Thursday, July 19, 2012

Histórias em Quadrinhos: Um meio Intermidiático

Alberto Ricardo Pessoa

Universidade Presbiteriana Mackenzie



Resumo

As histórias em quadrinhos são uma multiarte que se utiliza de

monoartes como o desenho, a escrita e a narrativa para gerar um

meio de comunicação que ao mesmo tempo é de massa e subjetivo,

já que sua leitura é um exercício individual.

O presente artigo tem como premissa dissertar acerca da intermidialidade que os quadrinhos possuem na sua produção e compreensão, usando como estudo de caso a história em quadrinhos “Homens inferiores comandam terras médias”, estabelecendo relação entre a poesia e os quadrinhos.
Palavras-Chave: Histórias em Quadrinhos, Intermidialidade, Poesia. 2 Alberto Ricardo Pessoa A origem das histórias em quadrinhos é incerta. Digo isso baseado na discrepância de datas encontradas entre as diversas fontes que consultei. Seria impróprio estabelecer uma data ou creditar a algum autor a façanha de ter criado a primeira história
em quadrinhos. Para Adolfo Aizen e Scott McCloud, a origem da arte seqüencial é remota, oriunda das pinturas das cavernas, onde as sequências de imagens criavam uma história, por exemplo. A melhor definição da incerteza acerca da origem das histórias em quadrinhos pode ser creditada ao comentário do editor da Conrad, ROGÉRIO DE CAMPOS: Os livros norte americanos nem têm dúvida: a primeira história em quadrinhos é o Yellow Kid, criada em 1895 por Richard F. Outcault. Mas a Inglaterra apresenta as páginas desenhadas por Gilbert Dalziel em 1884, como prova de que os quadrinhos são uma invenção inglesa. Os alemães podem afirmar que os dois primeiros heróis dos quadrinhos surgiram em 1865 na Alemanha: foi Max e Moritz, de Wilhelm Busch. Mas, por outro lado, os espanhóis podem falar dos quadrinhos de Goya, do início do século XIX. No Brasil orgulhamo-nos do ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, que inventou os quadrinhos em 1884. Mas alguns diversionistas sustentam que Agostini teria sido precedido por Henrique Fleiuss e seu Dr. Semana - Prefácio de Fealdade de Fabiano Gorila – Marcelo Gaú. As histórias em quadrinhos nascem sob uma ótica intermidiática, sendo uma mescla de várias monoartes que geram uma multiarte.
ARTHUR SPIEGELMAN possui uma definição acerca das histórias em quadrinhos que reforça a afirmação de que as histórias em quadrinhos possuem, em sua essência, uma construção intermidiática: www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 3 O gibi está para a arte como o iídiche para a linguagem. (...) o iídiche é um idioma vulgar que incorporou outros, criando um meio de expressão vital, expressivo e mestiço, como nos quadrinhos. Arthur Spiegelman, criador de Maus, A sombra das Torres ausentes entre outros – Estado de São Paulo 10 de Julho de 2005 – Caderno 2 pg. - D9. A formação do autor de histórias em quadrinhos é bastante abrangente, pois trata-se de um meio de comunicação do qual mescla imagem, texto e sequência. Segundo WILL EISNER: Um domínio fundamental do desenho e da escrita é indispensável. Esta é uma forma de arte relacionada ao realismo, porque se propõe a contar histórias. A arte seqüencial lida com imagens reconhecíveis. As ferramentas são seres humanos (ou animais), objetos e instrumentos, fenômenos naturais e linguagem. Obviamente, um estudo sério de anatomia, perspectiva e composição, através de livros ou de cursos, constitui uma parte importante da formação. Cada uma dessas disciplinas é um estudo em si e deve fazer parte do treinamento do estudante. A leitura regular, particularmente de contos, é essencial para as habilidades de criação de enredo e narrativas. Ler ficção estimula a imaginação. Na prática, o artista “imagina” para o leitor. A leitura também constitui um importante banco de informações. Numa forma de arte em que o escritor/artista deve dominar um amplo repertório de fatos e conhecimentos é interminável. Afinal, trata-se de uma forma artística que trata da experiência humana. Will EISNER. Quadrinhos e Arte Seqüencial (tradução: Luís Carlos Borges) – 3oed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999.
A dificuldade em realizar este tipo de arte consiste em estabelecer harmonia entre estes três itens, ou seja, apresentar ao leitor uma única mensagem utilizando mídias independentes, mas www.bocc.ubi.pt 4 Alberto Ricardo Pessoa complementares. Os quadrinhos acabam sendo diferentes de uma história ilustrada, pois a função da ilustração, em um conto ou um romance, é estabelecer uma pausa na leitura do indivíduo, um acréscimo no repertório do leitor em relação a fatos históricos ou na afeição ao personagem, principalmente se o conto for para um público infantil, que possui a necessidade do apelo visual. Nos quadrinhos a ilustração é parte essencial do entendimento da história, pois ela está em constante sequência e sem acompanhar o texto, necessariamente. O texto pode ser um pensamento abstrato e os desenhos podem apresentar ações do dia a dia como, por exemplo, uma pessoa lavando a louça, enquanto outra está em um
telefone. Segundo WILL EISNER, os quadrinhos apresentam vários elementos essenciais para a sua construção: A configuração geral da revista em quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem, e assim, é preciso que o leitor exerça suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da literatura (por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as regências da literatura (por exemplo, gramática, enredo, sintaxe) superpõemse mutuamente. A leitura da revista em quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual. Will EISNER. Quadrinhos e Arte Seqüencial (tradução: Luís Carlos Borges) – 3oed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. Histórias em quadrinhos e poesia – uma relação intermidiática Para o presente artigo, apresento uma aplicação prática da intermidialidade na produção de uma história em quadrinhos. Lesser men rule over the middle lands é um poema escrito por Aaron Thomas Nelson, autor de quadrinhos e poeta. Este poema foi criado no intuito de ser lido sem ilustrações, apenas texto. Segue abaixo o texto integral em inglês: www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 5 Lesser men rule over the middle lands Striving to own my imagination. They dig for my loam but I yield dry dust. I depart their lands, resisting their ways. A wanderer–forsaken, exiled– I find my way with ancient poetics To a new land of old discoveries Once ruled by great men and divine gods. But I am alone in the new found place— It lies razed and empty. Forgotten. My heart burns to return home–to find peace. At once found and lost, hopeful and hopeless, I seek a land I will never have. Por se tratar de um poema, a sua interpretação em imagens é totalmente subjetiva, e logo que li o poema fiquei inspirado a realizar uma história em quadrinhos, uma interpretação deste poema, diferente de realizar apenas ilustrações, mas criando uma história à parte, sem, necessariamente ter relação com o poema. Segue as páginas desenhadas e seqüenciadas. Para um exercício de reflexão, procure criar o seu próprio texto. O que poderia estar falando os personagens? Que texto poderia complementar a história? A história precisa realmente de texto ou ela é compreensível apenas pelos desenhos e sequências? www.bocc.ubi.pt 6 Alberto Ricardo Pessoa Fig. 01 www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 7 Fig. 02 www.bocc.ubi.pt 8 Alberto Ricardo Pessoa Fig. 03 www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 9 Fig. 04 www.bocc.ubi.pt 10 Alberto Ricardo Pessoa Tanto a história quanto o poema são independentes, podendo ter centenas de interpretações, mas quando se juntam, formam um veículo complexo de leitura. O leitor precisa ter repertório diverso para poder aproveitar o máximo da obra presente. Torna-se uma mídia única, formada por vários meios complementares. Segue abaixo a leitura final. Foi realizado uma tradução adequando termos e diferindo da tradução fiel do poema. Alguns termos e trechos foram adaptados para se aproximar a arte do poema. Ao final da leitura se questione. Imagine a sua própria interpretação do poema. Quais personagens, situação histórica, sequências você usaria para formar uma história em quadrinhos com este poema? Outras pessoas iriam imaginar esta interpretação que realizei com o poema ou cada indivíduo teria uma interpretação única? A partir da leitura da história em quadrinhos é possível apresentar outras histórias, continuando esta obra? Perguntas como essas podem ser realizadas em salas de aula ou em oficinas de criatividade, da qual são os meios de produção e reflexão de mídias intermídiáticas. www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 11 Fig. 05 www.bocc.ubi.pt 12 Alberto Ricardo Pessoa Fig. 06 www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 13 Fig. 07 www.bocc.ubi.pt 14 Alberto Ricardo Pessoa Fig. 08 www.bocc.ubi.pt Histórias em Quadrinhos 15 Conclusão O artigo tem como premissa apresentar a produção e reflexão das histórias em quadrinhos como meio intermidiático. Por se tratar de uma mídia da qual na sua origem necessita de várias mídias, as histórias em quadrinhos são um meio extremamente flexível e podem gerar grandes trabalhos com poesia, música, contos, peças de teatro, e pode até mesmo ser publicada em diferentes mídias, como a impressa e virtual, via internet. As perguntas apresentadas são uma forma de propiciar debates a partir deste artigo. Produção de pesquisa tem por vocação a geração de novas perguntas, fazendo com que pesquisadores, leitores e críticos procurem cada vez mais apurar suas convicções e experimentarem novos conceitos. Bibliografia CAMPOS, Rogério de. - Fealdade de Fabiano Gorila – Marcelo Gaú – São Paulo – Ed. Conrad EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial (tradução: Luís Carlos Borges) – 3oed. – São Paulo: Martins Fontes, 1999. SPIEGELMAN, Arthur - Estado de São Paulo 10 de Julho de 2005 – Caderno 2 pg. - D9.
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