Tuesday, April 30, 2013

Povos indígenas em quadrinhos


O ponto de vista indígena

  • Álbum reconta histórias de tribos brasileiras sob o ponto de vista do índio
  • Obra é resultado de passagem do autor, Sérgio Macedo, por tribos de Mato Grosso
  • "Povos Indígenas em Quadrinhos" começa a ser vendido na semana que vem


Povos Indígenas em Quadrinhos. Crédito: Zarabatana Books

Um projeto antigo do quadrinista Sérgio Macedo sai do forno na semana que vem. Trata-se da história de tribos brasileiras narradas pelo ponto de vista do próprio índio.
"Povos Indígenas em Quadrinhos" (Zarabatana Books, 88 págs., R$ 51) é resultado de impressões e relatos coletados dos próprios protagonistas do álbum.
Macedo conviveu por alguns meses com índios da aldeia  Metyktire, localizada em Mato Grosso. Lá, entendeu melhor o papel e a realidade daqueles povos.

A experiência, vivida em 1987, somou-se a outros dados. A outros dados e às pesquisas visuais, que ajudaram na composição dos desenhos realistas, marca principal do autor.
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O álbum inicia com uma história universal do povos indígenas. Da Idade do Gelo até as aldeias atuais. Dos primeiros habitantes americanos à realidade brasileira contemporânea.
Os capítulos que se seguem recontam as histórias das tribos Yanomami, Xavante, Kayapó, Suruí e Panará. Tudo pelo viés do olhar indígena.

Yanomami

 Xavante





Suruí


Panará





Este é o terceiro álbum que Macedo lança no Brasil. O primeiro, "O Karma da Gaargot", foi publicado em 1973. No ano seguinte, o autor se mudou para a Europa.
Na França, assinou 15 álbuns, alguns deles traduzidos nos Estados Unidos. Macedo se estabeleceu, depois, no Taiti, onde morou por mais de 25 anos. Retornou em 2007.
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Foi nessa volta ao Brasil que Macedo cometou pela primeira vez sobre o projeto de "Povos Indígenas em Quadrinhos". Na ocasião, aventou-se que seria lançado pela Devir.
A ligação com a Devir é porque foi a editora que lançou o segundo álbum do autor no país, "Xingu!", também em 2007. No mesmo ano, Macedo foi homenageado no Troféu HQMix.
As voltas para tornar a obra real são um dos temas desta entrevista com Macedo, feita por e-mail. As respostas foram escritas de Juiz de Fora (MG), onde cresceu e está atualmente.
Ele faz só um pedido: a cópia das respostas na forma como foram escritas. "Estou cansado de ter tido frases minhas transformadas e, consequentemente, distorcidas em relação ao sentido original." Seguem as respostas. Na íntegra.
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Blog - Começo justamente pelas dificuldades de publicar a obra no Brasil. Lembro-me de você tê-la comentado na última vez em que conversamos e que seria publicada, na ocasião, pela Devir. O que mudou?
Sérgio Macedo
 - Sim, era esse o projeto inicial. Então, fui para a Bahia e me estabeleci no litoral, perto de Itacaré. Como tinha vivido décadas fora do Brasil, aproveitei para curtir as belezas do Patropi e, durante muito tempo, deixei de lado a HQ em geral. O surf de Itacaré é lixo (falo da qualidade das ondas) em comparação com o surf nas ilhas do Pacífico e suas ondas sobre bancadas de coral, mas a galera baiana é muito legal e, junto com o calor e a beleza natural da região, me diverti um bocado. A Bahia tem muita beleza e, longe dos centros urbanos, as pessoas são muito mais humanas, gentis, alegres e comunicativas. Quando recomecei a trabalhar, enviei mensagem ao Douglas [Quinta Reis, diretor editorial], da Devir, comunicando o projeto e perguntando a disponibilidade da editora para publicá-lo. Como não houve retorno, escrevi novamente. Mesmo resultado. A gente sabe que a net não é infalível, e tentei mais uma vez. Não tive resposta, me toquei que não havia interesse, e decidi procurar outra editora. Fui a Sampa, e um amigo desenhista me levou na editora DCL. O diretor, Raul Maia, foi muito legal e decidiu publicar o livro. Fechamos negócio, voltei para a Bahia, e continuei a desenhar as HQs do livro. Quando quase tudo estava pronto, a editora literária me comunicou que o livro não poderia ter imagens de índios nus... Quase um ano depois do contrato assinado e da equipe editorial ter visto uns 40 originais onde não faltavam índios nus. Ah, Brasil!... Isso desencadeou problemas consecutivos e, quando um grafista da editora modificou digitalmente várias imagens, decidi partir para outra. O que se seguiu foi uma série de contatos, envio dos arquivos do livro pela net, até que Claudio Martini, [editor da] Zarabatana Books, decidiu publicar o livro. 
(Se você quiser, posso fazer um histórico da saga-editoras e das peripécias que rolaram, como quando na Abril Educação, após aprovação da diretoria, comitê editorial e etc, rolou um veto do setor jurídico logo antes que assinássemos o contrato, pois eu propus uma cláusula em que haveria uma contribuição financeira (como se passa agora com Zarabatana) do autor e do editor para os índios retratados na obra).
Blog -Quando exatamente você começou a produzir a obra e quando a terminou?
Macedo
 - Nos anos 80. A página sobre a Hutukara Associação Yanomami [no final da obra], feita a pedido dos Yanomami, foi finalizada poucos dias antes da impressão do livro.
Blog - O livro mostra o lado dos índios e caracteriza como maus, por assim dizer, todos os invasores e políticos responsáveis por programadas indígenas. Isso não pode gerar algum questionamento de que o outro lado não teria sido ouvido?
Macedo
 - Cuidado para não cair na armadilha maniqueísta judaico-cristã e seus conceitos de bom e mau. A TV e demais mídias brasileiros, instrumentos dos interesses econômicos das multinacionais e dos lobbies nos bastidores do governo, inculca na cabeça do povo noções absolutamente falsas e errôneas sobre os povos indígenas, e a infeliz política atual da Funai é coptar as lideranças indígenas a aceitar o jogo dos brancos, a enfraquecer sua cultura (a instalação de televisões nas aldeias é uma ferramenta para isso) a fins de que eles não oponham resistência à corrupção que impera na sociedade nacional. Convivi com garimpeiros, posseiros, caçadores, empregados de fazendas, aviadores que levavam garimpeiros nas terras indígenas, etc, conheço os dois lados e vejo bem que a grande maioria desses invasores está na necessidade e busca, antes de mais nada, a sobrevivência. Eles não têm noção correta do impacto de suas ações sobre o povo indígena. Quanto aos latifundiários, empresários e grupos econômicos que os manipulam, a realidade é outra, assim como a ausência de intervenção efetiva do governo, que tem, no mínimo, a obrigação de respeitar os direitos humanos. É claro, alguém que vive na cidade, mesmo com a maior dose possível de informação adquirida nos centros urbanos, não compreende nem de longe o que se passa na mata e nas terras indígenas.
Blog - Sérgio, para encerrar, queria saber o que o motivou a retornar ao Brasil e a se estabelecer em Juiz de Fora. E com quantos anos está hoje?
Macedo
 - Após mais de 33 anos no exterior, eu ainda lembrava das maravilhas naturais do Brasil, e voltei para revivê-las. Nunca me estabeleci em Juiz de Fora, que é uma das cidades mais caretas e tristes desse planeta. No ano passado, vim a Juiz de Fora visitar minha mãe. Uma manhã, praticando corrida a pé numa trilha de fazenda, fui picado por uma cascavel. Estava longe de tudo, foram 4 horas até ser socorrido na cidade, e quase fui para o outro mundo. Mas vaso ruim não quebra à toa, e ainda continuo vivo. Mas a recuperação foi muito longa, e acabei ficando no sítio dos meus pais. Mas meu projeto é voltar para as ilhas do Taiti, cuja realidade é paradisíaca em comparação com a do Brasil. Mas tenho alguns projetos HQ a finalizar antes disso. Nasci no 8-4-51, tenho 61 anos (os dados biográficos estão no livro). Allright, Joe?

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