Tuesday, April 23, 2013


Da Necessidade de Reinventar o Quadrinho Regional – Parte I


por Thomaz Rocha
No último sábado, 20, o Fórum de Quadrinhos do Ceará (FQCE), em parceria com aSecretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), promoveu, na Gibiteca da Biblioteca Municipal Dolor Barreira, um encontro com artistas, autores de blogs e demais envolvidos com a nona arte para debater o atual panorama da produção local e formas de levar essas produções ao público.
Pensando em responder a essas inquietações, citei no grupo do FQCE no Facebook a importância do menos reconhecido dos quadrinhos meta-narrativos de Scott McCloudReinventando os Quadrinhos.

Pensando nisso, iniciei uma reflexão que gostaria de lançar como provocação. Como falou-se na reunião, há vários caminhos possíveis e esse é apenas um delesA partir do texto de McCloud, e analisando a trajetória de alguns artistas brasileiros que alcançaram projeção maior, imaginei lançar alguns questionamentos ao produtor de quadrinhos local. Falo de fora, como leitor, e certamente desconheço grande parte das engrenagens que movem o sistema. Vou tomar a liberdade, porém, de dar meu relato de estrangeiro. Como desconhecedor honesto, me valerei do modo infantil de questionar “na lata”, sem firulas, para que a questão não perca a virulência.
Scott McCloud cita 12 revoluções que podem mudar os quadrinhos:
1) Os quadrinhos como Literatura;
2) Os quadrinhos como arte;
3) Os Direitos dos Criadores;
4) Inovação Mercadológica;
5) Percepção Pública;
6) Escrutínio Institucional;
7) Equilíbrio dos Sexos;
8) Representação das Minorias;
9) Diversidade de Gêneros;
10) Produção digital;
11) Difusão digital;
12) Histórias digitais.
Dessas revoluções, algumas não dizem muito de nosso mercado local. De cara, deixemos de lado os pontos 3, 4 e 6. Por questões típicas da produção de quadrinhos no Ceará, inovações nessas áreas são a regra¹. Os outros 9 pontos, porém, merecem ser estudados.
As duas primeiras áreas de “revolução” dizem respeito, diretamente, aos quadrinhos como arte². Em suma, esses dois pontos dizem que, considerando a natureza híbrida dos quadrinhos deve-se: a) levar em consideração a tradição literária do texto escrito; b) levar em consideração a tradição das artes plásticas para a composição do desenho.
Você roteirista de quadrinho local, conhece os clássicos da literatura? Quanto de Shakespeare,GoetheMachado de Assis³ já leu? Conhece os modernos? Já leu JoyceGuimarães Rosa,SaramagoGarcía Márquez? E os contemporâneos? Valter Hugo MãeDaniel Galera?
E considerando que você é um produtor local, o quanto conhece da tradição literária cearense? Você vai além de José de AlencarRaquel de Queiroz e Moreira Campos? Está aquém disso?!!
O mesmo em relação às artes plásticas: você acompanha a história das artes? Está familiarizado com o estudo da composição de van GoghRothko, Lichtenstein? E, novamente, conhece a cena cearense4?
Outro ponto negligenciado por muitos artistas, inclusive alguns com projeção no mercado internacional, é a importância do conhecimento de design para fazer capas e sequências de quadros atraentes. 
Além disso, partimos do pressuposto que você acompanha o que acontece no Brasil e no mundo em relação aos novos lançamentos e críticas de quadrinhos.
Tudo isso, caso não tenha percebido, tem a ver com o item 5, percepção pública: os fãs de quadrinhos costumam chamar as HQs de nona arte. Isso, porém, não é a visão geral e, na verdade, não é a visão de muitos produtores de quadrinhos. Quando citamos os exemplos de sucesso recente no mercado nacional (MoonGrampáCoutinho etc), percebemos que são exatamente aqueles que foram bem sucedidos nesses dois pontos iniciais (conhecimento artístico literário/ conhecimento de artes plásticas) que se realiza em seus trabalhos. Isso tem como consequência uma percepção pública de um produto que dialoga com a tradição artística.
Tudo isso ganha especial relevo se pensarmos no mercado de arte brasileiro. O brasileiro consome pouca arte. Dizia-se até bem pouco tempo que Buenos Aires sozinha tinha mais livrarias que o Brasil inteiro. Isso implica que o artista brasileiro precisa tanto estar preparado para vender para fora como precisa convencer o governo a subsidiar sua arte – se pretende viver de arte. E para convencer o governo a subsidiar a arte, precisa convencê-lo também de que o que está sendo subsidiado é arte.
¹Menos por uma postura de vanguarda que por falta de uma postura estabelecida sobre o tema.
²Mais à frente diremos como isso tem a ver com a viabilidade econômica do mercado de produção dos quadrinhos.
³E eu não digo que eu seja nem de longe autoridade sobre os autores que cito, nem que eles sejam os necessários. São apenas alguns dos autores que me são caros (e alguns que apenas ouvi falar, para ser sincero: o texto é uma provocação também para mim).
4Não me arvoro aqui a dizer o que é arte e confesso desde já TOTAL ignorância em relação a uma obrigação daquele que se aventure a produzir quadrinhos: conhecimento do cenário de arte contemporânea. Possibilidades como intervenções e instalações com quadrinhos, por exemplo, podem e devem ser pensadas.
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