. Mas é assim mesmo né? Temos que ser técnicos, não importa a situação”, conclui.
Evolução dos desenhos do quadrista de Mogi das Cruzes (Foto: Douglas Franchini/ arquivo pessoal)Evolução dos desenhos do quadrinista de Mogi das Cruzes (Foto: Douglas Franchini/ arquivo pessoal)
http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2014/09/quadrinista-de-mogi-faz-desenhos-para-agencias-de-hqs-americanas.html

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