Wednesday, December 11, 2013


Entrevista com o quadrinista Glauber Lopes


DMRevista - Há quanto tempo desenha (por hobby e profissionalmente)?
Glauber Lopes - Desenho desde os seis anos de idade. Nunca considerei essa passagem entre hobby e profissão. Acho que isso acontece quando temos uma profissão em que nos divertimos (risos). Mas se for colocar um início para a minha carreira profissional, acho que ela começa em 2008, quando entrei no mercado de trabalho exercendo a profissão de designer. Desde lá, pude experimentar trabalhar com ilustrações.
DMRevista - Por que começou a trilhar este caminho?
Glauber Lopes - Eu não comecei por uma decisão tão lúcida. Na verdade eu percebi que gostava desde muito pequeno por já fazer, aos seis anos, histórias em quadrinhos. Dividia folhas e folhas com meu irmão, que também gostava muito e construía suas próprias histórias. Quando atingi os 12 anos, eu percebi que era isso que queria para o resto de minha vida. Mas é como se já tivesse decidido desde o primeiro instante.
DMRevista - Quem são suas influências?
Glauber Lopes - Minha base artística sempre foi extraída do oriente. Naoki Urasawa, Eiichiro Oda, Hiroaki Samura, Takeshi Obata, Takehiko Inoue e Hayao Miyazaki. Há atualmente fortes influências vindas da Europa como Alphonse Mucha, Bastien Vivès, Florent Sacré, Cyril Pedrosa, Gustave Doré, Nicholas de Crecy, Gianni Pacinotti, entre outros.
DMRevista - Agora falando do FIQ. Qual era seu objetivo por lá?
Glauber Lopes - Fui lá propriamente pela rodada de negócios que o Sebrae oferecia. Era uma grande oportunidade de mostrar meu projeto para algumas editoras.
DMRevista - Conquistou esse objetivo?
Glauber Lopes - Sim! Três editoras se interessaram por esse projeto em HQ. No momento estamos em fase de negociação. O projeto se chama Mãe.
DMRevista - Fale um pouco de sua HQ Mãe.
Glauber Lopes - Mãe é um projeto que desenvolvi em todo o mês de janeiro de 2012. A ideia me veio com muita facilidade, então resolvi colocar tudo no papel e produzir algumas páginas. Por contratempos do destino, eu só pude retomá-la agora pro FIQ. Trata-se de uma história de suspense/drama/aventura, na qual a personagem principal tenta sobreviver na grande SP.
“Cecília e irmãos vivem como garotos de rua. Passam boa parte do tempo circulando nos trens da linha rubi de São Paulo (Francisco Morato – Luz – CPTM) vendendo produtos alimentícios de forma ilícita. Sua mãe se chamava Darci. Uma mulher viciada, sem qualquer sinal de fraternidade. Não tinha um teto pra dar, fato que sentenciou as crianças a chamar os vagões de ‘casa’.
Darci era uma mulher jovem tomada pela animalidade de seus instintos mais momentâneos. Através da influência de amigos, conheceu as drogas muito cedo e até que alcançasse a fase adulta já conhecia grandes variedades. Havia descoberto o vírus da HIV dentro de si. Desiludida e mais perdida, decidiu jogar-se na linha do trem na frente da menina, enquanto os menores dormiam, levando consigo toda a mágoa da vida desperdiçada. Depois de ter o último filho, o deixou nas mãos de Cecília, sua filha mais velha. Porém Cecília não sabia exatamente o que sentir. Levava em conta que sua mãe jamais fez tal papel e sempre esteve à mercê das próprias atitudes. Agora a menina precisa dar um rumo na vida.”
Através dessa sinopse, pode-se perceber como os personagens em destaque passarão por momentos pesarosos. Quero, através desse romance, mostrar como o egoísmo pode ser algo realmente prejudicial. É o máximo de informação que posso dizer no momento (risos).
DMRevista - Todas as expectativas foram sanadas?
Glauber Lopes - Até mais do que pude imaginar.
DMRevista - O que viu de bacana por lá?
Glauber Lopes - A interação entre artistas e público era algo lindo de se ver. É como se não houvesse barreiras. O estrelismo era algo que passava bem longe de lá. Gostei bastante, também, da quantidade de conteúdo, com palestras, workshops e atividades similares. A possibilidade de poder trocar experiências com os mais entendidos era algo fascinante.
DMRevista - Conte um pouco como foi sua rotina no evento.
Glauber Lopes - Saí de São Paulo às 23h45 de ônibus e cheguei às 7h35min na rodoviária de BH. Não sabia ainda onde me instalaria (sim, eu fui sem conseguir isso) então busquei por um hotel onde fosse fácil de encontrar e que não ficasse muito longe do evento. Tarefa fácil. Após isso, ficava o dia todo no evento vendo, curtindo e conversando o trabalho dos outros artistas, seja no estande ou nas bancadas. Acabei por ver algumas palestras. Parava pra almoçar e seguir na caminhada. Havia muitas lojas como a Comix shop. Vi grande concentração de pessoas nela. O povo estava ensandecido com os descontos. Rumei para a Funarte nos horários combinados para participar da rodada de negócios. Terminado isso, voltava para o hotel, jantava e dormia cedo. No dia seguinte, o mesmo processo até o fim do evento.
Glauber Lopes - Encontrou algum artista que gosta?
Glauber Lopes - Sim. Na verdade muitos deles. George Pérez, Maurício de Souza, Renato Guedes, Marcatti, os gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá, Lu Cafaggi, André Diniz e muitos outros. Tive a grande honra de conversar com Marcatti por boas horas. Gostaria muito se tivesse conversado com os outros (risos).
DMRevista - Comprou algo?
Glauber Lopes - Comprei o São Paulo dos Mortos, desenvolvido pelo pessoal do HQ em Foco/Petisco (Daniel Esteves, Al Stefano, meu amigo Alex Rodrigues, Ibraim Roberson, Jozz, Laudo Ferreira, Omar Viñole, Samuel Bono, Wagner de Souza e Wanderson de Souza). Além dos muitos HQs que ganhei de presente de colegas da área que fiz por lá.
DMRevista - O que as histórias em quadrinhos representam para você?
Glauber Lopes - Quadrinhos é a representação da melhor forma que consigo me expressar. Ela me dá tempo de dizer tudo que penso pela quantidade de páginas, diferentemente de uma ilustração que você precisa condensar tudo em uma coisa só. Eu gosto dessa possibilidade de fazer a pessoa sentir vários momentos, climas e velocidade da história, assim como os filmes.
DMRevista - Quais são seus próximos projetos?
Glauber Lopes - Tenho a minha webcomics intitulada Registros. Que na verdade já é um projeto pela metade e preciso muito finalizá-la. Pretendo lançá-la em forma impressa.
DMRevista - Por que é tão difícil emplacar HQs no Brasil? Ou não concorda com isso?
Glauber Lopes - Não, realmente é bem difícil. Esse ainda não é um País em que as pessoas leem HQ como se lessem livros. Não é uma coisa que todo mundo faz, exceto quando é pequeno e frequentemente lê Turma da Mônica. Quando cresce, os interesses mudam então ainda é um mercado de nicho. No FIQ, se não todos, deveriam ter todos os artistas famosos do Brasil e isso não dá 300. Quero dizer, pra um País tão grande, é muito pouco. Nota-se que não chega nem a ser um mercado. Parece-me como algo em processo de gestação. Não é uma questão de “botar a culpa em alguém”. Só quis dizer que culturalmente essa evolução ainda não aconteceu como gostaríamos. Mas como podem ver, as coisas estão mudando e a arte sequencial tem se mostrado mais presente no dia a dia, graças à internet e sites de relacionamento. Boa parte do triunfo vem exatamente dos Estúdios Maurício de Souza, com o grande Sidney Gusman trazendo graphic novels de altíssima qualidade ao público em massa, fazendo-os arriscar a ler algo mais complexo. Isso levará as pessoas a comprarem no futuro outros trabalhos complexos de outros autores. Mas eu ainda sinto falta da parte empreendedora do quadrinista. Hoje se investe muito na qualidade do roteiro e dos desenhos, mas não se cria uma estratégia de marketing.
DMRevista - Gostaria de acrescentar alguma coisa?
Glauber Lopes - O FIQ foi uma das melhores experiências profissionais que pude viver no mundo dos quadrinhos. Eu sugiro que quem não foi, que vá pelo menos uma vez. É como sentir todas as possibilidades na palma da sua mão.

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