Tuesday, July 17, 2012

Homem-Aranha Pop Star

Há quem diga que o Homem-Aranha é o mais humano dos super-heróis. Peter Parker é falho, inseguro e muitas vezes fracassa. Ainda assim ele tem superpoderes, belas mulheres e é um cientista genial, criando sozinho o sofisticado lançador de teias. Ainda humano? Talvez fosse mais sensato dizer anseio humano, já que quase todo mundo, principalmente os leitores de quadrinhos de super-heróis dos anos 1960, queria ser reconhecido e amado a despeito do que é  ou não consegue ser. 

Há, portanto, no mito do Homem-Aranha a tentativa de aceitação, dos outros e de si, na ausência do superpoder, na falta de sucesso, na incapacidade de se enquadrar num modelo ideal. O principal desejo de Peter Parker é ser reconhecido e amado como homem, não como super-herói, mesmo na consciência do quão falho ele é como homem, como todos nós somos. Mas será mesmo? Será que essa é a chave de identificação com Peter Parker?

Faço essas questões porque se assim fosse, iríamos uma hora querer apenas estórias do homem, não do super-homem. Iríamos dizer “ah que saco essa estória de máscara e vilões, eu quero saber afinal como ele vai fazer pra pagar o aluguel desse mês!” Mas não, independente do apreço que exista pelo Peter Parker, o que se compra em titulação é o espetacular Homem-Aranha. Por quê?

Existe uma passagem na narrativa do Parker-Aranha que me parece tecer uma interessante hipótese na relação que muitos possuem com o personagem. Trata-se do período em que ele já é dono e controla seus grandes poderes, mas sem a consciência de que com eles vem grandes responsabilidades. Falo do período de Peter Parker como Homem-Aranha, o espetáculo da luta livre e atração televisiva.

Essa passagem em que Parker, querendo dar vazão aos seus novos poderes e descolar uma grana, acaba por se meter na luta livre e posteriormente se tornar uma atração de tv está lá na primeira estória do personagem, em Amazing Fantasy 15 de agosto de 1962. É algo crucial, porque vai ser nesse ambiente que o teioso deixará escapar um criminoso que acabará assassinando o tio Ben. O Homem-Aranha podia ter contido o bandido, mas não quis, não era problema seu, que a polícia que se incomodasse, ele estava de saco cheio de ter obrigações! É desse sentimento de culpa que nasce o principal valor do super-herói aracnídeo.

No entanto é neste intervalo que durou poucas páginas originalmente, entre poderes ganhos e morte do tio Ben, o principal foco da estória Homem-Aranha: Com grandes poderes... de David Lapham e Tony Harris, de 2008, pelo selo Marvel Knights. Nessa minissérie em 5 partes é abordado passo a passo o que acontece com o Peter Parker percebendo-se celebridade.

Todos os ingredientes da narrativa do outrora subestimado que se torna arrogante para então aprender uma dura lição estão lá. Peter Parker na sua eterna resignação ao perceber-se poderoso passa a querer exibir-se, humilhar os que o humilhavam, afirmar-se no sentido mais amplo. Peter compra um carro, aparece na tv, se incomoda com os tios que representam a velha e odiada vida, se envolve com o submundo de apostas e mídia, e cria seu uniforme. Isso é algo constante, na minissérie de 2008 e na estória original de 1962: o uniforme do super-herói assim como seu lançador de teias foi criado pra ser uma atração, uma fantasia e um apetrecho descolado e chamativo. Por que será que depois da morte do tio Ben ele ainda manteve o mesmo visual?

Ao abordar basicamente uma estória já tão contada, só que com mais calma, maiores nuances, o texto consistente de Lapham e o desenho detalhista e suntuoso de Harris “Com grandes poderes” traz complexidades. Há um momento em que Peter se vê no meio de um ataque alienígena e não tem coragem de se juntar ao Quarteto Fantástico pra ajudar. Parker pensa o quanto os super-heróis também são exibicionistas assim como ele, o quanto adoram salvar o dia. Mas se questiona, seria isso mesmo? Ou há algo mais? Não há resposta pra isso, embora seu encontro com o Coisa e a morte de um mendigo pareça revelar um pesar muito maior na tarefa de um super-herói do que o de uma celebridade. 

O quadro em que Peter vê o mendigo desesperado em baixo de escombros e pensa que podia ser uma moça bonita possui uma crueldade seca que muito reflete as relações sociais de hoje na necessidade da fama, na ditadura da beleza. Momentos como esse mostram a que servem esses padrões culturais: o feio e anônimo deve morrer. Tanto faz. Mas Peter chora. 

Mesmo depois que o odioso dono do jornal Clarim Diário J. Jonah Jameson o difama, e o Homem-Aranha resolve exibir-se como super-herói por indicação de seus empresários, continua a insatisfação. Peter Parker não é um super-herói. A estória termina com Parker abandonando tudo, desmontando a quadrilha que o financiava e voltando pra casa, aposentando o Homem-Aranha. Tudo dá a entender que nos próximos dias tio Ben será morto, mas a imagem final é da família unida, feliz.

Mas então retorno à minha pergunta inicial. Por que as estórias que seguem não é sobre essa família, esse personagem? Por que depois da morte do tio Ben, Parker retornará ao uniforme criado justamente pra ser uma atração que iria contra os preciosos valores de responsabilidade do tio? Penso eu que é aí que reside, talvez, o ponto crítico de identificação do Homem-Aranha: não se trata de identificação com o homem por trás da máscara, mas de identificação com a possibilidade de ser uma celebridade sem culpa. 

De certa maneira quando o Homem-Aranha retorna ao seu espalhafatoso uniforme e torna-se assumidamente um super-herói, mesmo diante do fracasso e eventual insatisfação, ele agora pode exibir-se, com algum recato é verdade, mas sem culpa – ou melhor, com a culpa como pretexto para uma afirmação de si. Veja bem, não estou dizendo que o Homem-Aranha é um sacana, ou melhor, estou dizendo sim, mas todos nós somos assim. Não é de hoje que sabemos como a culpa serve a outros propósitos. É como na penitência, onde o auto-castigo visa afirmar um corpo em regeneração, nova possibilidade de afirmação.

Então a identificação acontece porque desejamos, na nossa vida toda ou só nos breves momentos em que lemos um gibi, poder ser tudo aquilo de afirmativo, mas sem a culpa de não sentir culpa. Assim a catarse se dá. Sentimos culpa sim, aliás, sentimos por Parker, e juntamente com ele podemos agora dizer um enorme e desmedido sim a si mesmos, sim ao mundo dos modelos (o que a Mary Jane é?), se enquadrar nesse mundo, vencer nele, mas com a consciência malandramente limpa de que tudo isso é feito a serviço dos valores de justiça, humildade e responsabilidade. 

Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, maiores e ainda mais complexas do que vestir uma fantasia e sair prendendo bandidos em sua teia. Um desafio e tanto para o Homem-Aranha! 

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Homem-Aranha: Com grandes poderes... saiu pela editora Panini em uma única edição capa-dura em 2010. Um pouco de sentido aranha ajudará encontrá-la sem grandes problemas...


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