Monday, December 9, 2013


Entrevista com o ilustrador Pedro Elefante


Webcomics pode ser uma boa opção para artistas novos e veteranos. Quadrinista Pedro Elefante fala sobre o assunto, mercado e projetos pessoais


Quem lê esta coluna provavelmente curte muito ir à banca ou comics shop, comprar uma HQ e levar para casa. Sentar no sofá, folhear cada página minuciosamente, desbravar cada quadro, é uma sensação que só os amantes da nona arte conhecem. Mas não é apenas o material físico que pode despertar estes e outros sentimentos do leitor.
Com exceção do folhear, o leitor de quadrinhos pode atingir um alto nível de satisfação ao acompanhar as webcomics, ou melhor, as HQs online. Cada vez mais comuns, existem inúmeros projetos que surgem exclusivamente neste formato. A explicação pode ser a busca por um público-alvo específico, ou mesmo a facilidade que a rede oferece ao artista independente – mas tem muita gente boa nessa onda, inclusive alguns quadrinistas tarimbados.
Um bom exemplo disso é a comics Batman - Feira da Fruta, que Eduardo Ferigato desenvolveu com vários amigos. Esta história, que está disponível gratuitamente na Internet ganhou até mesmo o Troféu HQMix (categoria Web Quadrinhos).
As webcomics agradam muito o farmacêutico Milton Rafael, que é um grande fã de quadrinhos. “É relativamente barato para quem produz e para quem compra”, defende.
Milton acredita que com o advento dos tablets e smartphones as webcomics se tornem um futuro promissor para segmento. Mas ainda assim, ele continua tradicional: “Prefiro o papel.”
Quadrinista
O escritor e ilustrador Pedro Elefante, 32, seguiu, também, essa tendência. Há algum tempo ele lançou seu projeto autoral Dragão da Terra. A HQ, que está disponibilizada via net (quadrinhosfera.blogspot.com.br), é uma obra de fantasia, inspirada em uma personagem de jogo de RPG, que o autor utilizou há mais de dez anos. Apesar do traço marcante, Pedro lançou a história desta forma, inicialmente, por insegurança. Porém, hoje ele está muito satisfeito. “Foi pura insegurança, mas aí está firme e forte online.”
Atualmente, Elefante, já está mais seguro. Dentre seus trabalhos para o mercado nacional se destacam a HQ financiada pelo catarse, em parceria com Mario Lima Cavalcanti, Votu - O Demônio da Amazônia; uma imagem promocional para Sonhos de Ópio na Casa Dourada do Pecado, conto do escritor César Alcázar; além de desenvolver uma Graphic Novel para o projeto Corporatica dos estúdios Dive, de William A. Bryant.
Em uma conversa descontraída com o DMRevista, Pedro falou um pouco mais de sua história, trabalhos e projetos. Confira trechos da entrevista a seguir.

Bate-papo com o escritor e ilustrador Pedro Elefante



DMRevista - Como e por que começou a desenhar?
Pedro Elefante - Não existe um por que pra mim. Como já vi muitos desenhistas falarem, minhas primeiras lembranças da infância são de estar a desenhar algo.
DMRevista - Quem são suas influências?
Pedro Elefante - Marcelo Cassaro, J.M. Dematies, Kentarou Miura, Victória Terra, Frank Miller, André Vazzios, Pink Floyd, Jeff Jones, Frank Frazetta, Frank Herbert, Metallica, Marc Silvestri, Aerosmith, cinema e animes de modo geral. Não tenho influências apenas de desenhistas, porque escritores, músicos e cineastas acabam modificando e alterando o que faço no papel. Não posso dizer que sou exatamente um ilustrador, pois não consigo me separar de uma história, de criar um “texto próprio”. Posso apenas ilustrar, posso fazê-lo e você vai me ver creditado assim, mas tenha certeza que vou ter criado um “subtexto” que conseguiu carregar a minha própria imaginação dentro daquele roteiro que me foi passado.
DMRevista - E como decidiu que seguiria para o universo dos quadrinhos?
Pedro Elefante - Foi natural. Eu fui uma criança um tanto solitária e eu tinha os quadrinhos e personagens como meus amigos. Depois comecei a entender que amava escritores e desenhistas ali dentro. Quando voltei a ilustrar e criar histórias, há dois anos, foi espontâneo enveredar por isso.
DMRevista - Me fale um pouco de seus projetos.
Pedro Elefante - Particulares tenho três. Primeiro preciso terminar o primeiro capítulo da saga Dragão da Terra. Fechando isso, tenho um “one-shot” chamado A maré Imortal e O Lenhador.
DMRevista - O que pode me dizer sobre Dragão da Terra. Como surgiu essa ideia e o que espera com essa história?
Pedro Elefante - Dragão da Terra veio de um resgate. A protagonista da história surgiu como uma personagem em uma partida de RPG há dez anos. Essa personagem voltou de forma insistente a minha cabeça bem quando eu estava numa fase inquieta da vida. É uma história sobre amputação (física e emocional), sobre ressurreição, inadequação quanto a própria aparência, lutas e mais lutas, sexo, amor, a sobrevida após viver sentimentos e situações difíceis, intensos, destrutivos e, ainda sobre a exploração da feminilidade. É um exercício muito sério para escrever de acordo com a visão de uma mulher. Mas o por que de realizá-la é simples: por ter voltado a desenhar e criar histórias, eu me sentia tímido, achei que começar ou me manter como ilustrador seria mais fácil, que eu seria “aceito”, mas como sempre, eu falhei! Chutei o balde e cá estou eu escrevendo o que desenho e é maravilhoso fazer isso. É quando me sinto inteiro como artista.
DMRevista - Esta HQ é liberada gratuitamente na Internet. Por que resolveu lançá-la desta forma?
Pedro Elefante - Francamente? Deixei-me levar pelo medo de que as pessoas não me conheciam, pela própria “falta de valor”, que eu via na minha condição de quadrinista e pela opinião comum de que sou “meio estranho” como autor. Então fiz o raciocínio tosco de que se eu “desse” a alguém me faria o imenso favor de me conhecer... Foi pura insegurança, mas aí está firme e forte online.
DMRevista - O que se consegue com este tipo de publicação?
Pedro Elefante - Isso não funciona muito bem por um tempo. Existe uma “perda de valor” da obra dentro do senso comum. O máximo que você pode conseguir são “republicações” e “divulgações” por outros meios online e te oferecem isso como se fosse uma “grande honra” para você. Então, se for colocar algo online e gratuitamente, saiba que reviews podem ser maravilhosos, o melhor presente (ainda que negativos). O que quero dizer é: mantenha ao máximo a exclusividade da sua obra. Essa é a única força que pode ter. Mantenha ela rara, no seu controle, saiba que ela vale ouro (não vale pra você? Eu dou meu sangue por isso) e as pessoas vão chegar lá. Evite as republicações, fanzines online ou qualquer outra coisa. Saia fora do “oba-oba”. Agradeça os convites e siga em frente (até porque ninguém vai tratar a sua coisa mais preciosa – que você já oferece sem o símbolo do dinheiro – com o carinho que você pode fazê-lo). Se você fez de graça, a única moeda vão ser opiniões e reconhecimento. Divulgue o seu link por si mesmo e pronto. O que você pretendeu vai funcionar. Seja paciente.
DMRevista - Acredita que as webcomics ganhem cada vez mais espaço no futuro?
Pedro Elefante - Não teria como prever isso.
DMRevista - Para o leitor, o que muda entre uma HQ tradicional e uma webcomics?
Pedro Elefante - HQ impressa é incomparável. Sou dos anos 1980. Eu não consigo me livrar de ter o papel na mão, mas existem obras que só chegam a mim digitalmente. A webcomic trás tudo que a impressa tem (ou mais em termos de extras e material), mas é fascinante a mudança e o impacto da tinta no papel. Pra qualquer obra. A diferença é o impacto. A sensação. É esse lance sensorial que faz toda a diferença.
DMRevista - Quais seus planos futuros? Pretende continuar a produção neste segmento?
Pedro Elefante - Até agora sim. Eu já trabalhei como ator, músico e um belo dia “surtei” e voltei para o papel. Falar do futuro comigo é sempre difícil...
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