Thursday, October 18, 2012

Entrevista com o quadrinista Pedro Franz

Construindo Promessas



By Andréia Regeni





Pedro Franz, como ele mesmo diz, sempre desenhou. Quadrinista, ilustrador e designer gráfico residente em Florianópolis, cidade que o inspirou na criação do projeto Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo. No ano passado a cidade lutava contra o aumento da tarifa de ônibus através de manifestações como a da galera do Passe Livre. Mas a cidade em que vive foi apenas o marco zero para Franz, que viu, ao mesmo tempo, outros movimentos como o Occupy ecoarem em outros cantos do mundo como na Grécia, Espanha e Estados Unidos.




Não só pela temática que Promessas soa abrangente. Dividida em três partes -- Limbo, Underground e Potlatch -– Promessas apresenta diferentes personagens, como o padre Julio Siqueira, o grupo Jolly Roger e outros bastante verossímeis, inseridos num cenário apocalíptico porém contemporâneo. Os três volumes da história, disponíveis para compra ou download aqui, são construídos de maneiras singulares: narrativas, ilustrações e, se assim permitir o leitor, ordens de leitura diferentes.



O resultado de toda essa experimentação aponta, talvez, não para o fim, mas para o início de uma nova forma de exploração tendo os quadrinhos como ponto de partida. O Pedro Franz conversou com a gente sobre as dificuldades e as facilidades de ser quadrinista hoje, as diferentes ferramentas e referências que usou para produzir Promessas, e os estereótipos do universo das HQs:







Como você resolveu que ia publicar o projeto na internet e por quê? Você foi colocando a HQ no seu blog enquanto ela estava em andamento, certo? Como foi isso? Você teve alguma dificuldade?

Sempre pensei em Promessas como uma HQ impressa. E ela sempre foi desde o começo pensada em capítulos, como uma série. Então, quando comecei o projeto, algumas pessoas (entre elas um editor pra quem apresentei algumas ideias) me sugeriram começar publicando o trabalho na internet, e eu, claro, concordei com eles. Como tinha em mente que não se tratava de uma webcomics, ou seja, não era uma HQ pensada para ser lida num browser, tentei entender o que significava publicar na internet algo que havia sido pensado para ser impresso. Daí surgiu o copyleft, que vale também para a edição impressa (qualquer um pode xerocar a revista se quiser e distribuir por aí, por exemplo). E daí veio a ideia de manter um blog, tentar escrever sobre o processo de criação e sobre como eu enxergava os quadrinhos, e de manter um contato com os leitores.



Agora, com tudo pronto e disponível na rede, é dessa relação de haver publicado primeiro na internet que surge o papel do leitor nesse último volume. Todas as páginas originais de Potlatch, o terceiro volume, estão sendo leiloadas pelo blog para financiar sua publicação impressa. A HQ já existe, mas vai depender dos leitores para que exista também no papel.







E você interagiu com o público enquanto o trabalho estava em andamento, por exemplo, pedindo as fotos 3x4 dos leitores que tivessem a fim de participar... Como foi essa interação e de onde surgiu essa ideia?

Sim, foi em primeiro lugar uma forma de encontrar um projeto gráfico que fosse narrativo, que trouxesse alguma informação relacionada com a história que ali era contada. O número de fotos utilizadas aumentava de forma progressiva com os capítulos. Então, muitas vezes não chegavam 3x4 suficientes e ficavam ali espaços da ausência dessas fotos.



Foi também uma forma de pedir que o público me desse algo “em troca” da HQ que estava sendo distribuída de graça na internet. Ao pedir aos leitores que me enviassem fotos 3x4, isso significava tirar uma foto, colocá-la num envelope, me enviar por correio (e pagar por esse envio), além de ceder o uso da imagem. No começo, as primeiras fotos que recebi eram de conhecidos, amigos, familiares, que me entregaram as fotos pessoalmente sem saber muito bem o que eu faria com elas. Depois, começaram a chegar fotos de pessoas que eu não conhecia na caixa de correio. E foi também isso: uma forma de estreitar uma relação com o leitor que enviava as fotos, ou melhor, de mostrar isso ao leitor, já que acredito que o leitor é uma espécie de co-autor de um trabalho, acho que as fotos funcionavam nesse sentido, de mostrar a ele que ele é também é parte daquilo, que uma HQ não existe sem leitores.







O título da sua HQ me chamou a atenção porque não é muito a cara de nome de HQ, é meio poético, meio nome de filme B. Conta a história desse nome.

Queria um título que fosse uma ideia, que contasse algo da história e que funcionasse quase como um spoiler. Mas teve um pouco a ver com responder a isso que você fala de “cara de HQ”. Título de uma HQ é quase sempre curto, o nome do personagem ou uma palavra (ou expressão) que tenha a ver com a história. E se faz um logo com isso, que aparece na parte superior da capa, com letras grossas. Quer dizer, não são todas HQs assim, é claro. Estou generalizando. Mas existe essa “cara de HQ”, essa estética dos quadrinhos, mesmo em trabalhos menos comerciais. Balões quase sempre com a mesma forma, a mesma fonte dentro. Desenhos em preto e branco com contraste apesar de todas as possibilidades de reprodução gráfica que temos hoje em dia. Se algo não parece quadrinhos alguém diz que não é quadrinhos. Por exemplo, é bem comum ver gente falando: “Paulo Coelho não é literatura”, “Crepúsculo não é literatura”, ok, vá lá. Mas você provavelmente não vai ouvir alguém dizendo, por exemplo: “O Capitão América não é história em quadrinhos” ou “Turma da Mônica Jovem não é história em quadrinhos”. Então tinha a ver com responder a isso, queria que o título refletisse isso.







Seu trabalho narra fatos contemporâneos, sejam eles novos, sejam eles verdades lá de trás que continuam caminhando com a sociedade atual, e você até recapitula um pouco isso na história. Você pode falar um pouco disso, quais os temas/fatos que você escolheu para sustentar sua história?

Quando comecei Promessas, tinha acabado de voltar a viver em Florianópolis e queria escrever sobre a cidade. Floripa é uma cidade estranha, uma cidade turística que carrega o nome de um assassino, e muita gente nem sabe ou não liga para isso. E vinha acontecendo aqui uma série de manifestações contra o aumento da tarifa do ônibus e a favor do passe livre. E isso tinha muito a ver com tudo o que estava rolando por aí, com Atenas, com Seattle, bem, em tantos lugares, né? Então queria falar disso. Desses gestos de resistência que acontecem e dessa forma ambígua que taxamos alguém de herói ou de vilão. Depois, em 2011, foi uma espécie de ápice de tudo que vinha acontecendo, com a Primavera Árabe, com o movimento Occupy, com os Indignados na Espanha e com o que aconteceu em Londres, tudo junto, meio ao mesmo tempo.



Promessas é um trabalho cheio de referências, você cita desde frases bíblicas até Clifford Geertz, como foi esse processo de pesquisa e como você conseguiu colocar tudo isso dentro do projeto?

Isso foi acontecendo meio sem eu perceber, acho. Foi acontecendo aos poucos. Então, enquanto trabalhava no capítulo quatro de Promessas, no qual mostrava alguns momentos de resistência da cidade (o que já eram citações, referências), apareceu o Prates (um apresentador ultraconservador do noticiário, desses exaltados que falam rápido e alto) na TV, na hora do almoço, enaltecendo a época da ditadura militar. E aquilo tinha muito a ver com o que eu estava escrevendo, e inseri todo seu discurso na história. E mesmo que já houvesse esse tipo de referências com outros textos, a partir daí me permiti trabalhar de uma maneira mais ampla com essas relações de ficção X realidade e de me apropriar de algo e trazê-lo para a história. Isso chegou meio que a um limite com o capítulo quase todo composto pelo texto do Geertz.







Você trabalha com várias linguagens estéticas e textuais, ora aparecem textos no formato de roteiro, ora as citações, além do formato da HQ. Como você chegou a esse formato? Você tem esse costume de trabalhar com essa linguagem mais híbrida?

Na verdade, foi algo que aconteceu em Promessas, acho, que tinha muito a ver com esse projeto, com a estrutura que foi se montando em torno dele. Não foi algo exatamente planejado desde o começo, mas sim, algo que aconteceu, ou melhor, que foi acontecendo. Fui chegando a isso durante o processo. Como é minha primeira HQ, ou pelo menos a primeira HQ longa, acredito que algo disso estará presente nos próximos trabalhos, mas não sei de que forma. Mas acredito que sim. Acho que tem um pouco a ver com a ideia de experimentalismo, que nunca enxergo como um resultado, mas sim como uma atitude com o trabalho.







Na versão online (que foi a que eu li), você avisa o leitor sobre a falta de grampos e que por isso as lâminas estão soltas, oferecendo a liberdade ao leitor de organizar a história da forma que preferir. Como você a organizou na versão impressa? Ela segue a mesma ordem?

No segundo volume, as páginas estão soltas dentro de um envelope fechado. Ela segue a mesma ordem, mas proponho ao leitor que ele reorganize as páginas e encontre novas leituras. Todo o segundo volume tem essa relação de ordem e caos que está presente na história também. O próprio envelope vem fechado, colado. Então você precisa escolher: rasgá-lo, cortá-lo, tentar abrir com cuidado...



Me fala do processo de criação, o que você usou (ferramentas etc) pra fazer a HQ?

Cada volume foi feito de uma maneira bem diferente, com materiais diferentes. O primeiro, Limbo, de uma forma mais tradicional: escrevia o roteiro, fazia esboços, desenhava a página a lápis e depois passava nanquim com pincel. No segundo, todo o texto que aparecia foi escrito com uma máquina de escrever antiga e depois escaneado. Os desenhos eram feitos em papéis bem finos (55g) e antigos, que tinham manchas e marcas do tempo. Usei apenas canetas finas, e sobre isso uma lâmina de acetato desenhado com lápis dermatográfico e estilete, que muitas vezes riscava a página e criava umas texturas estranhas. Não havia exatamente um roteiro, nem esboços prévios. Apenas algumas anotações, algumas frases que mantinham a narrativa. No último volume, Potlatch, praticamente abandonei os quadros que separam a cena e passei a explorar a cor, trabalhando com pastel (seco e oleoso), aquarelas e a testar outros papéis. Esse tipo de escolha foi uma forma de buscar possibilidades para o desenho que se relacionassem ao que estava sendo dito na história. Como não estava familiarizado, muitas vezes, com esses materiais, precisei me adaptar a eles e isso alterou minha maneira de desenhar e, também, a forma que conto uma história.



Conta pra gente quando e como você se interessou pela cena da ilustração e das HQs.

Como quase todo desenhista, sempre desenhei. Alguém já disse por aí: o desenhista não é alguém que começou a desenhar, é simplesmente alguém que não parou de desenhar. Então, acho que é bem por aí. E meio sempre li histórias em quadrinhos. Em algum momento as duas coisas se juntaram.







Hoje as HQs estão em evidência, tanto nas grandes livrarias como em eventos e na internet, o que você acha disso?

Acho que é uma baita época, cheia de coisas boas acontecendo, cheia de novos autores interessante surgindo. Todavia, é relativamente complicado viver de quadrinhos no Brasil e muita gente acaba migrando para outras áreas ou trabalhando para o exterior. E é difícil encontrar as condições certas para, por exemplo, passar dois ou três anos trabalhando numa história em quadrinhos (e fazer quadrinhos leva tempo, exige tempo). Para os independentes, ainda é complicado a distribuição (e a internet ajudou um monte nisso), e todo quadrinista brasileiro acaba sendo um pouco camelô, viajando com seus quadrinhos, carregando caixa, montando banca em evento... O que é ótimo, de verdade, mas não sei até quando isso dura, até quando vamos continuar querendo fazer isso.



Precisa haver mais incentivo, como há em outras áreas artísticas. Sucesso comercial não deveria a única garantia de existência de um autor. E precisam surgir críticos e teóricos dos quadrinhos menos nostálgicos e mais interessados. Assim como os autores precisamos aumentar o nível da discussão em torno aos quadrinhos, precisamos aprender a falar e a pensar as histórias em quadrinhos. Acho que passamos por uma época de amadurecimento. É, com certeza, um momento melhor do que cinco atrás. E espero que daqui cinco anos possamos dizer o mesmo, que seja um momento muito melhor do que agora.







By Andréia Regeni 4 months ago Like · Comment · Share



By Andréia Regeni





Pedro Franz, como ele mesmo diz, sempre desenhou. Quadrinista, ilustrador e designer gráfico residente em Florianópolis, cidade que o inspirou na criação do projeto Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo. No ano passado a cidade lutava contra o aumento da tarifa de ônibus através de manifestações como a da galera do Passe Livre. Mas a cidade em que vive foi apenas o marco zero para Franz, que viu, ao mesmo tempo, outros movimentos como o Occupy ecoarem em outros cantos do mundo como na Grécia, Espanha e Estados Unidos.



Não só pela temática que Promessas soa abrangente. Dividida em três partes -- Limbo, Underground e Potlatch -– Promessas apresenta diferentes personagens, como o padre Julio Siqueira, o grupo Jolly Roger e outros bastante verossímeis, inseridos num cenário apocalíptico porém contemporâneo. Os três volumes da história, disponíveis para compra ou download aqui, são construídos de maneiras singulares: narrativas, ilustrações e, se assim permitir o leitor, ordens de leitura diferentes.



O resultado de toda essa experimentação aponta, talvez, não para o fim, mas para o início de uma nova forma de exploração tendo os quadrinhos como ponto de partida. O Pedro Franz conversou com a gente sobre as dificuldades e as facilidades de ser quadrinista hoje, as diferentes ferramentas e referências que usou para produzir Promessas, e os estereótipos do universo das HQs:







Como você resolveu que ia publicar o projeto na internet e por quê? Você foi colocando a HQ no seu blog enquanto ela estava em andamento, certo? Como foi isso? Você teve alguma dificuldade?

Sempre pensei em Promessas como uma HQ impressa. E ela sempre foi desde o começo pensada em capítulos, como uma série. Então, quando comecei o projeto, algumas pessoas (entre elas um editor pra quem apresentei algumas ideias) me sugeriram começar publicando o trabalho na internet, e eu, claro, concordei com eles. Como tinha em mente que não se tratava de uma webcomics, ou seja, não era uma HQ pensada para ser lida num browser, tentei entender o que significava publicar na internet algo que havia sido pensado para ser impresso. Daí surgiu o copyleft, que vale também para a edição impressa (qualquer um pode xerocar a revista se quiser e distribuir por aí, por exemplo). E daí veio a ideia de manter um blog, tentar escrever sobre o processo de criação e sobre como eu enxergava os quadrinhos, e de manter um contato com os leitores.



Agora, com tudo pronto e disponível na rede, é dessa relação de haver publicado primeiro na internet que surge o papel do leitor nesse último volume. Todas as páginas originais de Potlatch, o terceiro volume, estão sendo leiloadas pelo blog para financiar sua publicação impressa. A HQ já existe, mas vai depender dos leitores para que exista também no papel.







E você interagiu com o público enquanto o trabalho estava em andamento, por exemplo, pedindo as fotos 3x4 dos leitores que tivessem a fim de participar... Como foi essa interação e de onde surgiu essa ideia?

Sim, foi em primeiro lugar uma forma de encontrar um projeto gráfico que fosse narrativo, que trouxesse alguma informação relacionada com a história que ali era contada. O número de fotos utilizadas aumentava de forma progressiva com os capítulos. Então, muitas vezes não chegavam 3x4 suficientes e ficavam ali espaços da ausência dessas fotos.



Foi também uma forma de pedir que o público me desse algo “em troca” da HQ que estava sendo distribuída de graça na internet. Ao pedir aos leitores que me enviassem fotos 3x4, isso significava tirar uma foto, colocá-la num envelope, me enviar por correio (e pagar por esse envio), além de ceder o uso da imagem. No começo, as primeiras fotos que recebi eram de conhecidos, amigos, familiares, que me entregaram as fotos pessoalmente sem saber muito bem o que eu faria com elas. Depois, começaram a chegar fotos de pessoas que eu não conhecia na caixa de correio. E foi também isso: uma forma de estreitar uma relação com o leitor que enviava as fotos, ou melhor, de mostrar isso ao leitor, já que acredito que o leitor é uma espécie de co-autor de um trabalho, acho que as fotos funcionavam nesse sentido, de mostrar a ele que ele é também é parte daquilo, que uma HQ não existe sem leitores.







O título da sua HQ me chamou a atenção porque não é muito a cara de nome de HQ, é meio poético, meio nome de filme B. Conta a história desse nome.

Queria um título que fosse uma ideia, que contasse algo da história e que funcionasse quase como um spoiler. Mas teve um pouco a ver com responder a isso que você fala de “cara de HQ”. Título de uma HQ é quase sempre curto, o nome do personagem ou uma palavra (ou expressão) que tenha a ver com a história. E se faz um logo com isso, que aparece na parte superior da capa, com letras grossas. Quer dizer, não são todas HQs assim, é claro. Estou generalizando. Mas existe essa “cara de HQ”, essa estética dos quadrinhos, mesmo em trabalhos menos comerciais. Balões quase sempre com a mesma forma, a mesma fonte dentro. Desenhos em preto e branco com contraste apesar de todas as possibilidades de reprodução gráfica que temos hoje em dia. Se algo não parece quadrinhos alguém diz que não é quadrinhos. Por exemplo, é bem comum ver gente falando: “Paulo Coelho não é literatura”, “Crepúsculo não é literatura”, ok, vá lá. Mas você provavelmente não vai ouvir alguém dizendo, por exemplo: “O Capitão América não é história em quadrinhos” ou “Turma da Mônica Jovem não é história em quadrinhos”. Então tinha a ver com responder a isso, queria que o título refletisse isso.







Seu trabalho narra fatos contemporâneos, sejam eles novos, sejam eles verdades lá de trás que continuam caminhando com a sociedade atual, e você até recapitula um pouco isso na história. Você pode falar um pouco disso, quais os temas/fatos que você escolheu para sustentar sua história?

Quando comecei Promessas, tinha acabado de voltar a viver em Florianópolis e queria escrever sobre a cidade. Floripa é uma cidade estranha, uma cidade turística que carrega o nome de um assassino, e muita gente nem sabe ou não liga para isso. E vinha acontecendo aqui uma série de manifestações contra o aumento da tarifa do ônibus e a favor do passe livre. E isso tinha muito a ver com tudo o que estava rolando por aí, com Atenas, com Seattle, bem, em tantos lugares, né? Então queria falar disso. Desses gestos de resistência que acontecem e dessa forma ambígua que taxamos alguém de herói ou de vilão. Depois, em 2011, foi uma espécie de ápice de tudo que vinha acontecendo, com a Primavera Árabe, com o movimento Occupy, com os Indignados na Espanha e com o que aconteceu em Londres, tudo junto, meio ao mesmo tempo.



Promessas é um trabalho cheio de referências, você cita desde frases bíblicas até Clifford Geertz, como foi esse processo de pesquisa e como você conseguiu colocar tudo isso dentro do projeto?

Isso foi acontecendo meio sem eu perceber, acho. Foi acontecendo aos poucos. Então, enquanto trabalhava no capítulo quatro de Promessas, no qual mostrava alguns momentos de resistência da cidade (o que já eram citações, referências), apareceu o Prates (um apresentador ultraconservador do noticiário, desses exaltados que falam rápido e alto) na TV, na hora do almoço, enaltecendo a época da ditadura militar. E aquilo tinha muito a ver com o que eu estava escrevendo, e inseri todo seu discurso na história. E mesmo que já houvesse esse tipo de referências com outros textos, a partir daí me permiti trabalhar de uma maneira mais ampla com essas relações de ficção X realidade e de me apropriar de algo e trazê-lo para a história. Isso chegou meio que a um limite com o capítulo quase todo composto pelo texto do Geertz.







Você trabalha com várias linguagens estéticas e textuais, ora aparecem textos no formato de roteiro, ora as citações, além do formato da HQ. Como você chegou a esse formato? Você tem esse costume de trabalhar com essa linguagem mais híbrida?

Na verdade, foi algo que aconteceu em Promessas, acho, que tinha muito a ver com esse projeto, com a estrutura que foi se montando em torno dele. Não foi algo exatamente planejado desde o começo, mas sim, algo que aconteceu, ou melhor, que foi acontecendo. Fui chegando a isso durante o processo. Como é minha primeira HQ, ou pelo menos a primeira HQ longa, acredito que algo disso estará presente nos próximos trabalhos, mas não sei de que forma. Mas acredito que sim. Acho que tem um pouco a ver com a ideia de experimentalismo, que nunca enxergo como um resultado, mas sim como uma atitude com o trabalho.







Na versão online (que foi a que eu li), você avisa o leitor sobre a falta de grampos e que por isso as lâminas estão soltas, oferecendo a liberdade ao leitor de organizar a história da forma que preferir. Como você a organizou na versão impressa? Ela segue a mesma ordem?

No segundo volume, as páginas estão soltas dentro de um envelope fechado. Ela segue a mesma ordem, mas proponho ao leitor que ele reorganize as páginas e encontre novas leituras. Todo o segundo volume tem essa relação de ordem e caos que está presente na história também. O próprio envelope vem fechado, colado. Então você precisa escolher: rasgá-lo, cortá-lo, tentar abrir com cuidado...



Me fala do processo de criação, o que você usou (ferramentas etc) pra fazer a HQ?

Cada volume foi feito de uma maneira bem diferente, com materiais diferentes. O primeiro, Limbo, de uma forma mais tradicional: escrevia o roteiro, fazia esboços, desenhava a página a lápis e depois passava nanquim com pincel. No segundo, todo o texto que aparecia foi escrito com uma máquina de escrever antiga e depois escaneado. Os desenhos eram feitos em papéis bem finos (55g) e antigos, que tinham manchas e marcas do tempo. Usei apenas canetas finas, e sobre isso uma lâmina de acetato desenhado com lápis dermatográfico e estilete, que muitas vezes riscava a página e criava umas texturas estranhas. Não havia exatamente um roteiro, nem esboços prévios. Apenas algumas anotações, algumas frases que mantinham a narrativa. No último volume, Potlatch, praticamente abandonei os quadros que separam a cena e passei a explorar a cor, trabalhando com pastel (seco e oleoso), aquarelas e a testar outros papéis. Esse tipo de escolha foi uma forma de buscar possibilidades para o desenho que se relacionassem ao que estava sendo dito na história. Como não estava familiarizado, muitas vezes, com esses materiais, precisei me adaptar a eles e isso alterou minha maneira de desenhar e, também, a forma que conto uma história.



Conta pra gente quando e como você se interessou pela cena da ilustração e das HQs.

Como quase todo desenhista, sempre desenhei. Alguém já disse por aí: o desenhista não é alguém que começou a desenhar, é simplesmente alguém que não parou de desenhar. Então, acho que é bem por aí. E meio sempre li histórias em quadrinhos. Em algum momento as duas coisas se juntaram.







Hoje as HQs estão em evidência, tanto nas grandes livrarias como em eventos e na internet, o que você acha disso?

Acho que é uma baita época, cheia de coisas boas acontecendo, cheia de novos autores interessante surgindo. Todavia, é relativamente complicado viver de quadrinhos no Brasil e muita gente acaba migrando para outras áreas ou trabalhando para o exterior. E é difícil encontrar as condições certas para, por exemplo, passar dois ou três anos trabalhando numa história em quadrinhos (e fazer quadrinhos leva tempo, exige tempo). Para os independentes, ainda é complicado a distribuição (e a internet ajudou um monte nisso), e todo quadrinista brasileiro acaba sendo um pouco camelô, viajando com seus quadrinhos, carregando caixa, montando banca em evento... O que é ótimo, de verdade, mas não sei até quando isso dura, até quando vamos continuar querendo fazer isso.



Precisa haver mais incentivo, como há em outras áreas artísticas. Sucesso comercial não deveria a única garantia de existência de um autor. E precisam surgir críticos e teóricos dos quadrinhos menos nostálgicos e mais interessados. Assim como os autores precisamos aumentar o nível da discussão em torno aos quadrinhos, precisamos aprender a falar e a pensar as histórias em quadrinhos. Acho que passamos por uma época de amadurecimento. É, com certeza, um momento melhor do que cinco atrás. E espero que daqui cinco anos possamos dizer o mesmo, que seja um momento muito melhor do que agora.







By Andréia Regeni 4 months ago   Fonte: http://www.vice.com/pt_br/read/construindo-promessas

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