Sunday, October 21, 2012


Paulo Back é um dos roteiristas responsáveis por escrever histórias para a Turma da Mônica



Autor Pedro Santos


Há 17 anos, Paulo roteiriza e desenha as histórias da turminha mais famosa do Brasil, sob o comando de Maurício de SousaJá havia dois anos que Paulo Back trabalhava em um escritório de arquitetura na Capital. Nas horas vagas, ele rabiscava desenhos em papel sulfite para alimentar um sonho de infância: ganhar a vida desenhando para a Disney ou para a Turma da Mônica.




Quando um amigo começou a trabalhar na empresa de Maurício de Sousa, Paulo viu a oportunidade de mostrar para o criador da Mônica e do Cebolinha os rascunhos que estavam guardados.




“O Maurício olhou meio assim e disse que se eu quisesse desenhar ainda ia apanhar muito para acertar os traços. Mas falou que eu poderia fazer o roteiro das historinhas”, lembra.




No começo, a cada três histórias que Paulo escrevia, o chefe aprovava uma. Logo, Maurício de Sousa começou a aprovar todas e hoje, dezessete anos depois, Paulo escreve de 160 a 180 páginas por mês.



“No começo era complicado porque eu nunca tinha escrito histórias para crianças. É sempre uma batalha, ainda hoje é muito difícil. Quem trabalha na área criativa não pode desligar nunca”, conta.




Para não desligar, Paulo trabalha de manhã, de tarde e de noite usando apenas lápis, papel, caneta nanquim e idéias.



“Uma vez me disseram que criar é como um enorme poço em que quanto mais água nós tiramos mais água aparece. Mas se parar ele seca.”



A fonte das idéias para as historinhas vem de muitos lugares. Paulo diz que elas surgem das memórias da infância, de inspirações em filmes, desenhos e quadrinhos ou da vida cotidiana no apartamento onde mora com a esposa e dez gatos.




“Ele deve tirar as idéias das historinhas nos gatos que ele tem”, conta o porteiro do prédio de Paulo, bem no Centro de Florianópolis. Com tanta paixão por gatos, não é difícil imaginar que o personagem preferido do roteirista seja o gato Mingau, da Magali. Mas na verdade, o personagem favorito do roteirista é aquele sobre o qual ele está escrevendo.




“Muitas vezes eu sou só um instrumento entre o personagem e o papel”, destaca. Essa relação com o mundo imaginário criado por Maurício de Sousa já rendeu boas histórias.



Ao receber por e-mail uma dessas correntes de PowerPoint que contava uma história de amizade entre o Cebolinha e o Cascão, Paulo Back finalmente sentiu que seu trabalho estava recompensado. Pouca gente sabe que essa que é uma das historinhas mais reproduzidas na internet é dele. Mas ele sabe e isso lhe basta.



Da cabeça de Paulo Back também surgiu a história da irmã de Chico Bento. Em 1990, uma edição dos quadrinhos narrou o nascimento da irmã de Chico Bento, que morreu quando bebê e virou estrela. Quinze anos depois, Paulo teve a ideia de trazer a personagem de volta em “O presente de uma estrelinha”, que virou capa e também ficou famosa. Nela, a irmã de Chico Bento volta dos céus para lhe dar a esperança. de presente de aniversário: Os olhos marejados de Paulo ao relembrar dessa história não enganam: “Eu trabalho como adulto e penso como criança.” Eis aí um homem que ama o que faz.



Divulgação/MSP

A Mônica apareceu pela primeira vez em uma tira de jornal em 1963O processo artesanal das HQs



Tudo começa na cabeça do roteirista, que produz um rascunho da história, já em quadrinhos e com as falas nos balões. Depois de aprovada pelo próprio Maurício de Sousa, que lê uma média de mil páginas de quadrinhos todo mês, os desenhistas do estúdio refazem tudo a lápis, ajustando as perspectivas e proporções dos desenhos.




Em seguida, a história vai para a arte final, onde é trabalhada em caneta nanquim. Aqui, uma curiosidade fica por conta do cabelo de Cascão, que é feito com impressão digital em caneta nanquim. O arte-finalista faz um montinho de tinta e, com o dedo mesmo, cria o inconfundível cabelo do personagem.



É a vez dos letristas. Ao contrário do que muitos podem pensar, tudo o que é escrito nos gibis da Turma da Mônica é feito à mão. A equipe de Maurício de Sousa já tentou digitalizar as letras, mas não conseguiram o resultado esperado e optaram por manter tudo manuscrito. Depois vem o setor de cores. Até hoje, tudo é pintado à lápis de cor. Só depois de passar pelas cores é que o gibi vai para a gráfica, onde é digitalizado. Em poucos dias, chegam às bancas de todo o país.



***



Vitrine de trabalho



O mercado de quadrinhos no Brasil ainda é um espectro do que se observa na Europa e nos Estados Unidos. Mas o setor pouco a pouco se desenvolve no país. E aqui, talentos não faltam. Algumas das revelações da HQ brasileira integra as edições do MSP 50, uma série de livros produzidos para homenagear os cinqüenta anos de carreira de Maurício de Sousa.



Para o projeto, organizado por Sidney Gusman, foram convidados quadrinistas de diversos lugares e com estilos diferentes para escrever e desenhar histórias usando os personagens da Turma da Mônica. A série, que está na terceira edição, é um sucesso de crítica e de público principalmente porque os autores tiveram total liberdade para propor histórias em seu próprio estilo de trabalho.



Um desses quadrinistas é o catarinense Ricardo Manhães. O quadrinista que já tem quinze livros publicados no Brasil e na Europa e atualmente produz um livro de paródias sobre a política francesa.



“Um projeto desses é uma vitrine do nosso trabalho, uma oportunidade para que as pessoas conheçam o que geralmente é um trabalho bem autoral e mais fechado”, diz Manhães, que tem um estilo de traços belgas, influência herdada dos tempos em que morou na França.



Manhães destaca que o cenário nacional apresenta muitas novidades e trabalhos de alto nível sendo produzidos. “Estamos chegando em um nível do que se faz na Europa. É muito legal, mas não pode parar.”



O próprio Maurício de Sousa avalia que o estágio atual do Brasil começa a estimular uma competição saudável “Há uma explosão de profissionais criativos de alto nível. É preciso arte, técnica, perseverança e um tantinho de sorte. Mercado há”, conta o criador da turma mais famosa dos quadrinhos no Brasil.







Divulgação/MSP

A evolução dos traços da personagem

O dono da turma





Divulgação

O chefe. Maurício de Sousa administra o setor artístico e administrativo da empresa que criou



O dono da Turma da Mônica é um homem ocupado. Às vésperas de completar 76 anos, Maurício de Sousa não para de trabalhar. Com o diferencial de administrar a área artística e empresarial da empresa, Maurício administra todas as linhas de produtos da Turma da Mônica, que vai desde jogos e brinquedos até espetáculos de teatro e longas-metragens.







“Ele é um empreendedor que sempre visualiza muitos passos à frente”, conta Sidney Gusman, editor do site Universo HQ e responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções.



De olho nas novas possibilidades tecnológicas, a empresa está produzindo quadrinhos exclusivos para tablets. “Com as novas plataformas, as histórias em quadrinhos tem possibilidades que antes eu não imaginava”, conta Maurício de Sousa em uma breve entrevista por e-mail.



Outro nicho que a empresa está começando a explorar é o da animação em 3D. Quando esteve em Florianópolis, na HQCon 2011, Sidney Gusman exibiu alguns curtas-metragens animados em 3D com a turma do Penadinho. São histórias visuais que se desenvolvem quase sem diálogos, o que permite certa universalidade que interessa ao mercado internacional, o que já vem acontecendo no ramo editorial. Edições da Turma da Mônica foram traduzidas para o inglês e o espanhol, com suas particularidades lingüísticas. Na versão em inglês, o Cebolinha troca o “R” pelo “W”.



Sem contar no sucesso editorial na Turma da Mônica Jovem. Maurício de Sousa percebeu que nos Estados Unidos os quadrinhos em mangá (linguagem tradicionalmente usada em quadrinhos japoneses) estavam crescendo e resolveu trazer a ideia para o Brasil adaptando a turma em uma versão adolescente. Apenas as quatro primeiras edições da nova empreitada somaram mais de um milhão e meio de exemplares vendidos.




Fonte;
http://www.ndonline.com.br/florianopolis/plural/19249-trabalho-de-adulto-imaginacao-de-crianca.html

No comments: