Thursday, January 12, 2012

A “O Gibi” revista fez tanto sucesso que virou sinônimo de quadrinhos no Brasil

Roberto Irineu Marinho relembra história das Organizações Globo no mercado de revistas

Redação Portal IMPRENSA 11/01/2012 16:14

Neste mês de janeiro, a mídia revista comemora seus 200 anos de vida no Brasil. Em 1812, a revistaAs Variedades dava início a um mercado promissor, que sobrevive e ganha cada vez mais novos títulos e leitores.

IMPRENSA preparou um especial sobre este segundo centenário e entrevistou diversos empresários de mídia brasileiros, que mantém – ou mantiveram – relação próxima com as revistas. Entre os convidados, Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo, que relembra os primeiros passos de seu pai, Roberto Marinho, nesta seara, desde o lançamento de revistas infantis, em 1937, até o investimento em uma semanal de informação – Época – em 1998.

Leia, abaixo, na íntegra, o depoimento de Roberto Irineu Marinho, concedido com exclusividade à IMPRENSA.

Crédito:Divulgação
Roberto Irineu Marinho
"Ao aceitar o convite para escrever sobre a relação das Organizações Globo com o mundo das revistas, percebi logo que tinha uma ótima oportunidade em mãos, e sou grato por isso: resgatar histórias de pioneirismos que se perderam no tempo e que até mesmo muitos de nossos colaboradores desconhecem. Meu pai, Roberto Marinho, começou a trilhar o caminho das revistas para atender o público infantil, e foi um enorme sucesso. Era uma maneira inteligente de tornar o Globo ainda mais atraente para toda a família: o pai, a mãe, mas também os filhos, cativando desde cedo os futuros leitores do noticiário geral.

Em 1937, O Globo, fundado em 1925, passou a circular duas vezes por semana com uma revista em quadrinhos chamada “O Globo Juvenil”, com produções americanas, como “Ferdinando”, “Brucutu”, “Zé Mulambo”, “Robin Hood”, ‘Az Smith’, mas também, desde o primeiro número, com histórias nacionais, como “As minas de pratas” adaptação de Pinheiro de Lemos do romance histórico de José de Alencar, com desenhos de Acquarone. Na direção do suplemento, ao lado de Djalma Sampaio, ninguém menos do que os escritores Antônio Callado e Nelson Rodrigues, um time de primeiríssima, todos hão de admitir. Nelson escreveu várias histórias em quadrinhos e, em parceria com Alceu Penna, adaptou alguns clássicos, como “O fantasma de Canterville”, de Oscar Wilde, e “O mágico de Oz”, de L. Frank Baum. Nos desenhos, o já citado Acquarone e Calmon Barreto.

Crédito:Reprodução
"O Globo Juvenil"


Dois anos depois, a história que mais me agrada lembrar. Gibi era um gíria que significava carinhosamente menino negro, negrinho, como podemos ler hoje nos dicionários. Ao lançar uma nova revista em quadrinhos, em 1939, meu pai a batizou de “O Gibi”, cujo símbolo era um menininho negro. A revista fez tanto sucesso que virou sinônimo de quadrinhos no Brasil. A gíria caiu em desuso, perdeu seu sentido original, e ganhou outro, que dura até nossos dias. Foram tempos de “Fantasma”, “Flash Gordon”, “Capitão América”, “Homem de Ferro” e tantos outros, que faziam a alegria da garotada, inclusive a minha e de meus irmãos, que, anos mais tarde, devorávamos todas aquelas histórias assim que saíam da gráfica.

Um fato curioso é que logo no início, já em 1941, meu pai teve de enfrentar críticas de adversários que clamavam pela proibição dos quadrinhos, alegando que eles incitavam ao crime e a desvios de comportamento, campanha que voltaria com força também no início do regime militar de 1964. Meu pai reagiu como de costume, enfrentando com paixão e coragem o absurdo dos argumentos. E os quadrinhos continuaram firmes. Hoje, quando ouço argumentos semelhantes contra os games eletrônicos, alguns de fato violentos, lembro-me de meu pai contando sobre a campanha que os quadrinhos sofreram e recobro o bom senso: toda criança sabe o que é a fantasia e o que é a realidade. Cada época tem as suas polêmicas, mas elas às vezes têm a mesma origem: no caso, o esquecimento de que nós também já fomos crianças.

Crédito:Reprodução
"O Gibi"


Dos quadrinhos para as revistas de generalidades, foi um pulo. Antes mesmo de fundar a Rio Gráfica e Editora Ltda, em 1952, meu pai já tinha entrado nesse mercado: em 1944, comprou a revista “Rio” voltada, em especial, para o público feminino, com reportagens sobre cinema, música, teatro e balé, contos nacionais e estrangeiros e crítica literária e cultural. O que fazia sucesso mesmo, contudo, eram as notas sociais de Ibraim Sued, que iniciava ali uma pareceria com meu pai que duraria décadas. “As mais elegantes”, escolhidas pelo turco, como Ibraim foi carinhosamente chamado até o fim da vida, eram lidas com paixão, suscitando enormes debates.

Mas foi mesmo com a Rio Gráfica que o universo das revistas passou a fazer parte do nosso grupo de empresas, como um negócio bem estabelecido. Meu pai era um homem de jornal, sem dúvida, mas apaixonava-se por tudo o que era comunicação social. Assim como fez com o rádio e faria depois com a televisão, encantou-se com as revistas e gostava de acompanhar tudo de perto. Era a vez dos fascículos, das revistas femininas, como “Cinderela” e “Garotas”, e as campeãs de venda “Radiolândia” e “Cinelândia”, sem deixar de lado as infantis. 

A Rio Gráfica se tornou um dos maiores parques gráficos da América Latina, graças a investimentos vultosos. Lançamos, ano a ano, mais revistas femininas, como “Querida” e “Destino”, fotonovelas, mais infantis, como “Recruta Zero”, “Tex” e o imenso sucesso Sítio do Pica Pau Amarelo, revistas esportivas, como “Vela e Motor” e “Tênis Sport”. Em 1985, um marco, com o lançamento de “Globo Rural”, um êxito instantâneo, com 500 mil exemplares por edição em bancas no primeiro ano. Em 1986, com a compra da Editora Globo, de Porto Alegre, a Rio Gráfica foi mudando de nome, até ser totalmente rebatizada. Vieram, então, “Criativa”, “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, “Marie Claire”, “Galileu” e mais outros tantos títulos de grande sucesso.

Em 1998, demos um passo decisivo, com o lançamento de nossa primeira revista semanal de informação, “Época”. Com uma tiragem atual de cerca de 420 mil exemplares, a revista busca abordar de forma plural e aprofundada notícias e assuntos que vão de política e economia a comportamento, ciências e artes. “Época” rapidamente ocupou a segunda posição no mercado de revistas semanais brasileiras, e, hoje, tem uma influência decisiva nos debates nacionais. De lá para cá, as Organizações Globo deixaram claro a importância que dão ao segmento de revistas. São hoje 17 títulos, incluindo “Vogue”, “Casa Vogue” e “GQ”, uma parceria estratégica entre a Editora Globo e a Editora Condé Nast.

Como meu pai, sou também um apaixonado por comunicação. Se à época dele, o seu envolvimento no negócio era intenso, mas menos organizado e mais intuitivo, hoje, acompanho tudo tentando imprimir mais método, até mesmo porque sou forçado a isso pelo gigantismo do nosso grupo. A editora está profissionalizada, e a direção atua por delegação, com grande autonomia. Mas tanto eu como meus irmãos gostamos de traçar as metas e acompanhar a estratégia para atingi-las em reuniões regulares, onde debatemos tudo.

Nossa confiança no segmento continua grande e não é gratuita. A circulação aumenta continuamente desde 2005, e, o mais importante, em todas as classes (e não somente na tão falada nova classe “C”): hoje, são 362 milhões de exemplares. Se a publicidade não acompanha o crescimento do bolo publicitário, cresce acima da inflação, ou seja, tem um aumento real. Há, evidentemente, desafios grandes pela frente, e o maior deles é o mundo digital. Todas as nossas revistas têm sites ativos e criativos, com uma imensa multidão de leitores. Fomos pioneiros também em lançar edições especiais para os tablets: “Época” foi a primeira a fazê-lo em 2010.

Se somarmos a legião de leitores no mundo digital àquela que lê as edições impressas, posso dizer com muita segurança que as revistas nunca foram tão lidas na história. A internet e as plataformas digitais, em nenhuma hipótese, são um obstáculo, mas uma oportunidade ímpar. Estamos trabalhando firmemente, com uma equipe jovem, dedicada e de alto nível, para que saibamos aproveitá-la. Não importa a plataforma, haverá sempre espaço para uma produção jornalística revistada.

Todos esses anos à frente das Organizações Globo reforçaram em mim uma crença sempre alimentada por meu pai: com qualidade e esforço, chega-se sempre ao sucesso. Ninguém pode dizer o que o futuro reserva aos produtos impressos. Nossa crença, hoje, porém, é que o mundo digital não mata o impresso, mas pode complementá-lo e alavancá-lo da mesma forma que pode ser complementado e alavancado por ele. Com isso quero dizer que acredito que há boas chances de simbiose e que o canibalismo não é destino”.

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