Thursday, April 19, 2012

Cultura negra em quadrinhos


André Diniz tem um respeitado trabalho como roteirista de quadrinhos, mas se firma cada vez mais também como ilustrador de suas próprias histórias, geralmente baseadas em acontecimentos históricos do Brasil ou relacionadas com a cultura negra. Morro da Favela (confira um trecho ao final da entrevista), publicado neste ano pela Barba Negra/LeYa, é mais um exemplo do exímio trabalho de Diniz como roteirista e desenhista, ao abordar a vida de Maurício Hora, nascido e crescido no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, o primeiro a ser ocupado na cidade, em 1897, pelos combatentes do Exército brasileiro que derrotaram Antônio Conselheiro e a população de Canudos. Morro da Favela narra a trajetória de Maurício, que desejou desde sempre não seguir os caminhos do pai, apontador do jogo do bicho e um dos introdutores do tráfico de drogas no morro. A infância, permeada por visitas ao presídio, abusos da polícia e tratamento diferenciado dos amigos e colegas do morro, incutiu no jovem a certeza de que seu futuro seria diferente. Ele começou a ralar desde cedo e, na adolescência conseguiu um trabalho de ourives. Foi com seu patrão, em troca de um salário, que arranjou sua primeira máquina fotográfica, uma Pentax, para exercer o ofício que namorava desde quando foi apresentado ao laborátorio fotográfico de seu tio.

Em preto e branco, produzida com traços estilizados e peculiares, feitos diretamente no computador através de um tablet, Morro da Favela confirma Diniz como um dos mais interessantes quadrinistas na prolífica produção recente do país. Desde Chico Rei (Franco Editora, 2007) e O quilombo Orum Aiê (Galera Record, 2010) ele vem aperfeiçoando sua técnica, inspirada na xilogravura e na arte africana, cuja cultura e história são temas dos dois álbuns acima mencionados e de outros dois, que saem em 2011 – o já publicado  A cachoeira de Paulo Afonso (Pallas),  baseado no poema de Castro Alves e Mwindo (Galera Record), com roteiro de Jacqueline Martins. “Abracei como referência a xilogravura e a arte africana, duas paixões minhas. Assumi a minha mão dura e pesada, e trabalhei o meu traço para tirar partido disso. Também criei o meu próprio processo de produzir uma página, em vez de seguir a forma tradicional. A partir daí, consegui criar um estilo meu que me dá um prazer enorme de produzir, o que fez toda a diferença”, conta ele na entrevista a seguir, onde fala também sobre seu trabalho, o que o levou a desenhar seus roteiros e porque decidiu contar a história de Maurício Hora. (Foto de Leandro Pagliaro)
Como você começou a roteirizar histórias em quadrinhos?
André Diniz. Desde a primeira página de HQ que fiz na vida, o meu ponto de partida sempre foi o de contar uma história. Acredito que, para uma boa HQ, os desenhos devem buscar contar uma história, em vez de o roteiro ser pretexto para belos desenhos. Nos meus primeiros fanzines, desde meados dos anos 1990, eu escrevia e desenhava sozinho, mas a minha fixação em me desenvolver como autor era cada vez mais em função dos roteiros do que dos desenhos. Daí, passei a fazer roteiros para outros desenhistas darem vida, e tive grandes parceiros, como Laudo [A Inconfidência Mineira (Escala Educacional)], Antonio Eder [Chalaça (Conrad, 2005); 7 vidas (Conrad, 2009); A Guerra dos Farrapos (Escala Educacional); A Independência do Brasil (Escala Educacional)], José Aguiar (Revolta de Canudos (Escala Educacional); Ato 5 (Nona Arte/Quadrinhofilia, 2010)], entre outros, sem falar no mito Flávio Colin [Fawcett (Nona Arte, 2000, 1. ed.; Devir, 2010, 2. ed.)].
Depois de alguns álbuns como roteirista, você começou a iustrar seus próprios álbuns. Como se deu isso? Por que a necessidade de desenhar as próprias histórias?
André Diniz.
 Até 2007, eu ainda concentrava as minhas fichas nos roteiros. Eu tenho como base para tudo o que faço a seguinte questão: o que eu vou fazer tem um porquê de ser feito ou vai ser apenas mais um? Por conta disso, por exemplo, não fiz tiras até hoje, pois não encontrei ainda o caminho para não fazer algo igual ao que já foi feito. Já em 2008, tive três “cliques” que, juntos, foram o ponto de partida para eu abraçar de vez os desenhos também. Abracei como referência a xilogravura e a arte africana, duas paixões minhas. Assumi a minha mão dura e pesada, e trabalhei o meu traço para tirar partido disso. Também criei o meu próprio processo de produzir uma página, em vez de seguir a forma tradicional. A partir daí, consegui criar um estilo meu que me dá um prazer enorme de produzir, o que fez toda a diferença.
Poderia falar sobre a sua técnica de ilustração e desenho?
André Diniz. 
Hoje é toda no computador. Uso basicamente Photoshop e o tablet Wacom Intuos 4. Esse tablet é maravilhoso em termos de precisão; o atrito da caneta com o tablet é delicioso! Mas o maior trunfo dele pra mim é a possibilidade de se configurar um milhão de atalhos, por meio de teclas e menus radiais. Isso acelera absurdamente o meu trabalho, um tremendo aliado contra o que é, ao meu ver, o maior vilão de quem faz quadrinhos: o enorme tempo gasto na execução de cada página. Aliás, quando desenvolvi a minha própria técnica de desenho, me preocupei muito em fazer uma página o mais rica possível com recursos que poupem tempo na execução. Insisto no Photoshop, em vez de programas vetoriais como o Illustrator, por exemplo, porque ele me dá ainda um certo toque manual no traço. Aquela perfeição das retas e curvas vetoriais não se encaixariam no meu desenho.
Seus álbuns geralmente são baseados em fatos e personagens históricos, como Canudos, o AI-5, Chalaça, e o Coronel Fawcett, além de 7 vidas (Conrad, 2009), que é autobiográfico. Por que essa opção?
André Diniz. Saí do colégio sem gostar das aulas de História, e só depois, por conta própria, descobri o quanto esse tema pode ser fascinante. Gosto de reviver outras épocas, pesquisar roupas e arquitetura antiga, essas coisas, mas o meu objetivo não é fazer a reconstituição de um evento histórico (a não ser em trabalhos como os que fiz para a Escala Educacional, onde o objetivo era justamente esse). O que me dá tesão é pegar cenários históricos e jogar ali personagens fictícios, extremanente humanos, canalhas, ridículos, frágeis, perdidos, perigosos, sonhadores... Criar aventuras, dramas e cenas cômicas em épocas fascinantes e trazer, antes de tudo, entretenimento e emoções aos leitores, mesmo àqueles que estão se lixando para temas históricos, mas querem uma boa leitura. Considero O quilombo Orum Aiê (Galera Record, 2010) o meu ápice, até agora, nesse sentido. A fuga de um grupo de escravos a um quilombo utópico e os questionamentos do protagonista são, na verdade, como uma parábola àquela fase de amadurecimento e perda da inocência que todos nós passamos um dia. 7 Vidas (Conrad, 2009), onde conto de forma quase documental as sessões de Terapia às Vidas Passadas que fiz entre 2004 e 2005, já foge dos temas históricos, assim como algumas obras minhas que estão para ser lançadas ou ainda estão em fase de produção.
Há também os álbuns que focam na história e na cultura negra, como Chico Rei (Franco Editora, 2007),O quilombo Orum Aiê (Galera Record, 2010) e os lançamentos de 2011: a adaptação do poema “A Cachoeira de Paulo Afonso”, de Castro Alves (Pallas), e Mwindo (Galera Record), a partir de uma lenda Africana. Qual a importância de resgatar essa história e cultura em forma de quadrinhos?
André Diniz. Foi meio que uma bola de neve!... Descobri a lenda de Chico Rei e me apaixonei por ela. Resolvi contá-la em quadrinhos e foi a minha primeira experiência em buscar a arte africana pro meu traço.O quilombo Orum Aiê foi uma ideia que me veio em sua essência: comecei imaginando uma travessia de personagens fictícios amadurecendo questões pessoais e existenciais que, na verdade, eram questões minhas (a perda do meu pai aos 20 anos está muito presente na história de forma simbólica). Acabei gostando da ideia de fazer um grupo de escravos partindo em busca de um quilombo, que só depois ganhou um ar meio místico. Com a pesquisa que veio em seguida, descobri o quanto a história dos africanos trazidos na marra para o Brasil é mil vezes mais intessante e menos simplista do que se vê em filmes, romances e novelas. Acabei me apaixonando pelo tema, e isso acabou estimulando os meus trabalhos seguintes.
Como conheceu o Maurício Hora e seu trabalho?
André Diniz. Numa conversa informal com meu cunhado, o produtor cultural Neko Pedrosa, perguntei se ele conhecia alguém que tivesse uma história de vida interessante a ponto de virar um filme, um livro ou uma HQ (por que não?). Daí, ele nem titubeou: citou o Maurício de primeira. Foi só contar um pouquinho sobre ele e eu já queria o telefone dele. O Maurício foi muito receptivo desde o começo e eu, que fui atrás de uma história, ganhei também um amigo e algumas grandes lições de vida.
Por que decidiu adaptar a história dele para os quadrinhos?
André Diniz. 
Porque ele tem uma história de vida fascinante e é uma pessoa incrível! Numa história só, temos um relato da gênese do tráfico de drogas que mudou pra sempre o Rio de Janeiro (o pai de Maurício foi, praticamente, o inventor do conceito de boca-de-fumo). Temos uma história belíssima de um jovem que resolve lutar pela comunidade através da arte da fotografia. Temos um relato interessantíssimo do dia-a-dia dos moradores daquela que é a primeira favela, surgida há mais de um século. Temos um testemunho maduro do que é viver entre a opressão da polícia e a ditadura do tráfico. Sem falar nos personagens ricos, na trajetória pessoal de Maurício... Os porquês de se contar a história de Maurício nos quadrinhos são incontáveis.
Como foi pensar e realizar este diálogo entre fotografia e HQ? no que elas se aproximam e no que se distanciam?
André Diniz. 
Não foi bem esse o objetivo maior do álbum. Eu fui em busca de uma história de vida e, por acaso, essa história pela qual eu me apaixonei é sobre outro artista visual. A relação que estabeleci no livro entre meus desenhos e a fotografia foi a de deixar para as fotos o papel de reproduzir fielmente a favela, enquanto os desenhos retratam o clima da favela como um todo, em vez de retratar com exatidão uma determinada ruela ou a praça principal, por exemplo. Isso me permitiu ousar mais na estilização dos cenários e viajar mais visualmente nas possibilidades que a favela oferece como inspiração.
E sobre a pesquisa para o livro, visitou o Morro da Providência? Entrevistou moradores, além do próprio Maurício, para desenvolvr os demais personagens que aparecem na história?
André Diniz. Estive lá diversas vezes, e cada ida era uma overdose de inspiração. Algumas cenas cotidianas mostradas na HQ não me foram contadas pelo Maurício, foram cenas que eu mesmo vi, como a cena onde quatro homens sobem uma escadaria gigantesca trazendo uma caixa d’água para uma moradora e, só lá em cima, percebem que subiram pelo lado errado do morro! Também conversei com outros moradores, mas essas conversas influíram pouquíssimo no resultado final. O Maurício tem uma visão tão rica, tão sóbria da favela e da questão social que envolve os moradores de lá e a quase todos os brasileiros em geral, tudo tão coerente, tão completo, que me bastou. Acabei focando o livro 100% nele, em sua vida e sua visão do mundo. É uma história de um personagem. Cheia de coadjuvantes e com um cenário riquíssimo, mas é uma história de um personagem só.
O quanto ela traz de ficcional?
André Diniz. 
Não há nada lá de ficcional, tirando algumas adaptações que são fundamentais numa história como essa. Por exemplo, fundi em um único personagem que passa a ser o maior amigo de Maurício, casos e aspectos que aconteceram com três ou quatro amigos diferentes dele, na vida real. Mas nada ali foi inventado ou aumentado. A história do Maurício só perderia com isso.

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