Monday, November 11, 2013


Publicitário mantém coleção de

 

HQs 


com mais de três mil exemplares



Publicitário Igor Mêda afirma já ter gasto cerca de R$ 30 mil com hobby.
Apesar de fãs e produtores, mercado de quadrinhos em AL ainda é limitado.

Natália SouzaDo G1 AL
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Publicitário exibe parte de coleção de quadrinhos. (Foto: Arquivo Pessoal/Igor Mêda)Publicitário exibe parte de coleção de quadrinhos.
(Foto: Arquivo pessoal/Igor Mêda)










A paixão por Histórias em Quadrinhos (HQs) do publicitário e empresário Igor Mêda, 30, começou quando ele ainda não sabia juntar as letras para entender uma palavra. “Antes mesmo de aprender a ler, já folheava gibis por influência dos meus pais”, diz. Aos oito anos comprou o primeiro HQ e depois as aquisições continuaram até chegar a marca atual de aproximadamente três mil exemplares.
O hobby pôs em xeque até o casamento de Mêda. Sua noiva deu um alerta que só casaria se ele se desfizesse da coleção. O publicitário conseguiu dividir as aquisições de anos na casa da mãe e embaixo da própria cama. E casou. Apesar de ter se surpreendido com o número expressivo de colecionadores que conheceu recentemente na Bienal Internacional do Livro de Alagoas, Mêda afirma que o mercado de produção e consumo de quadrinhos no estado ainda é carente.

“Na última contagem, registrei 2400 gibis. Hoje, acho que já passa dos três mil e olhe que eu me desfiz duas vezes de parte da coleção para juntar dinheiro. Não conheço alguém que tenha tanto volume, exceto um outro colecionador”, afirmou.
O publicitário estima que já tenha gasto cerca de R$ 30 mil em mais de 20 anos de coleção. “Comecei a ler Conan e depois pulei para os super-heróis. Hoje, na hora de comprar um HQ, avalio o autor, roteiro, argumento e desenho. Meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi sobre a indústria americana e brasileira de quadrinhos. Na bienal, palestrei e participei de oficinas sobre o tema”, disse.
“Só lá é que pude notar o quanto tem gente que gosta de quadrinhos aqui na cidade. Não temos muitos locais de encontro com outros colecionadores. Infelizmente, Alagoas é um estado que passou 15 anos com seu maior teatro fechado. Agora foi que chegou uma grande livraria. As pessoas não têm o hábito de ler, isso amputou o mercado literário em Alagoas, principalmente o de quadrinhos”, avaliou.
Comic shop da Pajuçara é referência entre colecionadores em Maceió (Foto: Jonathan Lins/G1)Comic shop da Pajuçara é referência entre
colecionadores em Maceió (Foto:Jonathan Lins/G1)







Comic shop
Foi justamente a falta de um ambiente voltado a esse universo de novelas gráficas emMaceió, que um colecionador passou a ser empresário do ramo de gibis. O dentista Márcio Omena, 41, administra há seis meses com um amigo e sócio, uma comic shop, ou seja, uma loja que vende HQs, mangás, e produtos relacionados aos quadrinhos.
A loja, que fica localizada no bairro da Ponta Verde, é mais que um estabelecimento comercial, é um ponto de encontro para entusiastas e colecionadores, segundo Omena. “Com uns cinco ou seis anos já lia gibis. Gostava de Homem-Aranha, Turma da Mônica e outros super-heróis. Na adolescência e fase adulta, continuei com o hobby, mas sentia falta de um local que pudesse encontrar e conversar com outros colecionadores, por isso costumo brincar dizendo que abri essa loja mais para mim mesmo”.
Estabelecimento disponibilza mais de 2 mil títulos de HQs (Foto: Jonathan Lins/G1)Estabelecimento disponibilza mais de 2 mil títulos de HQs (Foto: Jonathan Lins/G1)
A paixão pelo universo dos quadrinhos parece não ter faixa etária, classe social ou raça. De acordo com Omena, crianças, adolescentes e adultos costumam passar por lá e nem sempre compram algo. “Outro dia veio um senhor de 90 anos dizendo que adorava quadrinhos e que, assim como ele, outras pessoas da terceira idade também”.
Com cerca de 2 mil exemplares de diversas editoras nacionais e internacionais, a loja vem se consolidando nesse mercado que ainda tem muito a crescer. “Acho que esse ramo tem muito potencial, ainda há muito o que crescer, mas também não ficamos atrás de algumas lojas de São Paulo, pelo que vi em viagens que fiz. Ainda não há disponível nenhuma obra de autor e editora alagoana, mas o espaço está sempre aberto”, disse.
Sobre a carência na produção local, Igor Mêda – que também é frequentador da loja de gibis, é categórico: faltam canais de incentivo. “Alguns jovens estão aderindo cada vez mais ao mangá, que tem influência japonesa. Ou seja, ao invés de formar público, estamos perdendo público. Recentemente minhas duas aquisições foram gibis do alagoano Pablo Casado. A maioria dos ilustradores trabalha com propaganda e os que fazem HQs acabam indo para fora. Temos pessoas muito talentosas, mas falta incentivo”.
Roteirista alagoano premiado, Pablo Casado, afirma que não dá para sobreviver de produção de HQs (Foto: Gilberto Farias/Jornal Gazeta de Alagoas)Roteirista alagoano premiado, Pablo Casado, afirma que não dá para sobreviver de produção de HQs (Foto: Gilberto Farias/Jornal Gazeta de Alagoas)
Mercado alagoano
Se o número de adeptos e colecionadores de gibis ainda é tímido para a sociedade alagoana, o número de produtores é mais escasso ainda. São poucos os que têm algum reconhecimento nacional, obra com tiragem de demanda, e o que tem mais projeção nacional da capital alagoana neste ramo afirma que ainda não consegue sobreviver só da produção de HQs.

Fã de quadrinhos desde criança, o pedagogo e roteirista de HQs Pablo Casado afirma que há 10 anos, começou a levar a sério a produção de quadrinhos. “Parte do meu gosto por gibis, vem do que eu assistia na infância com meus pais. Minha criação teve muita influência. Esse gosto por HQs começou por acaso, aos 12 anos. Houve uma época em que os desenhos animados baseados em quadrinhos que eu acompanhava na TV, a exemplo do Homem Aranha, Batman, Liga da Justiça, começaram a só reprisar, então eu comecei a comprar os HQs em uma banca ao lado da escola que estudava”, contou.
Colecionador alagoano reúne mais de três mil exemplares de HQs (Foto: Jonathan Lins/G1)Colecionador alagoano reúne mais de três mil
exemplares de HQs (Foto: Jonathan Lins/G1)
“Quando comprei, pensei, ‘quero trabalhar com isso’. Comprei revistas especializadas, comecei a pesquisar o assunto devido à popularização da internet. Comecei a descobrir outros gêneros de gibis. Descobri autores e novos quadrinhos, quadrinhos italiano, mangás. Isso me despertou a escrever sobre outras coisas e não só super-heróis”, disse.
Hoje, com três materiais autorais publicados, Duo, Pas de Deux e Sabor Brasilis, Pablo desfruta do gosto do reconhecimento nacional. “Duo e Pas de Deux foram feitas em parceria com desenhistas e a impressão foi feita por nós mesmo em pequena escala. Já a Sabor Brasilis, partiu de uma sinopse que eu tinha em mente e lancei a ideia, junto com outros quatro roteiristas, através de um edital do Programa de Ação Cultural, da Secretaria de Cultura de São Paulo.”, afirmou.
“Se você quer escrever quadrinhos a primeira coisa que você tem que fazer é ler livros, assistir filmes, series de TV, porque isso vai ampliar a suas referências quanto criador e produtor de ficção. Se você tem talento para roteiro e desenho, faça, você tem todas as armas para criar um HQ sozinho. Se não, procure parcerias. As formas de investimentos mais viáveis hoje em dia, são os editais ou editoras que estejam abertas a isso, mas é preciso querer correr atrás, divulgar seu nome, trabalho”, completou.

É por meio de editais que geralmente os roteiristas e desenhistas conseguem produzir e distribuir seus produtos. Em 2011, a editora alagoana Graciliano Ramos publicou um livro com sete Histórias em Quadrinhos chamado Alagoas Sequencial.
Depois disso, o mercado voltou às moscas e, segundo a diretora da Graciliano, não há previsão para outro edital. “A ideia era fomentar a produção de HQ em Alagoas, iniciando com o lançamento de um edital de publicação, já que é um forma democrática de revelar talentos desconhecidos e apoiar aqueles que já produzem”, disse Janayna Ávila, coordenadora editorial na Imprensa Oficial Graciliano Ramos.
“O mercado ainda é tímido. É uma área que precisa ser mais incentiva, sobretudo com prêmios em dinheiro, já que a produção dos quadrinhos é muito trabalhosa, leva tempo, exige dedicação. Justamente porque esperávamos mais dessa produção, tivemos que prorrogar o edital, esperávamos ter mais trabalhos”, completou.

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