Monday, December 9, 2013

Entrevista com o desenhista Fred Macêdo


Fred Macêdo











Para começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente? 
Fred Macêdo: Nasci em 30 de Junho de 1972, na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Trabalho com seguros há 15 anos e agora estou me dedicando mais aos quadradinhos e à ilustração.
Para aqueles que ainda não estão bem identificados com a sua carreira profissional, gostaríamos que fizesse uma pequena apresentação própria e do caminho entretanto percorrido na sua carreira?
Fred Macêdo: Bom, a partir de 2005 voltei a investir nas minhas aptidões para os desenhos e quadradinhos. Para clarear melhor a coisa vou fazer uma breve narrativa dessa história.
Desde garoto sempre tive facilidade com desenho. Primeiro comecei desenhando inspirado nos Clássicos Disney. Adorava as histórias do Carl Barks, Don Rosa e Giorgio Cavazzano.
Durante a minha adolescência, lia revistas de aventura, faroeste e de super-heróis, através de nomes como Joe Kubert, Neal Adams, Hal Foster, Russ Manning, Alberto Giolitti, Alex Raymond, Sy Barry, John Buscema, Alfredo Alcala, José Luiz Garcia Lopez, John Romita e tantos outros mestres em cujos traços procurei inspiração para o meu aprendizado.
Por volta dos 18 anos, sem vislumbrar perspectiva de me tornar quadrinista fui estudar Engenharia Mecânica, enquanto trabalhava como corretor de seguros. Sempre tive muita simpatia com a ciência de uma forma geral e a física em particular. Como ficava difícil conciliar trabalho com o curso de engenharia, fiquei até 2005 trabalhando exclusivamente no ramo segurador. Foram quinze anos longe dos quadradinhos.
Fred Macêdo na sua mesa de trabalhoEm Fevereiro daquele ano assisti a uma série de palestras no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, no evento Panorama Nona Arte. Lá conheci um grupo que estava reactivando a Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Entrei como aluno e após seis meses passei a dar aulas de desenho para as novas turmas.
Resolvi “estudar” quadradinhos. Nunca tive muita dificuldade com os desenhos, mas aprender a fazer uma boa narrativa visual demanda muito estudo, observação e treino.
No segundo semestre de 2.005 publiquei minha primeira história na revista PIUM, revista tradicionalmente ligada ao curso de quadradinhos da UFC e cuja tiragem foi de 1.000 exemplares. Publiquei em seguida no fanzine Manicomics, bicampeão do Troféu HQ Mix, editado pelos prestigiados quadrinistas cearenses, Daniel Brandão, JJ Marreiro e Geraldo Borges. Ainda em parceria com a Oficina de Quadrinhos da UFC, desenhei histórias curtas para o Projecto Contando a Cidade, do Jornal O Povo de Fortaleza, periódico tradicional e de grande circulação. Colaborei na arte de uma HQ para a Prefeitura Municipal de Fortaleza e com a revista Universidade Pública, publicação ligada ao curso de comunicação da UFC.
Fred Macêdo e Wilson VieiraAtravés do meu fotolog conheci o conceituado artista, roteirista e tradutor Wilson Vieira, que trabalhou por sete anos no concorrido e prestigiado mercado italiano, através do estúdio Staff di If, onde desenhou títulos como Diabolik, Tarzan, David Crocket, Pequeno Ranger, além de ter sido o primeiro brasileiro a desenhar profissionalmente o Homem-Aranha e outros personagens da Marvel Comics.
Passamos a publicar nossas histórias através do site italiano Progetto Fumetto. Primeiro o Western-Terror, Kwi-Uktena e em seguida a Ficção Científica, Evolution. Ambas saíram em 2007 em edição bilingue (português-italiano). Essa primeira história foi publicada na revista Prismarte e saiu este ano na revista Argentina Con-Hache. A história Evolution deverá sair impressa ainda em 2008.
Também em parceria com o Wilson fiz umas ilustrações para a FN NETWORK TV RADIO/STATION, de Génova, cujos proprietários gentilmente têm divulgado nosso trabalho em sua emissora.
No momento estou desenhando mais dois roteiros do Wilson e dando aulas de desenho.
Fred Macêdo e o WesternQuando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Fred Macêdo: Ainda quando criança, antes mesmo de saber ler, eu já folheava as páginas e “lia” a narrativa visual dos Clássicos Disney. Depois contava toda a história, segundo minha mãe me disse certa vez.  O Carl Barks fascinava-me. Suas aventuras eram impregnadas de referências da National Geographic, como vim a descobrir anos mais tarde. Achei isso espectacular! Foi quando compreendi da importância que os grandes mestres davam às reverências. Por isso, mesmo ao desenhar patos e galinhas caricaturados, ele conseguia imprimir realismo às suas histórias.  Depois entrei em contacto com o trabalho do Giorgio Cavazzano e a paixão foi imediata. Artista de traço super dinâmico que tornava as aventuras ainda mais instigantes. Curioso, mas sempre ligo o estilo do Cavazzano ao do Giovanni Ticci. Acho que pela agilidade de seus desenhos. Na época não sabia o nome deles, mas seus estilos nunca saíram da minha mente. Sempre achei isso curioso. Eu adorava os personagens da Disney por causa desses artistas.
Fred Macêdo e a sua mesa de trabalhoJá adolescente passei a ler revistas de aventuras e passava horas absorto nas histórias do Fantasma, Mandrake, Tarzan, Homem-Aranha, Hulk, Batman, Lone Ranger, Tonto, Zorro, Jonah Hex, entre tantos outros. Também me fascinaram esses personagens pelas mãos hábeis que os desenharam. A minha história com o Tex começou em Fevereiro de 1982, quando eu tinha 9 anos. Meu pais foram ao supermercado e quando chegaram entregaram-me o primeiro título do Tex que li: Tucson. A paixão foi imediata! Achei a personagem cheia de fibra, destemida, um homem com valores fortes e um profundo senso de justiça. A história era muito envolvente e muito bem desenhada pelo Letteri. Não tenho muitas afinidades artísticas com o seu traço, mas aprendi a nutrir carinho por esse artista. Talvez porque foi através de seu trabalho que estabeleceu-se meu elo com o ranger. Minha primeira imagem do Tex veio de suas mãos (a despeito da bela capa do Galep). A partir daí passei a comprar mensalmente as histórias do Ranger, só tendo interrompido quando fui estudar engenharia mecânica.
Fred Macêdo a desenhar a Grande Ceia de TexPorquê o Tex e não outra personagem?
Fred Macêdo: Olha, na verdade eu adoro Westerns de uma forma geral. Sou super fã do Jonah Hex, Ken Parker e Blueberry, por exemplo.
A questão do Tex é que ele se tornou um mito. Os Bonelli e seus colaboradores conseguiram criar um universo fantástico de personagens, cada um com personalidade própria e o mais interessante de tudo, deu a eles longevidade. Acho isso incrível! Personagens vão e vem, mas o Tex fica. Isso é uma prova de que estão no caminho certo. Eles foram tão competentes que criaram um ícone, um herói cheio de personalidade, cujo nome lembra força e justiça. Tex sabe ser extremamente generoso com as pessoas de bem e implacável com a injustiça e iniquidade. Isso é o que todos nós queríamos ver no mundo real. Um herói que sabe dar a medida certa para as coisas.
Além do mais, suas histórias estão sempre permeadas de factos e personagens históricos. As histórias do Tex são como um romance de época tendo como pano de fundo a história do Oeste Americano.
Ler Tex é enriquecedor.
Fred Macêdo ultimando a Grande Ceia de TexO que Tex representa para si?
Fred Macêdo: Primeiro, ele mexe com um lado da minha mente extremamente sensível ao seu universo, a fantasia. Sou por natureza um artista e um apaixonado por quadradinhos. Esse conjunto, desenho e texto, faz-me alçar voo e entrar numa dimensão à qual a maioria das pessoas esquece quando se torna adulto. Se alguém com talento consegue chegar à maturidade com essa porta aberta pode criar mitologias. São bons exemplos disso: Bonelli/Galleppini, Siegel/Shuster, Stan Lee/Kirby, Berardi/Milazzo, Uderzo/Goscinny, Charlier/Giraud, entre tantos outros. A criatividade aliada à experiência da vida adulta pode criar mundos, ou ir além, mitos. Estes grandes artistas/criadores de universos cresceram, mas o seu canal com a fantasia não se fechou, ao contrário, ele igualmente amadureceu com o tempo.
Fred Macêdo finalizando a Grande Ceia de TexSegundo, o Tex é uma personagem de carácter forte. Ele é corajoso, justo, destemido, implacável com a iniquidade, generoso e determinado. Ele é o tipo do homem que sonhamos ser quando garotos e que, mesmo depois de adultos, desejaríamos ser independente de não externarmos esse desejo.
Tex representa para mim a possibilidade de dar vazão à minha imaginação, de sonhar com o eterno mito do cavaleiro andante que nunca pára, nunca se cansa, sempre cavalgando para um horizonte distante em busca de novas aventuras, eternamente impregnado por um inabalável senso de justiça e por uma rectidão de carácter inquebrantável.
Tex é um mito!
Fred Macêdo e a Grande Ceia de TexQual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Fred Macêdo: Umas 150. Já tive mais, entretanto durante esse período em que deixei os quadradinhos encostados, muitas das minhas revistas deterioram-se. Lamentável esse meu descuido.
Não tenho uma revista que seja a mais importante para mim, entretanto existem várias que por alguns aspectos eu gosto mais.
Como sou desenhador uso muito as revistas como referências ou fontes de estudo. Alguns artistas são mais cuidadosos que outros com a composição de época, portanto, tomo esses artistas como meus favoritos e as revistas que desenharam como as que mais consulto.
A Grande Ceia de TexFica difícil, portanto, falar da “revista mais importante”, mas posso citar os desenhadores cujos traços tenho mais afinidade e que me motivam comprar as revistas nas quais trabalharam, como por exemplo, Ticci, Giolitti, Monti, Capitanio, Gilbert, La Fuente, Villa e Fusco.
Essa não é minha “lista dos melhores”, mas aqueles com os quais tenho mais afinidades. Não posso deixar de fazer uma observação ao trabalho do Civitelli, artista de traço seguro e limpo, que tenho aprendido a admirar. Além de suas qualidades artísticas incontestáveis parece ser uma pessoa por demais solícita e simpática.
Fred Macêdo e TexColecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Fred Macêdo: Hoje em dia só compro aquelas histórias de cujos desenhos tenho mais afinidade ou edições especiais.
Gosto muito de ir em casas especializadas para procurar material raro.  Infelizmente não possuo nenhum outro material que não sejam revistas ou pósteres.
Qual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Fred Macêdo: Que enrascada, hein!
Não vou citar uma, mas três, pois tem umas histórias que realmente cativam a gente. São daquelas que você vai lendo e a paixão é imediata.
Aí vão elas:
Primeiro, o arco que começa com Flechas Pretas Assassinas, Editora Vecchi, 2ª edição, números 50, 51 e 52, desenhadas magistralmente pelo inigualável Giovanni Ticci, numa fase menos estilizada. Sempre fico fascinado pela destreza artística e apuro de referências do grande mestre. Será que ele existe, mesmo?
A segunda é: Caçada Humana, a primeira escrita pelo Guido Nolitta (Sergio Bonelli) e a segunda desenhada pelo Ferdinando Fusco, que desenrola-se nos número 68 e 69, da Editora Vecchi, 2ª edição. Poderia até colocá-la como minha favorita, pois talvez tenha sido a que mais reli. A primeira coisa que me chamou a atenção nesta história foi o traço extremamente dinâmico e fluido do Fusco. Foi quando conheci o trabalho desse grande artista. O cidadão é de uma simplicidade e competência desconcertantes. O roteiro, então, uma obra prima. Nunca vi o velho Ranger tão humano. A morte do “rapazote” Andy Wilson deixa o Tex furioso, numa rebeldia e inconformismo comoventes. Também nessa história o Sergio Bonelli soube construir uma amizade improvável, entre caçador e caçado. A relação que se estabelece é comovente, uma amizade sincera e respeito mútuo entre dois seres humanos bons que pelos revezes da vida pegaram caminhos diferentes.
A terceira é: El Muerto, segunda história escrita por Guido Nolitta e desenhada pelo mítico Aurelio Galleppini. Perdi a minha revista original, mas acabei comprando o Almanaque do Tex Nº 7, pela Mythos Editora, que tem toda esta belíssima história em uma só edição.
Fred Macêdo e os 4 pardsO que mais me fascina nesta história além do desenho do Galep, é que ela é a que mais se aproxima dos bons westerns do Sergio Leone, de quem sou fã. O encontro do Tex com El Muerto no cemitério é uma cena antológica, assim como aquela do Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach em “Três Homens em Conflito”. Os homens postam-se frente a frente em sua “arena” circundada de túmulos e, bem ao estilo do Leone, cria-se uma tremenda tensão no desenrolar das cenas seguintes até que chega ao clímax numa explosão violenta. No arremate final, Tex dá um tiro de misericórdia que joga El Muerto na cova (assim como Clint fez com Lee Van Cleef no aludido filme). Isso é demais! Ah, sem falar do lance magistral do relógio de bolso tocando uma música atado à pá, junto à cova. Pareceu-me uma referência funesta à gaita da personagem Harmónica interpretada pelo Charles Bronson em “Era Uma Vez no Oeste”, cujo roteiro escrito a quatro mãos também leva a assinatura do Sérgio Leone.
Grandes Spaghetti Westerns! (Deixando de lado qualquer conotação pejorativa que o termo possa ter).
Costumo dizer que toda lista de favoritos é injusta e sempre será, mas como gosto de fã e justiça são coisas que nem sempre andam de mãos dadas aí vai meu voto:
- Argumentista favorito: Guido (S. Bonelli) Nolitta;
- Desenhador favorito: Giovanni Ticci (em qualquer fase).
Fred Macêdo e a paixão pelo WesternO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Fred Macêdo: O que gosto no velho Ranger são seu senso de justiça e carácter inabalável.
O que não gosto é que às vezes o Tex parece um super-homem, quase invulnerável. Gosto daquelas histórias que o apresentam mais humano, daí ter “Caçada Humana” como uma das minhas preferidas. Acho que vi o Tex ali como nunca vi depois. Ele é baleado e apanha. Admiro personagens fortes. Tex é um dos melhores estereótipos do ser humano que todos queremos ser, mas ás vezes carece de uma certa e bendita dose de vulnerabilidade.

Em sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?

Fred Macêdo: A sensibilidade de artistas e argumentistas que souberam construir um universo de personagens em aventuras permeadas com valores éticos e morais. As histórias do Tex nunca ocorrem à toa, no final o mal é sempre punido e o vilão tem o fim que merece, como gostaríamos de ver na vida real.
Tex é um cavaleiro andante que onde chega faz valer a justiça e que nunca baixa a cabeça para o mal, a despeito de sua eventual inferioridade diante deste mal. Ele tem valores e norteia sua vida por esses valores, nunca pela opinião alheia. Talvez uma de suas maiores virtudes seja a capacidade de construir amizades verdadeiras e duradouras, bem como inimizades dessa mesma magnitude.
O pano de fundo histórico também ajuda muito na construção do herói e imprime-lhe credibilidade. Tex é uma personagem, não tem vida própria, mas inseri-lo num contexto histórico ajuda a firmá-lo no inconsciente colectivo.
Creio que o Tex é um mito porque nos realizamos nele.
O Tex de Fred MacêdoComo nasceu a ideia de homenagear o Tex, através do seu desenho comemorativa dos 60 anos de aventuras doRanger
Fred Macêdo: Não é todo dia que uma personagem de banda desenhada faz 60 anos e muito menos uma personagem do qual você é fã, logo pensei em fazer coro àqueles que gostam do bom e velho Ranger, fazendo o que mais gosto, desenhar, o que foi puro prazer.
Para concluir, como vê o futuro do Ranger?
Fred Macêdo: Vislumbro ainda muitos anos de aventuras para o Tex. Não falo como um fã que quase sempre é suspeito, mas porque vejo renovação nos artistas e argumentistas. Isso é muito bom. Pessoas novas são ideias novas, visões novas que se adequam à realidade dos novos tempos. O que vejo de melhor é que essa renovação parece não levar a uma deturpação das características da personagem o que por certo comprometeria sua longevidade. As novas narrativas, são mais adequadas e em sintonia com as tendências actuais, tanto nos argumentos quanto nos desenhos, preservando todas as maravilhosas idiossincrasias do mais temido e famoso Ranger do velho Oeste.
Aqueles que fazem o Tex abraçam e vivem a personagem, daí seu sucesso e longevidade.
Adiós, pards!
Prezado pard Fred Macêdo, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Fonte:

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