Wednesday, November 14, 2012


Quadrinhos não são lite­ra­tura — e isso é ótimo
Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!
Em outra vida, fui estu­dante do curso de Letras na Universidade de Brasília. Um período que aprendi mais coi­sas sobre a vida do que sobre a aca­de­mia. Mas é lógico que alguns apren­di­za­dos vão além de com quan­tos vinhos vaga­bun­dos se faz uma festa no DA.
Engraçado é o fato de que eu nunca ima­gi­nei que um des­sas pou­cas lições que levei da UnB para a vida inteira viesse logo no pri­meiro semes­tre, em minha cadeira de Introdução à Teoria Literária. Rogério Lima era um pro­fes­sor bem sin­gu­lar. Uma pena que o resto da aca­de­mia — com exce­ção de um cara cha­mado Gilson Sobral, res­guar­da­dos deter­mi­na­dos posi­ci­o­na­men­tos — não fosse assim. Rogério saía do cânone, gos­tava de apre­sen­tar a obra de artis­tas con­tem­po­râ­neos, de dis­cu­tir os valo­res que nos faziam deter­mi­nar o que pode­ria ser con­si­de­rado arte e o que não era. O que era, afi­nal, literatura.
Eu, no auge de meus 18 anos, des­co­brindo que a o uni­verso das his­tó­rias em qua­dri­nhos ia muito além do que sabia minha cabe­ci­nha impú­bere, dotada da arro­gân­cia da idade e do des­lum­bra­mento com o novo, larguei-lhe logo a máxima de quem quer impu­tar valor ao meio: qua­dri­nhos são lite­ra­tura. Lembro bem como se fosse hoje da minha indig­na­ção quando ele cal­ma­mente virou pra mim e disse que “Não. Não são, não.”

Um dos mais famo­sos auto­res de HQs,  criou o termo “graphic novel”, hoje uma muleta (Foto: Divulgação)
Logicamente, com­prei a briga. Desfiei os velhos argu­men­tos do pre­con­ceito con­tra uma arte mar­gi­na­li­zada por déca­das — quiçá sécu­los! -, refém da indús­tria da mas­si­fi­ca­ção, de raí­zes muito mais pro­fun­das do que se pode ima­gi­nar, cuja con­tri­bui­ção cul­tu­ral eram sis­te­ma­ti­ca­mente dimi­nuí­das enquanto sub-literatura para semi-letrados, mas que mui­tos auto­res usam com maes­tria a capa­ci­dade de esti­mu­lar nos lei­to­res o uso de diver­sas capa­ci­da­des cog­ni­ti­vas simul­ta­ne­a­mente, que era a expres­são artís­tica que mais se desen­vol­via na atu­a­li­dade e mais um monte desse bla­bla­bla que tanto prezo — prezamos.
Rogério escu­tou tudo paci­en­te­mente, olhou pra mim e afir­mou: “Eu con­cordo com tudo isso. Eu adoro his­tó­rias em qua­dri­nhos. Mas não é lite­ra­tura. Ponto. São duas expres­sões artís­ti­cas dife­ren­tes. Com voca­bu­lá­rios dife­ren­tes. Que pos­suem alguns ele­men­tos em comum, mas que não são a mesma coisa.”
Fiquei um tempo rumi­nando aquilo. Eu tei­mava em pro­cu­rar no dis­curso do pro­fes­sor algo que mos­trasse seu apreço pela lite­ra­tura enquanto forma ele­vada, colo­cando as HQs enquanto arte popu­lar menor. Foi quando me toquei de que éramos nós, mes­mos, lei­to­res, fãs e apai­xo­na­dos por qua­dri­nhos, que está­va­mos caindo nessa espar­rela. Em nosso afã de ver­mos o objeto de nosso apreço como sendo digno desse tal “valor”, aca­ba­mos dei­xando que a con­fu­são nos levasse a aspi­rar per­ten­cer a uma cate­go­ria da qual nunca fize­mos parte.

Scott McCloud lan­çou livros semi­nais para enten­der os qua­dri­nhos (Divulgação)
A ques­tão é a seguinte: em prin­cí­pio, ignora-se que as his­tó­rias em qua­dri­nhos sejam mais do que ape­nas a jun­ção de ima­gens e pala­vras — de que elas pos­suem um voca­bu­lá­rio pró­prio dotado de uma série de outros ele­men­tos. Assim, pare­cem ser com­pos­tas somente de ima­gens — cuja lei­tura é “fácil” e não pres­cinde de edu­ca­ção for­mal — e de pala­vras — que só podem ser deco­di­fi­ca­das após o indi­ví­duo pas­sar por um pro­cesso espe­cí­fico de apren­di­za­gem. Por isso, o papel das ima­gens seria o de “subs­ti­tuir” as pala­vras, tor­nando a lei­tura mais assi­mi­lá­vel. Logo, temos um tipo de sub-literatura, já que, segundo o Houaiss, o termo “lite­ra­tura” des­creve o uso esté­tico da lin­gua­gem escrita. Daí, qua­dri­nhos seriam algo para cri­an­ças e semi-analfabetos — con­ceito que o pró­prio Houaiss trata de refor­çar mais à frente, quando amplia o sen­tido do termo, adi­ci­o­nando ao seu sig­ni­fi­cado a rubrica “lite­ra­tura de massa” para desig­nar “lite­ra­tura de con­teúdo facil­mente assi­mi­lá­vel (p.ex. con­tos e nove­las sen­ti­men­tais, his­tó­rias em qua­dri­nhos, foto­no­ve­las etc.), pro­du­zida para o grande público”.

Pois bem. Desde aquele dia, há cerca de dez anos, Rogério me fez enten­der que a lite­ra­tura deve, sim, ser vista como a arte do manejo das pala­vras. Que ultra­pas­sar essa fron­teira é uma gene­ra­li­za­ção que pode aca­bar ser­vindo ape­nas para a manu­ten­ção de uma eli­ti­za­ção hoje arcaica, de um meio que já foi tido como o supremo indi­ca­dor cul­tu­ral e, virando sécu­los, viu-se cer­cado de outras for­mas de expres­são. Há de se dei­xar a lite­ra­tura no canto dela e não sub­me­ter outras for­mas moder­nas a um crivo sem sentido.

Por mais que alguns quei­ram,  NÃO é uma graphic novel (Divulgação)
Ainda assim, mesmo com o conhe­ci­mento de que o voca­bu­lá­rio grá­fico dos qua­dri­nhos trans­cende a uti­li­za­ção de letras e pala­vras (mui­tas vezes pres­cinde delas), mui­tos admi­ra­do­res e estu­di­o­sos con­ti­nuam a que­rer, no meio aca­dê­mico, o reco­nhe­ci­mento das his­tó­rias em qua­dri­nhos enquanto lite­ra­tura. Prova disso é a Jornada de Estudos Sobre Romances Gráficos, rea­li­zada pelo mesmo Instituto de Letras da UnB que aban­do­nei há alguns anos (onde estará Rogério?). O evento teve, em 2012, sua ter­ceira edi­ção. E por mais que me agrade ver as his­tó­rias em qua­dri­nhos final­mente sendo dis­cu­ti­das de forma gaba­ri­tada, fico me per­gun­tando se os lite­ra­tos não se per­gun­tam até onde podem expan­dir o con­ceito de lite­ra­tura sem que ele perca o significado.

(Parte disso, pra mim, advém do fato de que muita gente parece ter enten­dido errado quando o mes­tre Will Eisner cha­mou o que fazia de graphic novel. Qualquer gibi enca­der­nado, agora, vira graphic novel, por­que, afi­nal, é um termo muito mais res­pei­tá­vel do que “gibi”. Ninguém se deu conta de que a graphic novel é um gênero qua­dri­nís­tico, den­tro de tan­tos outros, todos com igual valor — este, den­tro de um objeto, deve ser medido por outros cri­té­rios que não a forma pura, afi­nal. Resumindo, ape­nas PAREM de dizer que Watchmen é uma graphic novel. Porque não é. Nunca foi, nunca será.)
Ao mesmo tempo, tenho cons­ci­ên­cia de que ao defen­der que os meios tenham fron­tei­ras bem deli­mi­ta­das, o dis­curso pode ecoar enges­sa­mento. Mas tenho cá pra mim que elas devem exis­tir até mesmo para serem que­bra­das, para que as diver­sas influên­cias pos­sam se mis­tu­rar, se mos­trar e fazer com que todos os meios evo­luam den­tro de si e, então, para fora. Um exem­plo é que o audi­o­vi­sual parece hoje uma grande mis­ce­lâ­nea. Mas há de se saber o que fun­ci­ona enquanto lin­gua­gem cine­ma­to­grá­fica, tele­vi­siva ou para inter­net. O sim­ples decal­que de um para outro, volta e meia resulta em falhas gro­tes­cas — vide a mai­o­ria dos lan­ça­men­tos da Globo Filmes.

Altamente inven­tiva, Gemma Bovery, de Posy Simmons, mos­tra que as HQs têm uma lin­gua­gem pró­pria (Divulgação)
(Alguém pro­va­vel­mente vai me acu­sar de que­rer que a arte, qual­quer que seja ela, con­ti­nue a ser algo supe­rior, longe das raias do popu­la­resco. E é ver­dade. Mas não vejo isso como uma pos­tura de elite — isso seria que­rer que o acesso à arte con­ti­nu­asse res­trito a deter­mi­na­dos estra­tos soci­ais, quando minha uto­pia é que, como diria Wilde, o público se tor­nasse artís­tico, em vez de a arte tornar-se popular.)
Ou seja, não é por­que foi fil­mado que deve ser um filme. E não é por­que está num livro que deve ser lite­ra­tura. Gemma Bovery, publi­cado pela Conrad em 2006, é um ótimo exem­plo. As refe­rên­cias lite­rá­rias vão bem além do título, mas as expe­ri­men­ta­ções de lin­gua­gem da autora (a talen­to­sís­sima Posy Simmonds) não fazem com que sua graphic novel — sim, neste caso, ela real­mente o é — se tor­nem lite­ra­tura. É uma HQ. Inventiva e sur­pre­en­dente em seu expe­ri­men­ta­lismo. Sem dei­xar de ser um gibi.

Tais posi­ci­o­na­men­tos cristalizaram-se ainda mais em mim quando, em mea­dos de 2004, conheci a obra máxima de Scott McCloud, aquele que deve ser o mais pop dos ana­lis­tas da forma qua­dri­nís­tica. Seu Desvendando os Quadrinhos, pra mim, aca­bou sendo mais impor­tante que o semi­nal Quadrinhos e Arte Sequencial, de Eisner. As aná­li­ses de McCloud sedi­men­tam os qua­dri­nhos como expres­são artís­tica em si e que, dados os ele­men­tos envol­vi­dos, acaba sendo um primo bem mais pró­ximo das lin­gua­gem audi­o­vi­sual do que da lite­rá­ria, guar­da­das as devi­das pro­por­ções. E que reconhecê-la como tal é impor­tante para o desen­vol­vi­mento do gênero, mesmo que tais con­cep­ções pos­sam aca­bar sendo colo­ca­das por terra no futuro — o que, como ele mesmo diz, pro­va­vel­mente irá acontecer.


Laerte: explo­rando as mui­tas pos­si­bi­li­da­des das HQs (Reprodução)
De qual­quer forma, no pre­sente momento, reco­mendo a qual­quer um que não se deixe enga­nar pela con­tra­capa da edi­ção bra­si­leira (que pra­ti­ca­mente vende o livro como um manual), muito menos pelo traço car­tu­nesco do autor — sim, é um livro sobre qua­dri­nhos em qua­dri­nhos, o que não pode­ria ser mais ade­quado. É uma aná­lise pro­funda do que é, afi­nal, uma his­tó­ria em qua­dri­nhos; sua con­cei­tu­a­li­za­ção, seus ele­men­tos e de como eles como podem ser uti­li­za­dos e per­ce­bi­dos. Além disso, é um belís­simo tra­tado sobre a impor­tân­cia da semió­tica em nossa per­cep­ção da rea­li­dade, sobre a rela­ção do homem com a ima­gem de si e do meio que o cerca.
E sigo hoje como uma defen­sora dos qua­dri­nhos enquanto arte que deve ama­du­re­cer em si mesma, cujo reco­nhe­ci­mento deve vir como o de qual­quer outro meio: men­sa­gem e uti­li­za­ção de pos­si­bi­li­da­des esté­ti­cas. E as pos­si­bi­li­da­des para tanto, den­tro das HQs, são quase infi­ni­tas — vide Alan Moore e Laerte. Um viva aos qua­dri­nhos enquanto qua­dri­nhos. Até que a pró­xima pedra me que­bre a vidraça.
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* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.”
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