Monday, November 4, 2013

Quadrinhos: mulheres mostram que também têm muitas histórias a contar (ou desenhar)

Artistas de Manaus mostram a força e a qualidade da produção feminina

    Viviane Bandeira [Quadrinista]
    Com a caneta na mão, Viviane Bandeira cria verdadeiras fábulas em meio aos desenhos em quadrinhos (Clóvis Miranda)
    Seja com lápis ou canetas em punho, é comum expressar as histórias da imaginação por meio das narrativas visuais, que se confundem ordenadamente entre desenhos e balões de fala. Nomes como os de Maurício de Sousa, Ziraldo e Laerte Coutinho foram alguns dos que popularizaram as histórias em quadrinhos no País. Embora nos venha à memória um extenso número de referências masculinas, este universo está longe de ser habitado somente por homens: as mulheres provam que, por meio de sua amplitude de sentimentos e ideias, também possuem muitas histórias a contar (ou desenhar).
    Fábulas em quadrinhosEm Manaus, a psicóloga Viviane Bandeira, 38, exibe orgulhosa o acervo dos mais de 40 quadrinhos desenhados por hobby desde os 15 anos. Reconhecida pelos professores na infância como uma criança que ‘carimbava’ desenhos em todas as páginas do caderno, ela retrata em suas histórias verdadeiros contos de fantasia e ficção, onde vilões e mocinhas terminam apaixonados. Totalmente autodidata,  ela firmou como sua principal base a história “Sandman” (1988), de Neil Gaiman.
    “Enquanto as meninas gostavam de sair, eu gostava de ler livros, e me aprofundar nos quadrinhos. Meu objetivo era tornar cada vez mais fidedigna a imagem nos desenhos. Penso que a visão das mulheres nos quadrinhos é dar maior profundidade nas histórias, com uma sensibilidade diferente da dos homens - um pouco mais voltada à ação. Se eu pudesse dar uma mensagem às mulheres que escrevem quadrinhos, diria para tentarem conciliar as carreiras com os desenhos”, pontua Bandeira.
    A força femininaDesmitificando a imagem de que os desenhos das mulheres se inspiram apenas na delicadeza e no romantismo, a ilustradora Carol Piece, 26, também começou cedo na área: aos nove anos ingressou no curso de quadrinhos da Federação de Escolas Simonsen Faculdades Integradas, no RJ. Em 2008, ela lançou o fanzine “Sigma”, totalmente editado em inglês, sob o gênero cyberpunk, do segmento de ficção científica, pouco povoado por mulheres. Atualmente ela auxilia o roteirista Bruno Cavalcante desenhando algumas páginas para o projeto Black Hammer, um HQ com traços que lembram o mangá, mas cujas formas corporais se parecem com os comics americanos.
    “Muita gente acha que mulheres vão escrever só sobre coisas ‘fofinhas’, mas não escrevo histórias de romance. Escrevo o que as mulheres querem ler nos quadrinhos, que não são os casais românticos, e sim heroínas fantásticas. Existe uma personagem chamada Glory, criada por Rob Liefeld, que foge ao estereótipo do quadrinho para mulheres: ela é uma ogra e passa por altos e baixos. Com ela, é possível mostrar que as mulheres não são frágeis, e sim fortes”, enfatiza Carol.
    Mercado restritoAs pedrinhas que viraram cogumelos fizeram muitas pessoas rirem em uma exposição acadêmica e foi o que despertou a professora Liz Oliveira, 40, para o mundo das narrativas visuais. Ela afirma que começou no ramo despretensiosamente aos 21 anos, mas logo depois foi contratada como quadrinhista do antigo portal de notícias paulista Netcorner - onde ganhava R$ 90 por tira - e viveu em fase de “lua de mel” com os quadrinhos por seis meses.
    Por conta das dificuldades impostas pelo mercado – principalmente para as mulheres, ela acredita – Liz já chegou a jogar muitos desenhos no lixo, de onde foram pacientemente recolhidos pelo marido, Genner Neves. Oliveira atualmente dedica os seus quadrinhos aos dilemas do universo feminino, problemas que ela diz também cercar o mercado para a profissão de quadrinhistas mulheres.
    “Creio que o mercado é mais difícil para mulheres por ser um ramo dominado por homens. Em Curitiba, uma amiga quadrinhista tentou vender o material dela e levou cantadas, por exemplo. Outra barreira que enxergo é a falta de confiança da mulher no seu trabalho. Por termos muitos homens no mercado achamos que o nosso material não é tão bom, o que é um engano. A mulher quer abordar outros assuntos fora da conotação sexual muitas vezes abordada por homens, falar sobre outros temas, fazer críticas à sociedade e a si mesmas”, reflete Oliveira.
    Zine XXX: arsenal de quadrinhistas mulheresÚnica mulher do Coletivo Libre (RJ), grupo que escreve quadrinhos para internet, a universitária carioca Beatriz Lopes, 19, criou em agosto o grupo Zine XXX no Facebook. Formado com o intuito de reunir quadrinhos em cinco fanzines - com 24 páginas cada - produzidos por mulheres de todo o Brasil, em apenas quatro dias de lançamento o núcleo já possuía mais de 200 adeptas. Por meio do site Catarse (http://catarse.me/pt/zinexxx) Beatriz visa arrecadar dinheiro para por o projeto em prática, e já tem 266 apoiadores.
    “Vejo que as meninas são muito escondidas nesse mundo. Quando coloquei a proposta do projeto na internet, mulheres de várias partes do Brasil apareceram com desenhos. Algumas pessoas acharam que por conta da sigla XXX nós éramos contra as transexuais (risos). E não tem nada a ver, queremos apenas dar espaço para a produção feminina. Já tem muito quadrinho para homens”, brinca Lopes. Os quadrinhos podem ser enviados para o e-mail zinexxx1@gmail.com.
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