Sunday, November 10, 2013


Quanto mais HQs, melhor 

Internet, incentivo federal e festivais vêm possibilitando que uma nova geração de artistas possa circular

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PUBLICADO EM 10/11/13 - 04h00

Se a primeira década dos anos 2000, com o acesso à internet cada vez mais amalgamado ao dia a dia das pessoas, fincou a bandeira da independência para quem produz quadrinhos, esta segunda década do século XXI é a consolidação e ampliação de um território para essa arte que vem assistindo o surgimento de mais autores e o aprofundamento da diversidade de estilos, formas e conteúdos. Antes da web, o caminho de quem queria entrar no mercado de quadrinhos passava por uma ronda de porta em porta das editoras e veículos de imprensa, com portfólio debaixo do braço, esperando pelo sim de algum publisher. Ainda no princípio dos anos 2000, quando no Brasil a rede ganhou corpo, a autopublicação passou a ser possível.

“Comecei a publicar em 2001, quando não havia essas ferramentas de circulação que temos hoje – blogs, Tumblrs, Facebook, Twitter... Faço parte de uma geração em que a gente tinha que aprender a escrever na linguagem HTML para publicar em um site. Hoje, uma segunda geração surgiu junto com as redes sociais e essas ferramentas todas, e temos muito mais informações fluindo e isso tudo vai caminhando muito rápido”, pontua André Dahmer, o nome por trás dos Malvados, provavelmente um dos primeiros sites produzidos no Brasil para a publicação de tiras diárias. “Hoje, vejo com clareza que participamos de um renascimento dos quadrinhos no Brasil. As pessoas começaram a perceber que era importante circular na web”, comenta Dahmer.


De fato, com as redes sociais e recursos que tornam a criação de um blog ou de um site uma tarefa feita em instantes, só cresceu o incentivo para mostrar aqueles trabalhos que antes enchiam gavetas e ficavam por ali guardados. “A internet e a comunicação eletrônica representam um grito de independência para quem faz quadrinhos. O autor não depende mais de um jornal ou de uma editora, um blog pode ter uma abertura e uma visibilidade muito grande para os artistas independentes”, avalia o professor Waldomiro Vergueiro, fundador e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Universidade de São Paulo (USP).


Com mais produção aparecendo, era natural que a cena respondesse. Segundo o professor, além do terreno preparado pela web, mais portas se abriram para os quadrinistas com a diversificação de formatos e também com um incentivo governamental. “Com a popularização das graphic novels e das histórias publicadas em formato livro, abriu-se mais uma possibilidade para os artistas, pois eles passaram a não depender das bancas e alcançaram um outro patamar do produto com um formato que permite mais qualidade de acabamento. Além disso, em 2006, houve um marco que foi a inclusão dos quadrinhos no Programa Nacional Biblioteca da Escola, iniciativa do governo federal que passou a adquirir obras de HQ e distribuí-las na rede de ensino. Com isso, muitas editoras passam a ter interesse em buscar autores, inicialmente com projetos de adaptação de clássicos da literatura, mas hoje esse interesse já está mais amplo”, afirma Vergueiro.
Diretor de quadrinhos da Fundação Municipal de Cultura, Afonso Andrade concorda que, nesse corte temporal, por volta de 2006 e 2007, o binômio internet e incentivo federal mudou a cara da produção e até a relação com o público leitor. “O quadrinho começa, a partir dessa época, a romper aquela barreira, aquela aura de gueto que tinha. Um público mais diverso passou a ler quadrinhos e uma diversidade maior nos estilos também se apresentou”, avalia Andrade, às vésperas da realização da nona edição do Festival Internal de Quadrinhos, o FIQ, que, realizado bienalmente desde 1999, começa quarta-feira e hoje ocupa o posto de maior festival do país dedicado ao gênero – e isso não só pela intensa e abrangente programação, que só vem ficando mais saborosa, mas, principalmente, por funcionar como um catalisador para que artistas se encontrem e se estimulem criativamente.

intercâmbio. Aos 21 anos, Alex Mamedes e Victor Carvalho são representantes dessa nova geração que vêm buscando encontrar o seu caminho na arte de contar histórias em quadrinhos. Paixão antiga, as HQs começam a tomar um espaço maior na vida desses dois jovens, que lançam, justamente no FIQ, a primeira publicação da carreira de cada um. A revista “Nuna”, uma ficção que parte da hipótese de um mundo num contexto pós-apocalíptico, é um projeto que envolve cinco alunos da Casa de Quadrinhos, um dos principais destinos de quem busca se aprimorar tecnicamente – na publicação, os jovens contam com um professor orientando e mais três professores fazendo colaborações. “O FIQ é, com certeza, a maior oportunidade para quem é independente poder aprender com quem já está aí mais consolidado nessa área. A gente espera e se prepara muito para isso. É a nossa chance”, comenta Victor Carvalho, que largou a faculdade de engenharia ambiental para, nos últimos dois anos, se dedicar aos quadrinhos. “Comecei até meio tarde. Sempre tive interesse, mas não sabia como era o processo da construção de uma história”, acrescenta ele, que, hoje, migrou para o design gráfico.
Para Alex, da mesma forma, a expectativa por ficar cara a cara com profissionais que já encontraram seu caminho é uma oportunidade que transcende o já importante intercâmbio que é feito pelas redes sociais. “É uma experiência importantíssima para conhecer o que essas pessoas estão fazendo, como estão fazendo e ouvir o que elas têm a dizer”, comenta ele, já apontando os rumos que quer seguir na arte. “Eu quero fazer histórias em quadrinhos, mas, pelo menos no início, eu não tenho planos para trabalhar desenhando para grandes editoras. Prefiro produzir as minhas histórias no meu ritmo, do meu jeito e buscar uma forma independente de lançá-las”.
fértil. Da safra de bons autores que chegaram ao público via internet, muitos nomes de Belo Horizonte se destacam – os irmãos Vitor e Lu Cafaggi, Eduardo Damasceno, Luís Felipe Garrocho, Ricardo Tokumoto são alguns exemplos –, e hoje são nomes reconhecidos no país e no mundo. 


Para Damasceno, a cena é de fato propícia. “Temos aqui um ambiente muito fértil e muito acolhedor para quem produz. Não é um mercado de competição ferrenha de autores. Muitos se ajudam, fazem coisas juntos”, destaca ele, ressaltando a importância dos intercâmbios criativos. “Belo Horizonte virou um lugar especial para os quadrinhos”.



AGENDE-SE!
O FIQ acontece entre a próxima quarta-feira, 13, e domingo, 17 de novembro, na Serraria Souza Pinto. Ao todo, 85 convidados da cena local e também de várias partes do Brasil e do mundo vão se reunir nesses cinco dias, atraindo para Belo Horizonte leitores, artistas e editores nacionais e internacionais.


Sediado num espaço central e com fácil acesso por meio de transportes públicos, o FIQ tem programação integralmente gratuita, com entrada e saída livres.



O que virá?
“Definitivamente, com a internet e a compra de quadrinhos para bibliotecas pelo governo federal, a cena foi cutucada, o mercado também. E esse mercado não se definiu, não sei se vai e nem se deve ir. Hoje, temos um mercado de possibilidades, variados. As coisas acontecem em nichos, com uma diversidade muito grande. Não acredito que esteja mais fácil produzir quadrinhos. Sempre foi difícil, tem que existir muitos critérios para se produzir. O que ficou mais fácil é a divulgação. Para internet ou para qualquer outro suporte, é uma arte que dá muito trabalho. E existe um fenômeno bem legal de uma mídia especializada também na internet que presta atenção no que acontece.” - Eduardo Damasceno, quadrinista, integrante do Quadrinhos Rasos e do achados & perdidos


Basta querer

“O fazer quadrinhos exige duas coisas: querer fazer e fazer. Parece besta do jeito que eu falo, mas não é. Você não precisa gastar. Basta ter lápis e papel. Aí você tira uma foto, pode ser com celular mesmo, e começa a colocar na internet, para chegar às pessoas. Os caminhos de produção mais profissionais são, sim, grandes. Muita gente talvez nunca consiga viver só de fazer quadrinhos. Mas o que importa é fazer. Temos dado oficinas em que propomos esse exercício: não precisa saber desenhar, não precisa nem ter uma ideia para uma história. A ideia é trabalhar essas negativas e mostrar que todo mundo pode contar uma história por meio dos quadrinhos, basta querer e se exercitar.” - Luís Felipe Garrocho, co-criador dos quadrinhos rasos e do Achados & perdidos, criador do Bufas Danadas e idealizador da oficina “Enchendo Um Caderno com Quadrinhos”, junto co Ricardo Tokumoto.




Compromisso
“Sempre quis fazer quadrinhos. Com o tempo fui parando de desenhar, por causa de trabalho,  coisas da vida. Em 2007, já formado e trabalhando como designer gráfico, decidi que precisava
retomar aquele sonho para não ficar arrependido comigo mesmo. Nessa época, comecei a  desenhar todo dia em casa mesmo e criei o Puny Parker. Na época, postava no Orkut, para algumas pessoas. Aí fiz um compromisso comigo mesmo de postar toda semana um quadrinho. Toda quinta-feira eu postava uma parte e fiz isso por 140 semanas. Tem que ter esse profissionalismo. Se você posta uma vez e não mantém, os leitores não voltam. Acho que isso é uma das coisas que mais tento passar para os meus alunos.”

Sem receita
“Eu gosto muito de ler quadrinhos e de fazer quadrinhos desde pequena. Eu via meu irmão e ia  atrás. Com o tempo, fui deixando de lado isso. Mas, depois, com 21, 22 anos, comecei a me apaixonar de novo. Aconteceu nessa mesma época o FIQ de 2009 e quem já foi ao festival sabe que ele parece mais uma reunião de amigos, todos empolgados, conversando, trocando ideias. Eu fiquei encantada. Como já tinha tentado manterumblog, mas não consegui, resolvi fazer para mim
mesma uma história baseada em músicas. Aí nasceu a ‘Mixtape’, que é uma coleção de quatro  revistinhas numa caixinha que circulou no FIQ 2011. Mas acho que não tem muita receita para  quem está começando.O importante é não deixar o trabalho guardado na gaveta.”

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