Wednesday, February 13, 2013



As ladies no CRACK BANG BOOM 2

Desenho de Gustavo Sala. As mulheres de Rosário são conhecidas como as mais bonitas da Argentina.
Nosso destino era Rosário. Era ver de perto como funciona um evento de quadrinhos fora do Brasil. Depois de ler “Bienvenido” era quase um sonho confirmar cada história narrada com detalhes por Paulo Ramos e que foi de grande ajuda nas nossas “descobertas”.
Antes fomos a Buenos Aires, claro que não deixaríamos de passar pela cidade da Mafalda. Impressionante como a imagem da garota que no início foi desenhada para representar a Mansfield (loja de eletrodomésticos) virou representante de protestos por causa das suas frases contestadoras e críticas. Em qualquer banca encontramos um de seus quadrinhos; assim como a Mônica em nosso país. Também descobrimos “El Eternauta“, outro quadrinho presente em toda a Argentina e que vale ser lido. Não só sua história como a do autor.
Bom, mas não ficamos presas ao passado. Em um restaurante de comida natural encontramos com uma das principais quadrinistas de Buenos Aires atualmente: Clara Lagos. Um encontro “muy rico”, diriam os argentinos. Mesmo com barreiras da língua (apesar de Clara estar no nível dois de português e nós arranharmos no espanhol) a conversa fluiu. Nos entendemos. Nos entendemos bem. Quando digo nos entendemos bem, não me refiro a ela e eu, mas às mulheres que gostam dos quadrinhos e que veem nos quadrinhos mais que arte, veem algo de político, de enfrentamento de barreiras e de fronteiras; fronteiras de ideologia, de linguagem e geográficas.
Clara nos disse que estamos perto, somo vizinhos, e me faz uma pergunta que não sei responder: porque dentro desse universo dos quadrinhos estamos longe? Ela se esforça em escrever em seu blog algum dos seus quadrinhos em português. Diz que tenta incentivar seus amigos,  mas que alguns têm receio. Ela pensa também que talvez o humor que tenta descrever não faça tanto sentido aqui. Talvez nem sempre faça mesmo, mas muita coisa é universal. Ganhamos o livro da Clara “Claríssimos dias” e consegui compreender tudo! rsrsrs O que falta, para mim, é essa aproximação, é a união.
Percebi isso numa twittcam promovida pela revista Larva com a colombiana Power Paola. Ela é amiga de Clara Lagos, fazem juntas o “Chicks on Comics” (que já foi post aqui) e o “Historietas Reales”. Porém, numa pergunta os ninguém sabia o que era o Crack Bang Boom. Oi? Porque as informações não circulam?
Enfim, quero deixar isso registrado. Mas antes só uma última coisa, a Clara não foi ao evento. Quando eu perguntei o porquê, ela disse: “Não me convidaram.”
Então fomos nós para o destino inicial. O evento aconteceu em mais de um lugar de Rosário, o que nos ajudou a conhecer a cidade. No CEC (Centro de Expreciones Contemporáneas) haviam estandes, espaço para as principais palestras, exposição de desenhos e esculturas e um telão que ficava mostrando alguns desenhos animados. Nada muito diferente dos daqui, até menor para o tamanho da divulgação. Mas, para nós,  enriquecedor, já que não conhecíamos quase nada. Foi legal ver os estandes dos independentes, das revistas que reúnem artistas, estandes de ilustradores, haviam action figures e artigos japoneses, mas o legal foi ver também grande número de mangás, o que não vemos aqui nesse tipo de evento. Tá aí! Acabou de cair a ficha! Segundo a opinião do Paulo Ramos o mangá foi “o conquistador” das mulheres, elas normalmente lêem mais mangás que outros quadrinhos. Nos eventos daqui não vemos os mangás juntos aos eventos tradicionais, sempre estão divididos, como por exemplo, o AnimeFest. Não seria a hora de juntar as ideias? #ficadica
Enfim, voltando ao CRACK BANG BOOM, o que podemos perceber é: estamos na frente. O Brasil, em caráter de evento, está nitidamente na frente. Talvez eu esteja equivocada, já que só fui nesse (rsrsrs) e também por ser a segunda edição. Mas foi minha impressão. >.<
Quanto aos convidados sentimos falta das garotas. Não foi por inexistência delas, foi por falta de convites mesmo. Por isso saímos durante o evento perguntando o que as frequentadoras achavam e se elas pudessem convidar alguém, quem chamariam. Pau Franco, ilustradora de Rosário, nos respondeu que sente falta de palestrantes mulheres para ver exemplos de como elas começaram e aprender com suas experiências, e sugeriu como convidadas as ilustradoras Nicoletta Ceccoli e Eva Mintanari. Já duas garotas que saíram da Colômbia para o evento, também afirmaram sentir falta: “Sí hace falta incluir invitadas mujeres, para diversificar el contenido, mostrar una mirada diferente y abrir el mercado” disse a quadrinista colombiana Mariana. Ela nos listou algumas possíveis candidatas:Paola GaviriaClara LagosCamila Torre Notari e Allison Bechdel.
Quando perguntamos na palestra dos brasileiros Rafael Albuquerque, Renato Guedes e Rafael Coutinho, onde estavam as quadrinistas mulheres, com um tom de brincadeira, este último nos respondeu: “estão na cozinha.” E concluiu com humor sua resposta que você pode conferir neste vídeo:

O mediador da mesa até mesmo brincou que poderia por uma peruca para suprir nossa necessidade. Saída pela culatra, e nós, mais uma vez, sem uma resposta nítida e séria quanto ao assunto.
Voltando à Clara e a uma frase sua que resume bem o que fazemos aqui: “Precisamos nos separar para que o cidadão comum nos enxergue.” Ela se refere ao trabalho que ela faz no Chick on Comics, somente com mulheres e ao nosso humilde blog. Dentro desse universo você, caro leitor, sabe como funciona o mundo de quem trabalha com quadrinhos, de quem estuda os quadrinhos, e sabe (ou não) que existem muitas mulheres querendo conquistar esse mercado. Mas o cidadão comum (e não somente ele) só enxerga como quadrinho a Mônica, só o usa para distrair a criança ou como questão em prova de português. É esse e tantos outros que não nos veem como leitoras, como trabalhadoras da área e dignas do reconhecimento que queremos alcançar.
Coutinho, apesar da piada, falou muito bem quando disse que quadrinho é também militância política. Estamos aqui pra isso e vamos seguindo nos próximos eventos questionando os padrões e militando pelo reconhecimento das mulheres. E mais: pelo reconhecimento da nona arte!
Fonte:
http://ladyscomics.com.br/as-ladies-no-crack-bang-bom-2

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