Tuesday, April 10, 2012

O zine não morre, reinventa-se


Por ADRIANA MARTINS


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Fernanda Meireles: arte-educadora, colecionadora, pesquisadora e zineira, ela é a principal referência cearense neste modelo de mídia alternativa. Fernanda garante que a internet não tirou o encanto dessas notas do underground
FOTO: WALESKA SANTIAGO
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Papel, cola, tesoura, tinta, recortes, arte, palavras...
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... feitos com os mais diversos materiais e formatos, os zines seguem cumprindo sua função
FOTOS: WALESKA SANTIAGO
























Irmão mais novo - e mais rebelde - da imprensa, o zine tem origem imprecisa e uma história de quase um século. Coautor de transformações culturais nos anos 20 (que sedimentaram a indústria dos quadrinhos) e 70 (quando foi porta-voz do punk), este veículo impresso artesanal fez sucesso no Estado entre a década de 90 e o começo do novo milênio.   Seguindo à risca a ideia do "faça você mesmo", os zines sobrevivem graças ao próprio caráter mutante
Uma folha de papel tamanho A4 dobrada no meio. Revistas, jornais, tesoura e cola. Lápis, caneta, canetinha, pincel e tinta - rola até batom, se precisar. Faz uma capa, o "miolo", põe o endereço na contracapa. Leva até a xérox mais próxima, roda umas cópias em preto e branco e pronto.

Não, não estamos de volta à década de 90 (ou 70, ou até antes). Mas quem já fez um zine na vida nunca esquece o ritual. Por muito tempo, essas publicações artesanais representaram a maneira mais rápida, prática e descolada de fazer circular conteúdo de cenas alternativas e marginais (por favor, na acepção do dicionário: à margem).

Em Fortaleza, os zines ganharam especial popularidade entre os anos 90 e o início dos anos 2000, graças ao uma série de ações (especialmente oficinas e encontros independentes de zineiros) que se desenrolaram naturalmente, empreendidas por diferentes atores da cena cultural da cidade. Se pensarmos, a demanda era a mesma suprida hoje por blogs, redes sociais e outras plataformas virtuais de comunicação: expor o que se passa na cachola e conhecer pessoas. Conectar-se.

De lá pra cá, no entanto, muita coisa mudou. Com o acesso cada vez mais facilitado à internet e a quantidade crescente de novas ferramentas de criação e compartilhamento de conteúdos, o papel cedeu lugar à tela. Além dos blogs, vieram fotologs, o Orkut, vlogs, YouTube, Twitter, Facebook; e aparelhos como smartphones e tablets.

Mas, assim como a TV não matou o cinema e o vinil ainda hoje tem seu mercado, o papel não deixou de ser fundamental para a comunicação - e o zine segue bem, obrigado. Obviamente, não com a mesma força ou da mesma maneira, após o impacto da internet. Como ele segue, então? Vinculado, adaptado, transmutado - enfim, em convivência com as plataformas online, pois um meio não suplanta o outro. Mas, segundo o zineiro e profissional de comunicação Marcelo Carota, 45 anos, conhecido pelo apelido Pirata Z, isso não é de hoje.

"A grande força da zine, que a mantém sacudida e sacudindo, sobrevivendo a todas e tantas mudanças tecnológicas e conceituais de comunicação, é precisamente o fato de não precisar enquadrar sua forma de produção nesse ou naquele outro formato, meio ou conceito. Ela, porque livre (especialmente da obrigação de gerar lucro), goza do privilégio de poder ser mutante, híbrida, múltipla", avalia Pirata (que trata o zine no feminino mesmo).

Como exemplo, o zineiro cita uma transformação ocorrida, ainda nos anos 70, com a explosão do movimento punk. "Pipocavam bandas por todos os lados. As zines escreviam sobre elas, xerocavam fotos de seus integrantes, das capas de seus singles (quando havia...), e só e fim. Um dia, alguém teve a genial ideia de fazer zines em fitas K-7, nas quais os textos-resenhas eram gravados, e o melhor: com uma ou duas demos das bandas citadas. Maravilhoso, isso", ressalta.

Híbrido
Pirata mexe com zines há 25 anos, e é uma das figuras mais conhecidas no cenário nacional, autor do Pirata Zine - o último que produziu dentre tantos ao longo da carreira, e cuja existência impressa foi interrompida há quatro anos, após 107 edições. "Não considero-a encerrada. Estou sem tempo de produzir direitinho; ao mesmo tempo, de quatro anos pra cá, com as redes sociais, a comunicação passou por muitas - e, ao meu ver, ótimas, em todos os sentidos - alterações, tornando-se mais dinâmica, objetiva, e estou pensando em como será o formato quando eu puder voltar a fazer a Pirata Zine", adianta.

"Quero incorporar mais gente, diversificar o conteúdo, aproveitando mais as possibilidades da plataforma, o que, naturalmente, compreende conteúdo multimídia. Quando interrompi a produção e disse que migraria para a internet, tinha uma mailing com mais de 20 mil e-mails, tudo fruto de recomendação e ou de gente me passando contatos, para que eu os incluísse no envio", orgulha-se o zineiro, que recentemente colaborou para a última edição da revista Overmundo (do site overmundo.com.br) com um artigo esclarecedor sobre a história dos zines, seu surgimento no Brasil e suas transformações a partir da convivência com a internet (texto disponível em overmundo.com.br/revista/?titulo=revista).

Para Pirata, os zines não tiveram nem nunca terão problemas com a rede mundial de computadores, que "só representam benefícios à questão de distribuição (o que era e é um problema pra quem faz no papel, por conta dos custos com os Correios). Com a internet, pode-se aumentar muito o público de uma zine, e de graça - relativamente falando, pois há que se considerar os custos para acesso. Digo mais: se, um dia, por alguma obscura razão, a internet acabar, as zines continuarão seu curso, e ainda mais fortes", profetiza.

Inclusão
Para além do poder de mutação, Pirata destaca o zine como ferramenta de inclusão. "Assim que me mudei pra Brasília, quatro anos atrás, fiz uma oficina de zine para crianças surdas, com uma média de 10 anos de idade, todas estudantes de uma unidade de ensino especial do Governo do Distrito Federal (GDF). Separei a turma em grupos: dos que gostavam ou queriam desenhar e os que queriam ou gostavam de escrever. Tive o auxílio de uma professora das crianças, para traduzir em libras o que eu dizia e me falar o que elas queriam saber".

O resultado foi uma revistinha de oito páginas, com aventuras, esportes e moda. "O GDF quis porque quis uma cerimônia de entrega das revistinhas, e eu, a princípio, achei meio boboca, porque compreenderia uma formalidade que não combinava com o clima de brincadeira que prevaleceu na oficina", conta Pirata. Um depoimento, porém, mudou a opinião do zineiro. "Um aluno pediu à professora de Libras que me dissesse que aquela tinha sido a primeira vez que eles ´conversavam´ com alguém que não sabia Libras. Você pode dizer que um livro também permite isso, mas livro é uma obra literária, não um meio de comunicação. Então eu lhe pergunto: que outro meio de comunicação tem esse poder?".

História
Em seu artigo para a revista Overmundo, Pirata Z recorda o início dos zines no Brasil, apontando como seus "parentes remotos" as revistinhas sobre ou de quadrinhos. Assim, o zineiro aponta como "protozines brasileiros" as revistinhas eróticas produzidas, sob absoluto anonimato, pelo carioca Carlos Zéfiro, de 1949 até 1970.

Segundo Pirata, Zéfiro criou cerca de 500 edições. Só deixou o anonimato em 1991, um ano antes de morrer. Mas o autor do artigo cita também a explicação do cearense Henrique Magalhães, autor do livro "O que é Fanzine", (Editora Brasiliense), segundo o qual as zines surgiram no Brasil como resposta dos quadrinistas nacionais ao descaso das grandes editoras, cuja atenção era voltada à produção estrangeira.

Seja como for, são mais de 40 anos de zines no País. Mas nem é preciso tanto distanciamento para, hoje, enxergar os zines como uma espécie de memória coletiva. Foi o que fez, por exemplo, o paulistano Márcio Sno, zineiro e orientador pedagógico que, desde 2007, dedica-se ao documentário "Fanzineiros do século passado". Ao longo da produção, o filme acabou virando uma série de três capítulos. Uma coisa se liga à outra e, assim, a segunda parte foi lançada no último mês, em São Paulo, durante a II Ugra Zine Fest, uma das ações do projeto Ugra Press, criado em 2010 pelo designer gráfico Douglas Utescher.

A Ugra Press surgiu de uma parceria entre Utescher com o colega zineiro e redator publicitário Leandro Márcio Ramos. Hoje o designer toca a editora sozinho, mas sempre com as portas abertas - tanto que, por ela, Ramos vai lançar seu primeiro livro. Em breve, também deve sair a coleção de álbuns de quadrinhos malditos, cujo primeiro número é com Law Tissot (outro zineiro e criador da Zineteca Mutação, no Rio Grande do Sul).

Fiel à máxima punk "faça você mesmo", que norteia o universo zineiro, o designer procura desenvolver o trabalho na editora sob a estética e os procedimentos artesanais dos zines. Para o miolo do livro de Ramos, por exemplo ("Tudo o que é grande se constrói sobre mágoa"), foi usada impressão digital, o que permitiu fazer uma tiragem pequena e com boa qualidade. "Para a capa a imagem foi serigrafada em tecido, que depois foi recortado e colado sobre o papel que escolhemos. A encadernação também foi feita manualmente", conta Utescher. "O custo para a realização do livro foi baixíssimo, e o produto final é algo que tem alma, algo que certamente será especial para quem adquirir".

A menina dos olhos da Ugra Press, no entanto, é o "Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas", cuja primeira edição reuniu amostras da produção brasileira. "Eu e o Leandro editamos alguns fanzines nos anos 90. Por razões diversas paramos de fazê-los no início dos anos 2000, mas sempre tivemos o desejo de retomar a produção. Um dos primeiros projetos que havíamos imaginado para a Ugra era, justamente, fazer um zine impresso. Na época, assim como muitas outras pessoas, tínhamos a impressão de que a cena de fanzines estava morrendo", recorda.

O pontapé inicial deu-se com o trabalho de conclusão do curso de pós-graduação de Utescher, sobre zines. "Juntando uma coisa à outra, fomos tentar entender em que pé estava a produção de fanzines no Brasil naquele momento. Conversando sobre isso surgiu a ideia de fazer o Anuário. Nos anos 80 e 90, existia uma rede de contatos fortíssima entre os editores, operando via correio. Era um sistema primitivo em comparação às possibilidades de contato na era dos celulares e da internet, mas esse sistema funcionava muito bem. Saía um zine novo e logo todo mundo estava sabendo, comentando, trocando. A internet, de alguma forma, matou essa rede", explica.

Assim, a meta da dupla com o "Anuário" era mapear a atual produção fanzineira no País e estabelecer uma referência para editores e leitores, fomentando a discussão e facilitando o contato entre as partes. Para a primeira edição, Utescher e Ramos receberam mais de 120 títulos. O critério utilizado foi que a publicação ainda estivesse disponível, caso alguém quisesse adquirir ou que o editor pretendesse dar continuidade à sua edição. "Fora isso, é imprescindível que o editor nos envie uma cópia física da sua publicação. Não aceitamos arquivos em formato pdf ou nada do tipo", salienta.

Além da importância da catalogação e do mapeamento, o Anuário configura-se um espaço de reflexão sobre zines, ao fazer a resenha de todos os títulos recebidos.

"A cena alternativa brasileira sofre há muito tempo com a falta de crítica. A postura, em geral, é aceitar e enaltecer qualquer iniciativa. Mas há uma quantidade significativa de coisas ruins que são produzidas nesse meio, e ao enaltecê-las estamos desmotivando as pessoas que desenvolvem um trabalho de qualidade", observa Utescher.

Para a segunda edição do "Anuário", a Ugra Press ampliou a proposta e divulgou a chamada para editores de toda a América do Sul. Além da catalogação e da resenha dos títulos, o Anuário deverá contemplar o zine como objeto de estudo.

Assim, também houve convocação para monografias, dissertações, artigos ou documentários sobre o tema. O prazo de envio foi dezembro do ano passado.

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