Sunday, June 23, 2013

Para Maurício de Sousa, a criação é infinitaEm entrevista exclusiva, cartunista fala sobre a evolução da Turma da Mônica

Publicação: 22/06/2013 08:00 Atualização: 21/06/2013 21:35

Pelo compromisso com as crianças, ele  visita salas de aula pelo país. Nas conversas, capta dos pequenos estudantes as histórias e o futuro da turma. Foto: Monique Renne/CB/D.A Press.
Pelo compromisso com as crianças, ele visita salas de aula pelo país. Nas conversas, capta dos pequenos estudantes as histórias e o futuro da turma. Foto: Monique Renne/CB/D.A Press.
Maurício de Sousa está interessadíssimo em estudar a abertura de zonas de exclusão tarifárias nas quais seja possível instalar gráficas capazes de produzir livros com isenção de impostos. É que sua próxima graphic novel – Turma da Mônica – Laços – está vindo da China, novo Eldorado do mercado editorial, onde os preços são tão baixos que vale a pena atravessar dois oceanos para imprimir os álbuns. A nova investida do pai da Mônica já está no segundo título – o primeiro foi Astronauta – e quer capturar o leitor adulto. 
Mas Sousa não abandona as crianças. Foram elas que, há 54 anos, fazem do cartunista o autor de histórias em quadrinhos mais lido do país. E é pelo compromisso com as crianças que ele frequentemente visita salas de aula pelo país. Nas conversas, ele capta dos pequenos estudantes as histórias e o futuro da turma. Pelo telefone, do estúdio em São Paulo, Sousa conversou com o Correio Braziliense/Diario.(Nahima Maciel e Vanessa Aquino)

Você sempre alimentou essa prática de conversar com crianças. Por que? Como é o contato com elas e como elas te alimentam?
Da conversa nasce tanta coisa, tanta informação, tanta orientação para que continue fazendo as coisas que faço! Fiz isso a vida inteira, no começo meio sem querer e sem planejamento. Tive muito contato com a criançada e muita orientação por parte deles. Primeiro a partir dos filhos e depois passando para a garotada que conhecia no dia a dia e logicamente no contato com as escolas. Vou aprender mais um pouco. Saber o que eles estão sentindo, o que estão esperando e saber, principalmente, como está a evolução intelectual dessa criançada. Temos que estar preparados para conversar com eles e entendê-los.

É uma geração com uma quantidade de estímulos gigantesca. Como lidar com ela? Qual o espaço da Turma da Mônica num mundo de galinhas pintadinhas, Ben 10 e horas da aventura?
É, são muitos estímulos, mais do que nós mesmos somos capazes de absorver. Durante esse tempo todo que estou trabalhando, há mais de meio século, sempre houve estímulo, o outro lado crescendo, personagens nascendo, modismos não só de hábitos mas também tecnológicos. Nós ficamos sempre atentos e buscando nossa posição nas novas plataformas que foram surgindo. Isso deu certo até agora, nossos personagens ficaram cada vez mais fortes. Mas não podemos, logicamente, esquecer vãos, desvãos e caminhos novos, temos que estar por lá. Aqui e ali minha empresa deu algumas atrasadas em algumas áreas tecnológicas, mas compensou em manter a simpatia do público com os nossos meios tradicionais. E nosso meio tradicional favorito desse tempo todo foram os quadrinhos impressos. E cada vez mais é o lado dos outros caminhos, do desenho animado, da comunicação por internet, do licenciamento que funciona também como mensagem.

Em que área da tecnologia vocês se atrasaram?
Temos um site muito atrasado. O novo está prontinho para ser lançado, bem moderno, bem gostoso, interativo. Mas nosso site cresceu tanto que de repente estava com mais de 20 mil páginas. E para mexer esse mastodonte e ir alterando não dava. Então vamos soltar um site novo. Isso custa caro e é supernecessário e complicado, porque você começa a mexer e quando está tudo indo bem, em 20 dias tem uma crise da nova forma de comunicação, uma nova tecnologia, e a coisa já envelhece, fica obsoleta. A gente briga contra o tempo para se atualizar na área tecnológica. Mas é necessário alcançar esse desenvolvimento. Acho que conseguimos. Juntei uma boa equipe, contratei gente especializada e acho que vamos ter um site bacana até daqui a seis meses. 

As graphic novels são uma aposta da editora para o público mais adulto? 
É outro caminho, não é para poder buscar o nosso leitor jovem, não, é ir junto com ele no desenvolvimento dele. Ele já leu a revista infantil, já leu a juvenil, está à espera da Turma da Mônica adulta, que é nosso objetivo, mas e enquanto isso? Enquanto isso, ele teria que ter uma leitura parecida com a que os jovens, principalmente na Europa, têm com álbuns mais sofisticados, com desenhos mais sofisticados e temas também mais preparados para um público exigente. 

Que tipo de liberdade elas permitem?
Primeiro, o desenhista não está fazendo os personagens para os padrões gráficos das revistas normais. Ele está inventando uma figura, um desenho, está criando um desenho que lembra e traz a lembrança dos personagens, mas com liberdade de criar o seu lado plástico, de transformar em um personagem diferenciado graficamente. As histórias são contadas para um público adulto que vai entender uma problemática nova, uma psicologia nova, uma filosofia da história. O Astronauta é bem um exemplo. Era um personagem que vinha, há mais de 50 anos, viajando pelo espaço com uns probleminhas, bem aventura, primeiro infantil, depois juvenil. E agora ele está adulto. Tem problemas existenciais. Esse material é cuidado pelo Sydney Gusman, que conhece tudo de HQ. Eu falei : “O personagem tem que estar no bojo da história, ser lembrado pelo pessoal que já conhecia. Mas a história também tem que ser lida por leitores que nunca viram e não conhecem nossa produção anterior.” Temos que fazer essa ginástica. A história, por si só, tem que ser interessante, tem que ter uma bela mensagem. Não é moral da história, é uma história bem contada. E tem duas coisas que não quero que tenha nessa história: não quero ninguém morrendo e não quero sacanagem. De resto, tem a liberdade que ousamos dar para os artistas que vão chegando.

Por que ninguém morrendo?
Se o personagem morre, interrompe um ciclo e o futuro desenhista vai ter dificuldade. Então prefiro que não tenha morte de personagens conhecidos.

As graphic novels são uma tentativa de modernizar a história da Turma da Mônica, de trazê-la para o século 21?
Não. É mais para que nosso leitor tenha a opção de um produto intelectual diferenciado, interessante, atraente, para não ficarmos no mesmismo, repetindo coisas que fazemos há meio século. Quero uma coisa diferenciada.

Como manter a criatividade por tanto tempo e com os mesmos personagens?
Isso depende muito de copiar a vida como ela é. Não temos nenhum dia igual ao anterior. Nossa vida é cheia de alternativas e quase nunca é baseada no que planejamos. Sofremos as consequências do que está acontecendo em volta. Isso também mostra que não precisamos ser tão criativos assim. Precisamos estar atentos ao que acontece em volta e ir caminhando junto com esses novos acontecimentos todos os dias. No comecinho da minha carreira, uma vez, depois de fazer umas 30 tirinhas, a ideia não vinha e falei “acho que já imaginei, desenhei e inventei tudo que podia inventar, que pena, esgotei minha imaginação”. Depois disso, fiz um bilhão de tirinhas diferentes. E cada vez mais fui descobrindo que o que você pode criar, inventar, puxar do nada nunca é do nada. A possibilidade de criação é infinita. É um poço sem fundo no qual você joga o baldinho e sempre vai ter uma ideia, vai voltar cheio de água gostosa e cristalina.

Mas você precisa saber onde está o poço?
O poço está  na sua crença de que ele existe. Depende de sua ousadia, sua coragem, sua certeza de que vai encontrar sempre alguma coisa. 

O que te traz isso: a experiência ou o espírito infantil?
Não acredito muito no tal espírito infantil, acredito na sensibilidade que nasce com você. A criança é mais livre, mais solta e mais estouvada. Ela sabe, inventa, sonha, vai na criação, mas não sabe usar as ferramentas que vão transformar essa criação num filme, desenho animado, quadrinhos. Isso é aprendizado. A ousadia da criação nasce com a gente e a gente precisa não ter medo de ir em busca da criação. Isso vale para tudo, não só para cinema, teatro, quadrinhos, vale para a sua conversa, sua relação social e até mesmo para ser uma pessoa bem sucedida na vida. Uma pessoa que tem ousadia e coragem de criar situações vai ser atraente, simpática e vai se dar bem na vida principalmente na parte social e amorosa.

As graphics novels estão sendo impressas na China. É mais barato. O que isso significa para o Brasil?
A China não é o futuro do mundo da impressão. A China apenas tem preço melhor. Se, daqui algum tempo, a gente tiver a possibilidade de conseguir os mesmos custos e mesmos preços no Acre, numa zona de livre exportação que já existe, vamos fazer no Acre. Hoje, no mundo inteiro, busca-se o melhor preço, o melhor custo. E, logicamente, junto com a qualidade. Estão oferecendo isso na China e nas Filipinas. E eu estou brigando muito e iniciando um processo para convencer as autoridades do Brasil de que podemos fazer a mesma coisa aqui se abrirmos áreas de livre exportação e livre comércio para podermos exportar material sem o custo Brasil, sem grandes impostos e taxas, que é o que a China tem. Se conseguirmos, isso vira a balança para cá também e podemos imprimir nossos livros aqui e exportar para o mundo. Exige um projeto andando de área de livre exportação perto de portos e aeroportos que incitaria esse tipo de atividade. Daqui a um tempo estarei falando isso com mais propriedade.

Como é a turma da Mônica no século 21? É muito diferente de como era no século 20?
A diferença seria apenas de ferramentas, com algumas alterações no comportamento dos personagens e na realidade vivida por eles, situação que mudou também no mundo real. Dá o mesmo trabalho, é a mesma coisa, temos que ter nossos cuidados para atrair o leitor e fazer coisas interessantes. Mas mudou bastante a realidade tecnológica, as ferramentas mudaram para melhor, temos hoje condições muito melhores de trabalhar.

O que o senhor acha dos protestos nas ruas? Tem espaço para indignação na Turma da Mônica?
Acho que o que produzimos não deve estar ligado a essa revolução que está acontecendo. Mas como autor e comunicador vejo com muito bons olhos, com um tiquinho de preocupação. O movimento é lindo, tirando os excessos que estão acontecendo e que penso que as lideranças vão tentar coibir. É uma experiência maravilhosa o que está acontecendo no país. Ganhamos a guerra. Agora, o que vamos fazer com o que ganhamos? Estaremos, daqui a pouco, conhecendo novas lideranças políticas sem a contaminação de partidos que realmente estão atrasados, esclerosados? O que tem que haver agora é uma troca de figurinhas, informações, uma conversa muito séria entre as lideranças político-partidárias e as lideranças informais e lindas que estão surgindo nesse momento. Ninguém sabe dizer , infelizmente, o que vai acontecer. Mas o fato de ter existido isso até agora é um grande passo para a gente apressar os processos de transformação social, econômica e política do país.

Saiba mais

Maurício de Souza nasceu em 27 de outubro de 1935 (77 anos), em Santa Isabel (SP)

Começou a desenhar cartazes e ilustrações para rádios e jornais de Mogi das Cruzes (SP), onde viveu.

Procurou emprego em São Paulo como desenhista, mas só conseguiu uma vaga de repórter policial naFolha da Manhã, onde ilustrava suas reportagens com desenhos bem aceitos pelos leitores, durante cinco anos.

Mauricio de Sousa começou a desenhar histórias em quadrinhos em 18 de julho de 1959, quando uma história do Bidu, sua primeira personagem foi aprovada pelo jornal. Em seguida, vieram o Franjinha e o Cebolinha. A Mônica só foi aparecer em 1963.

Pai de dez filhos (Maurício Spada, Mônica, Magali, Mariângela, Vanda, Valéria, Marina, Mauricio Takeda, Mauro Takeda e Marcelo Pereira), Mauricio sempre criou personagens baseados neles.

Alguns de seus filhos que viraram personagens passaram a trabalhar com Mauricio. Mônica é responsável pela divisão comercial de alimentos e produtos licenciados; Magali colabora como roteirista; e Marina ajuda na criação de novas histórias.

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