Thursday, June 6, 2013

Casamento entre imagem e texto

Gus Morais começou investindo no desenho e cada vez mais a literatura foi tomando espaço em suas criações
Notícia publicada na edição de 06/06/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno C - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Sem um traço de pieguice que seja, a produção do ilustrador e quadrinista Gus Morais é mais voltada à reflexão do que ao humor escrachado. Em seu site, ele se estende e experimenta mais com textos poéticos e até doloridos de tanta realidade; já na Folha de S. Paulo, onde ilustra as tiras da seção Bytes de memória do caderno de tecnologia TEC, é mais conciso, mas não menos reflexivo. Gus Morais só não é ausente. Seus personagens e temas dizem mais de si do que consegue verbalizar. Sintoma típico da geração que inspira suas criações e da qual pertence. Geração regida pela tecnologia e protegida pela tela de um computador de onde vê e participa do mundo. E ele não faz questão de negar isso. "Não sou pautado para as tiras que faço para a Folha de S. Paulo, mas é uma coluna e tenho que falar sobre tecnologia. O processo é bem diferente do blog, pois quando não tenho nada para falar, não falo. É mais natural, experimento mais. Mas, meu trabalho sempre tem a ver com o que eu estou sentindo e o que estou pensando", explica Gus, que ministra até amanhã uma oficina de Quadrinho digital, no Sesc, e volta nos dias 18, 19, 20 e 21, das 19h às 21h30, para realizar a oficina de Ilustração digital na unidade. Até o fechamento desta edição, restavam pouquíssimas vagas. "Nessa oficina de ilustração falarei algumas referências de ilustradores que trabalham de diversas formas, mas o foco será mais técnico, trataremos de programas que podem ser usados para a ilustração", adianta.
Um dos nomes mais recentes da ilustração do país, Gus Morais reconhece que a internet possibilitou que seus trabalhos chegassem a um número maior de pessoas, até cair nas mãos do editor do caderno de tecnologia da Folha de S. Paulo, que achou que tanto o traço quanto o tema que sempre aparecia em suas tiras caberiam na página que Gus ilustra desde os primeiros dias de 2012.
Mas a relação entre o ilustrador e o desenho é mais antiga, data do dia em que seu tio, de mudança, deixou de herança para o menino de 14 anos, que sempre gostou de desenhar, sua coleção de quadrinhos. "Tinha de tudo, de Moebius à Marvel", lembra. O mesmo tio, quando ele já tinha 17 anos, pagou a ele um curso de quadrinhos, responsável pela evolução do traço do garoto que se inscreveu e passou em um dos mais concorridos cursos do Brasil, o de Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). "Trabalhei poucos dias com isso, não gostei."
A leitura da série de livros Desvendando os quadrinhos, de McCloud, foi fundamental para que o artista entendesse que, sim, ele também poderia produzir os seus. Aliás, criou sua primeira webcomic do blog de quadrinhos alguns dias após ter terminado de ler os livros do autor. E entre 2007 e 2008, começou a trabalhar com ilustração de diversas formas, em livros didáticos, infanto-juvenis, entre outros. "Fazia minhas histórias, mas elas eram longas", lembra.
No fim de 2010, o falecimento do pai mexeu muito com ele, então, fez um quadrinho em sua homenagem, e que gostou muito, o que o incentivou a produzir mais, de forma independente. Em 2011, trabalhou e juntou dinheiro para passar o próximo ano só produzindo o que quisesse, mas ainda no fim do ano, seu trabalho caiu nas graças do principal site de tecnologia do país, o Gizmodo Brasil, o que ocasionou um compartilhamento em massa do seu trabalho, e o convite da Folha de S. Paulo. "O formato do jornal é diferente, mas no começo fiz 20 tiras que eram intercaladas com outra tira estrangeira, que tem uma pegada mais nerd, eles queriam algo mais próximo do brasileiro, que é diferente", explica ele, que começou revezando com a tira Joy of tech, dos canadenses Nitrozac e Snaggy, na Folha de S. Paulo.
  
Veia literária
Não raro, o texto sobressai aos traços em alguns trabalhos de Gus Morais. É que o menino que começou apenas desenhando, ao longo do tempo, foi abraçando, cada vez mais, as letras. "70% dos trabalhos começam com o texto e depois vem a imagem", conta ele, que destaca como influências literárias os escritores Ítalo Calvino, Lígia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Alberto de Cunha Melo, Roberto Piva, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.
Tímido, mas confiante, ele reconhece a qualidade do casamento entre o texto e a imagem em seu trabalho. "Nos últimos meses, tenho trabalhado a poesia visual, é mais abstrato. Tenho lido muita poesia e isso reflete no meu trabalho, mas não tenho medo de experimentar", defende Gus Morais, que lançou em agosto, de forma independente, o livro de quadrinhos Privilégios, e está na recém-lançada coletânea de quadrinistas, Libre.
Mas vale adiantar: o exercício da escrita e da leitura, despertou uma nova vontade. De acordo com ele, possivelmente deverá lançar um livro só de letras, e não de imagens.
  
Serviço
Restam poucas vagas para a oficina de Ilustração digital, com Gus Morais. Interessados a partir de 14 anos podem procurar a unidade local, que fica na Rua Barão de Piratininga, 555, Jardim Faculdade. A atividade é gratuita e mais informações no site:www.sescsp.org.br.

Fonte:

No comments: