Monday, April 30, 2012


Aprendendo a desenhar - Parte I

Idéias preconcebidas de como aprender a desenhar.

Aqui na Quanta, estamos sempre tentando aprimorar nossos cursos. Em nossas reuniões, tanto nossos professores quanto a coordenação tentam sempre encontrar melhores maneiras de passar um conceito ou uma técnica aos alunos. Queremos saber como e porque, muitas vezes, certas maneiras de transmitir informações não alcançam alguns alunos... A frase “este módulo de aulas precisa melhorar” é freqüentemente ouvida por aqui. Estamos sempre evoluindo e aprendendo, por isso nunca estamos satisfeitos.

Sabemos como se deve estruturar um curso da maneira tradicional porque temos como base o molde de como outros cursos foram montados. Sabemos como normalmente se ensina anatomia, perspectiva, luz & sombra, composição... sabemos qual a cronologia “correta” a ser obedecida para que as informações caminhem num crescendo... desde a base de cada fundamento até cada passo que deve ser dado em termos de aprofundamento destes conhecimentos.

Mas, na minha opinião, esta estrutura de método criou uma maneira um pouco engessada de se pensar um conteúdo programático de cursos de arte... Acho isso, porque ele separa demais as coisas, categoriza demais. É uma estrutura que, em muitos casos, pensa cada fundamento do desenho, da pintura, da ilustração e por aí vai, como coisas completamente diferentes umas das outras... anatomia não tem nada a ver com perspectiva, que não tem nada a ver com composição, que não tem nada a ver com luz e sombra, que não/ tem nada a ver com a anatomia e por aí vai. E isso, a meu ver, complica um pouco uma visão mais ampla de arte quando estamos aprendendo a desenhar.

Existe pelo menos uma centena de maneiras ortodoxas de estruturação de um curso de arte e, é claro, é complicado tentar fazer tudo isso de uma maneira diferente. Isso porque quando as pessoas chegam a uma escola de artes, já trazem consigo todo aquele manual técnico rígido de como se deve ensinar desenho... Ele está ali, aprendendo a desenhar, a pintar, a ilustrar, e sabe de antemão como uma escola deve fazer isso... de que “matéria”, ou assunto se deve começar a aprender desenho, até onde este assunto deve ir, e também quando ele deve parar. Ele está aprendendo a desenhar e sabe exatamente como as academias e escolas de arte devem fazer isso. Sabe também o que interessa a ele aprender e o que não interessa. Quais são os assuntos realmente importantes e quais aqueles em que esta importância é questionável ou até nula.

O conhecimento em que ele baseia o fato de questionar a importância ou não de uma das “matérias” lecionadas, é tão falho e equivocado quanto por onde e como se começa ou termina um curso de desenho, pintura ou ilustração. E não estou querendo ser radical aqui. Não estou dizendo que NÓS (Quanta) sabemos como fazer isso e por isso não queremos ser questionados, muito menos dizer que somos uma escola de artes que tem um método de ensino único, inovador, perfeito, irretocável! O primeiro parágrafo deste texto já atesta nossa intenção de questionar e caminhar para uma melhora tanto do nosso método quanto do nosso conteúdo. O que quero dizer, é que, querendo ou não, todos temos que tomar decisões quando nos colocamos à frente de alguma coisa. Estas decisões podem ser erradas ou certas... O fato é que todas elas trazem conseqüências... Boas ou ruins. Resta a nós tomarmos estas decisões e ver no que vai dar! E a Quanta tomou algumas decisões. 



A maneira como decidimos construir nossos cursos parte de um princípio básico que, em um primeiro momento, assusta um pouco àqueles que nos procuram. Nosso curso tem a duração total de um ano letivo e funciona em sistema de módulos rotativos. O aluno pode entrar em qualquer momento do curso, em qualquer momento do ano, desde que seja no início de um dos módulos. Cada módulo é um tema, assunto ou matéria se desejar, diferente um do outro. E para nós, tanto faz em que módulo você entra... Só não permitimos que alguém ingresse em nosso curso no meio de um módulo. Assim, não acreditamos que exista um começo para o caminho do “estou aprendendo a desenhar”... Ou “aprendendo a pintar”. Não achamos que se é absolutamente necessário começar o estudo pelo tema anatomia, por exemplo... E nem achamos errado que este processo seja iniciado com o estudo de perspectiva, ou luz e sombra. 

O ato de desenhar envolve a utilização de todos estes conhecimentos o tempo todo e ao mesmo tempo! Não se desenha anatomia sem que ela esteja em perspectiva! Sempre estamos vendo um objeto ou uma pessoa de um determinado ângulo ou altura, portanto, como observadores, quando estamos olhando tudo à nossa volta, estamos observando de uma determinada perspectiva... Quando estamos desenhando, também escolhemos como aquela cena deverá ser vista, portanto ela será observada de um determinado ângulo ou altura. Também é verdade, que não se desenha perspectiva sem a criação de formas, e as formas só existem porque a luz inside sobre elas, e isso é luz e sombra... Anatomia é desenhada da mesma maneira, porque corpo é forma, e só o observamos porque existe luz. Quando desenhamos um corpo humano, a maneira como as linhas que definem um braço, por exemplo, são mais finas ou grossas em determinados pontos deste braço. Estas linhas mais finas ou grossas estão justamente criando o volume deste braço, e o volume é percebido através de como a luz atinge esse braço... Linhas mais finas; quantidade maior de luz neste ponto específico do braço, linhas mais grossas; menor quantidade de luz... Maior quantidade de sombra. 

Não importa como você inicia o processo do “estou aprendendo a desenhar”, porque ele é longo mesmo e tudo o que você vai aprender durante este tempo, será usado no ato de desenhar, pintar ou ilustrar qualquer coisa! Leva tempo. Existem muitas informações a serem apreendidas... E isso não é ruim! Para você entender cada um dos fundamentos do desenho, tem que entender todos. Novamente, você não entende anatomia sem perspectiva, luz e sombra e composição. E isso serve para todos os outros. 

O que eu acho que as pessoas precisam abandonar é a noção de que estudar, de se aprofundar e dedicar a alguma coisa, e que isso leva tempo, seja ruim. Que o período de vida que você leva estudando é ruim. É chato. Não seja imediatista, ansioso, apressado. Não tente pular etapas. O processo do “aprendendo a desenhar”, o período de aprendizado, é muito interessante e importante, e ninguém consegue bons resultados sem passar por ele. 

Esse é um dos pontos mais delicados para a Quanta... Fazer com que nossos alunos percebam isso! E estes são os pontos em que nossos cursos estão totalmente calcados: Calma. Paciência. Dedicação e confiança... 

Sempre lembre do tempo em que o verbo aprender está colocado nessa frase “aprendendo a desenhar”. E isso nunca acaba. A gente nunca aprende o suficiente. Estamos sempre evoluindo e por isso nunca estamos suficientemente satisfeitos com nosso trabalho. Isso ocorre porque quando já aprendemos alguma coisa, já vimos o que é possível fazer e já percebemos que existem muitas outras etapas adiante de nós... Que precisaremos estudar e nos dedicar para chegar até essas etapas... E acontece que já sabemos de antemão, por experiências anteriores, que isso vai levar tempo, que ainda estamos “aprendendo a desenhar”. 

“Então eu nunca vou aprender a desenhar?” Esta é a frase que muitos devem estar se colocando agora... Pois é... Nunca! É isso mesmo! Seu trabalho vai evoluir, vai melhorar se você tiver dedicação e paciência com certeza! Mas o verbo aprender neste tempo... Nunca vai mudar.





Saber tudo não tem graça, simplesmente porque se você chegar a isso, não vai precisar aprender mais nada. Pra que serve isso? Nada! Só para o ego! E não temos que nos ater ao ego! Temos que nos ater a melhorar! A evoluir! E só evoluímos quando aprendemos coisas. 

Já disse isso outras vezes e gostaria de repetir agora... Quando vemos os trabalhos de um artista, um que admiramos e o temos como exemplo, devemos imaginar que seu trabalho não chegou àquele resultado gráfico final sem o esforço desse artista. Ele estudou. Muito. Passou horas na prancheta. Horas que ninguém viu. Esforçou-se sem que ninguém tenha visto. E não esperou outro prêmio, senão sua evolução. 

Muitas vezes, aqueles que admiram estes artistas pensam que o que aconteceu com eles foi uma espécie de mágica! Que estes artistas apenas “sabem desenhar”... Não consideram os anos de estudo... As horas de prancheta. Costumo brincar que isso é o efeito “corte de cinema”... Imagine uma seqüência em um filme, onde vemos um cara que pretende se tornar um grande desenhista... Mostramos várias cenas, com cortes rápidos, desse cara desenhando dia e noite... “Aprendendo a desenhar”, se esforçando enquanto na trilha sonora, ouvimos uma “música de vencedor” decorando a seqüência! A última cena mostra esse mesmo cara, 7 anos depois, 8 anos depois, desenhando, ilustrando, pintando e já sendo um profissional reconhecido. Isso só acontece no cinema. Na vida real, você vai passar cada segundo destes 7, 8 anos “aprendendo a desenhar”. Cada um dos 365 dias do ano... Das 24 horas do dia. Não tem jeito amiguinho! Esquece! 

Você não precisa se preocupar com nada. Apenas se dedique. E isso não é exatamente uma preocupação. É só uma ação. Uma ação que levará a um resultado. Só isso! Simples assim! 

Não se preocupe também com o desenvolvimento daquele que está do seu lado. Muitas vezes os alunos se “pré-ocupam” com o seu colega de classe, vendo que ele está conseguindo resultados melhores que os seus. Esqueça isso. Ele tem o seu próprio tempo e modo de desenvolvimento. Seus próprios desafios e dificuldades. Concentre-se no seu desenvolvimento. 

Não se preocupe também em passar ou não segredos e truques que você descobriu e se esforçou tanto para aprimorar... Você não precisa ter medo do desenvolvimento dos outros (até porque, se o outro se dedica, ele vai avançar quer você queira ou não). De novo, concentre-se no seu. Seus esforços são seus. Suas conquistas e entendimentos sobre a arte, e a sua arte, são seus. Além disso, ninguém quer exatamente a mesma coisa... O mesmo resultado. Cada um de nós tem suas referências e influências. E elas se moldam em nossa vontade, em nossas expectativas de evolução, de maneiras diferentes. Então, se examinar com cuidado, vai ver que aquele cara que está desenhando tão bem do teu lado, ou pintando tão bem, ilustrando tão bem, apesar de ter um trabalho que você admira e valoriza, não atingiu exatamente o mesmo resultado ou estilo gráfico que você deseja em seu próprio trabalho. Então, porque se preocupar? 

Resumo da lição: para de se preocupar e trabalhe! Divirta-se com o processo do “aprendendo a desenhar” e encare que toda evolução requer dedicação. Ponto.






Fonte:
 http://www.quantaacademia.com/escola/aprendendo_desenhar_III.htm

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