Friday, November 2, 2012

Mike Deodato Jr.“O meu sonho sempre foi poder desenhar na Marvel”


Por Luís de Freitas Branco, publicado em 29 Out 2012 - 03:10

O brasileiro passou pelo Amadora BD para conversar sobre os 50 anos do Homem-Aranha e “uma história que vai sempre continuar”














Manuel Vicente

O ano de 2012 marca a celebração das bodas de ouro para a transformação de Peter Parker, que em 1962 foi picado por uma aranha radioactiva. A 23ª edição do Festival Amadora BD (que decorre até 11 de Novembro) celebra as aventuras do Homem-Aranha com uma exposição cronológica, a partir da edição 15 da revista “Amazing Fantasy”. A história, desenhada por Steve Ditko e escrita por Stan Lee, está exposta no festival dentro de uma impenetrável caixa, com os devidos avisos de “não tocar”. Mike Deodato Jr. faz de guia da exposição. O desenhador brasileiro representa a nova geração de artistas da Marvel. Para Novembro avança “um negócio sobre o qual não posso falar”, portanto é melhor descobrirmos o que o trouxe a Portugal: “O Homem-Aranha é o melhor super-herói de sempre”, garante.





O Homem-Aranha celebra este ano meio século. Qual foi a importância de Peter Parker em 1962?



O Stan Lee conseguiu inventar um herói com problemas. Na época, o Peter Parker foi marcante porque os quadrinhos de super heróis eram muito caricatos e com pouca profundidade. O Homem-Aranha não era super poderoso a tempo inteiro, além de caçar bandidos, preocupava-se com o aluguer da casa, tinha de tomar conta da tia doente, tinha problemas com a namorada e sofria bullying na escola.



Os problemas “reais” distinguiram-no.



Sim, não era comum nos quadrinhos alguém preocupar-se com isso. Ao mesmo tempo que passava por estas fases da adolescência, tinha de salvar a cidade. O mais impressionante é que hoje esta fórmula ainda funciona, qualquer pessoa se identifica com esta personagem. O Peter Parker é o verdadeiro “loser”, tem um azar miserável, tudo dá errado e mesmo assim mantém o bom humor.



Quais foram os grandes artistas por detrás do Homem-Aranha?



Para mim o Steve Ditko continua a ser o melhor, ele introduziu todas as personagens principais e as situações mais básicas. O Ditko desenhou excelentemente, sobretudo nas poses distorcidas do Homem-Aranha. O detalhe que conseguiu meter nas coreografias de luta é incrível e divertido. E há o John Romita, o pai de John Romita Jr. Fez um herói mais realista e característico e ainda criou a Mary Jane [segunda namorada de Peter Parker]. Não consigo falar de outro nome que me tenha marcado tanto como estes. Para John Romita Jr. é impossível superar o pai.



Muitos defendem que o trabalho de Todd McFarlane nos anos 80 também foi pioneiro.



O McFarlane trouxe elementos bons. Os desenhos detalhados e muito estilizados do McFarlane marcaram um período do Homem-Aranha, eu ainda uso aquela teia que parece um macarrão.



Mesmo após 50 anos as personagens e problemas são os mesmos. Como é que fazem para não deixar a escrita e o desenho esmorecer?



Tenho de perceber como funciona o personagem e procurar colocá-lo em situações diferentes. Mas sempre dentro do meu ponto de vista. Mesmo que esteja a desenhar uma situação já muito batida, tenho de manter o meu processo de estilo e a minha contribuição. Quanto à parte escrita, uma boa história é sempre uma boa história, existem sempre formas diferentes de narração. O mais importante é ser fiel às características da personagem.



Quando começou a carreira no Brasil, o Homem-Aranha já era uma referência?



Eu acompanhei muito o Homem-Aranha, mas apenas até o John Romita. Depois voltei a ler, mas por necessidade. Como fã deixei mesmo de ler por volta de 1974.



Nunca houve dúvidas que a sua carreira seria como desenhador?



Nunca. Mas na altura eu desconhecia que existiam imensas variáveis de desenho e que podia facilmente ter acabado a fazer outra coisa. Não sabia como, quando ou onde, mas sempre tive a certeza que a minha ocupação era o desenho.



Porquê mudar o nome de Deodato Taumaturgo Borges Filho para Mike Deodato Jr.?



Os meus agentes acharam que os americanos podiam ter preconceito com um nome latino. Havia antecedentes com uns espanhóis que se atrasavam no trabalho e fui aconselhado a mudar.



O nordeste do Brasil é bom terreno para começar uma carreira destas?



Não, nem por isso. Apesar de no nordeste haver uma grande riqueza cultural, sobretudo na arte e música. Mas o meu caso foi muito especial, o meu pai foi quem criou a primeira revista de quadrinhos do nordeste em 1963. A revista chamava-se “Flama”. Fui incentivado desde muito pequeno a desenhar.



O sonho já era chegar à Marvel?



Cresci a ler super-heróis, o meu sonho sempre foi poder desenhar na Marvel. Mas por vários momentos podia ter acabado a fazer outra coisa.



Como por exemplo?



Em 1986 fui para Angoulême [maior festival de banda desenhada do mundo] e recebi um convite para estudar arte em França. Se tivesse aceitado provavelmente agora fazia quadrinhos para o mercado europeu. O Maurício de Sousa [criador de “Mônica”] que estava em Angoulême é que gostou do meu trabalho e me convenceu a voltar para o Brasil. Acabei por não trabalhar com ele, mas foi uma decisão fulcral. Outro momento importante foi quando a DC Comics me fez uma proposta para desenhar “Fables” e a Marvel para fazer “Witches”. Se tivesse feito “Fables”, hoje estava provavelmente a trabalhar para a Vertigo [editora subsidiária da DC Comics]. Mas não me arrependo de nenhuma das minhas decisões.



Em 1994 foi encarregue de desenhar a “Mulher-Maravilha” para a DC. Sentiu grande diferença entre trabalhar na DC e trabalhar na Marvel?



Na época em que trabalhei para a DC ainda não falava inglês e praticamente não tive contacto directo com a editora. Hoje na Marvel, todo o meu contacto é directo. Quando a Marvel me começou a oferecer contractos de trabalho, deixei imediatamente de procurar outras ofertas.



Mas deve ser um trabalho de exigência máxima.



Sim, um pouco. No final dos anos 90, tive um período que a minha carreira desabou, estava a fazer quatro revistas por mês e não me aguentava. Depois desse momento, decidi trabalhar menos, aumentar a qualidade e fazer apenas o que me agradasse mais. Hoje tomo todas as decisões, já recebi ofertas maiores pela DC mas não aceitei.



Como funciona a sua abordagem ao desenho?



A parte mais divertida de desenhar é estar em constante aprendizagem e quebrar os códigos dos outros. Mas quando descubro artistas tão bons como Eduardo Risso [criador de “100 Balas”], tenho de desistir de assimilar tudo. Não há nada mais estimulante que ver um desenhador inovador, dá-me forças para querer mudar o meu desenho. Nunca vou saber tudo, mas isso é excelente. Apenas aos quarenta anos é que percebi que a história é mais importante que o desenho e que todas as pinceladas são fundamentais.



Se tivesse total liberdade na Marvel gostava de pegar em qual personagem?



Agora estou obcecado com Ka-Zar. Adorava desenhar a terra perdida, os dinossauros e os tigres dentes de sabre. Fiz uma proposta para uma revista anual, mas acho que não vai dar em nada.



E o Homem-Aranha?



O Homem-Aranha vai sempre continuar, seja comigo ou com outra pessoa.







Fonte:



http://www.ionline.pt/boa-vida/mike-deodato-jr-meu-sonho-sempre-foi-poder-desenhar-na-marvel

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