Thursday, December 12, 2013


Bate-papo com o chargista Carlos Latuff



Latuff debateu a relação entre arte e ativismo
Desenho tem poder. Foi com esta frase que Carlos Latuff sintetizou a potencialidade de uma charge para conscientizar a sociedade e abalar as estruturas de poder. Na frase caberia o uso do pronome meu – ‘Meu desenho tem poder’, pelo reconhecimento de um trabalho que começou há mais de 20 anos. O chargista carioca, mas que adotou recentemente Porto Alegre como sua morada, é reconhecido internacionalmente por suas linhas, traços e cores carregadas de significados políticos. Para dividir com o público as experiências que vem desenvolvendo ao longo de sua carreira, a Sedufsm (Seção Sindical dos Docentes da UFSM) convidou Latuff para um bate-papo sobre arte e militância. A atividade foi nesta terça-feira, 10, às 19h, e trouxe um público de mais de 70 pessoas ao auditório do sindicato.

O “papo” começou de forma descontraída com uma plateia atenta e curiosa para saber um pouco mais sobre o que há por trás dos desenhos emblemáticos. Latuff contou sua relação com a imprensa sindical - atividade que propiciou o início de um vínculo trabalhista que perdura até hoje. O artista também pontuou que culturalmente a charge se diferencia do cartum justamente por conter crítica política, porém, ele não vê necessidade de uma delimitação tão rígida entre uma coisa e outra.

Entre uma fala e outra, o público interagia fazendo perguntas, muitas delas referentes às charges que remetem os conflitos vividos pelos palestinos e também as que retrataram o cenário das manifestações de 2011 da “Primavera Árabe”. Parte da comunidade Palestina de Santa Maria estava participando da atividade, o que proporcionou indagá-lo ainda mais sobre os motivos que o levaram  a apoiar a causa dos palestinos. “Apoiá-los é uma questão de direitos humanos”, argumentou Latuff. O presidente da comunidade Palestina de Santa Maria, Abdo Ahmad, agradeceu a Sedusfm: “grandiosa a iniciativa do sindicato de trazê-lo para divulgar a realidade da Palestina, assim como a causa dos perseguidos, dos oprimidos, dos explorados do Brasil e do mundo, e quem entende dessa linguagem é o Latuff”.

Uma das informações mais hilariantes, se não fosse chocante, é o fato relatado pelo artista de que em Israel, a partir de classificação do Centro Simon Wiesenthal, com sede em Los Angeles (EUA), Latuff está colocado, pela ordem, como o terceiro maior antissemita do planeta. Em primeiro lugar está o líder Mohammed Badie, guia espiritual do partido islâmico egípcio Irmandade Muçulmana, e, em segundo, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, e, em terceiro, ele. Isso, explica ele, porque ousou fazer uma charge em que criticava duramente o primeiro ministro de Israel. Na análise de Latuff, os governos israelenses, que têm cometido massacres contra os palestinos, se protegem de seus desmandos acusando aqueles que os criticam de antissemitismo. 
“A arte tem papel redentora”
Em mais de uma oportunidade Latuff enfatizou que a arte precisa desempenhar um papel social, que os artistas precisam “emitir opiniões”, se posicionar contra um sistema que exclui as minorias sociais e os oprime seja pela classe, gênero ou etnia. O chargista ressaltou que, em diversas vezes, foi alvo de crítica justamente por fazer do seu trabalho um instrumento de denúncia e de “artevistimo”, expressão que utilizou para nomear seu trabalho. Sobre o teor político das charges, o estudante de direito Gabriel Abelin, além de comentar que acompanha o trabalho de Latuff porque se identifica com esse tipo de mensagem, salientou que o Brasil carece de pessoas capazes de se tornarem formadores de opinião com o uso da arte crítica de esquerda.

Um dos exemplos da notoriedade do cartunista foi a utilização de um desenho que ilustrou os 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A arte foi transformada em outdoor, que na visão de Latuff é um fato inédito, visto que charges são feitas para outros fins. O desenho do outdoor denunciava a violência policial sofrida pelos jovens, principalmente os moradores de periferia, que em sua opinião são vítimas dos enfrentamentos entre a polícia e o tráfico, sobretudo no Rio de Janeiro. Esta, assim como inúmeras outras ilustrações, de acordo com ele, servem para que a sociedade possa refletir acerca de caminhos alternativos para que o sistema deixe de ser excludente.

“Não existe paz sem justiça”
Sensibilizado pela tragédia de 27 de janeiro deste ano, Carlos Latuff discorreu que Santa Maria não vivenciou um acidente, e sim perdas causadas por irresponsabilidades. “Foi um descaso que levou às mortes e ninguém tem autoridade moral para dizer que os familiares podem virar a página, não existe paz sem justiça”. Ele ainda complementou: “Não podemos aceitar como normal a barbárie”.

Ao final das quase três horas de ‘conversa’, Latuff fez uma provocação: “o que podemos fazer a serviço da transformação”? 
Texto: Carina Carvalho (estagiária)
Fotos: Fritz Nunes e Bruna Homrich
Edição: Fritz Nunes (Jornalista)                                            
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
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