Thursday, January 12, 2012

O desafio de ser quadrinista



Texto e ilustrações por Beto Leite
Rafael Coutinho é o tipo de cara que trabalha quadrinhos por todos os lados. Além de artista, é editor independente com o selo Cachalote, pela editora Barba Negra.  É o tipo de cara que todo quadrinista independente deveria conhecer. Eu o entrevistei ano passado no lançamento da aclamada Graphic Novel Cachalote em Natal. Mas você nunca vai ler essa entrevista porque o gravador deu pau. Quando soube que a Fliq ia trazer ele de novo, fiquei determinado em fazer algo descente.
A mesa do Coutinho na Fliq era sobre “O desafio de criar uma Graphic Novel”. Apesar de ter que explicar o que é esse bicho com o nome em inglês que não é literatura e nem deixa de ser quadrinhos, ele foi além e falou do mercado de HQs no Brasil, da creescente popularidade da nona arte e deu conselhos para os iniciantes.


Rafael lembrou que não temos grandes escolas de desenho. Mencionou que na Europa o cara estuda anatomia desde pequeno, depois segue uma faculdade só da área. Na argentina tem uma grande escola de realismo. Mas o quadrinho no Brasil não é mais novo que os outros. “A nossa cultura é muito mais antropofágica, as influências vêm dos mais diversos lugares. Só o mangá tem a tradição de um século por aqui.”
Ele lembra que a HQs nacionais são muito boas com tiras, humor e histórias curtas. As Graphic Novels só vem ganhando espaço agora por uma questão socioeconômica. “É muito difícil para um quadrinista  se dedicar a um trabalho grande se não pagam. Afinal, existe essa relação de tempo com dinheiro. O artista acaba abandonando antes de terminar.”

Foram dois anos e meio na produção de Cachalote. Coutinho lembra que o adiantamento da editora não é o suficiente para viver, e para tocar o projeto foi preciso muita dedicação e raça. “Você tem que procurar viabilizar isso de outras formas, com publicações independentes, trabalhos para agencias de publicidade. Nós conseguimos vender os direitos de Cachalote para o cinema e isso ajudou muito.”

“As dificuldades de se fazer uma Graphic Novel no Brasil acaba gerando uma relação nociva para a criação de quadrinhos.” Rafael Coutinho aponta que em um pais de poucos leitores, o governo é o principal comprador de livros, como material didático para as escolas. Então as editoras se voltam para a produção de adaptações literárias e de momentos históricos. “Nada contra esse tipo de quadrinho, se for bem escrito e desenhado, mas isso provoca um vício na produção nacional.”

Coutinho foi categórico: “Não comece pelas Graphic Novels”. Ele explica que é muito difícil não mudar o traço do desenho durante dois anos. “É preciso uma maturidade muito grande para que o seu quadrinho não vire um Frankenstein. Onde o leitor note que o traço muda com o decorrer da história.”. O roteiro também pode não sair dos melhores. “O seu primeiro roteiro tem grandes chances de ser o seu pior, então comece por histórias curtas, crie know how, é preciso ler muito e entender o quais são os melhores caminhos e saídas para sua história”. Rafael também aconselhou aos iniciantes separar o dinheiro da paixão. “Arrume um emprego que pague suas contas e concilie com o que você gosta. Essa relação vai acabar te engrandecendo também.”

Mensur é o nome do próximo trabalho do Rafael Coutinho. O Mensur trata-se de um duelo de espadas comum na Alemanha, organizado por fraternidades de universidades, onde os jovens desferem no rosto do oponente e as cicatrizes tem o valor de um troféu. Outra publicação que acabou de sair foi a versão impressa do “O beijo Adolescente”que vem sendo publicado de forma seriada no site da IG.
Em paralelo ele toca o Selo Cachalote que começou com o Projeto Mil, onde 100 edições de uma revista de quadrinho autoral, vendidas a dez reais, rende mil reais ao artista. Outro projeto bacana é o Gazzara, com trabalhos em quadrinhos em 4 posters de 60X40cm. O leitor compra o tubo com os posters por R$75,00, para colocar a HQ na parede e ler a história. O projeto já começa com nomes bacanas como  Rafael Sica, André Kitagawa, Heitor Yida & Mateus Acioli (uma dupla), Edu Medeiros e o argentino Berliac.



A Cachalote te inseriu nesse “grande” mercado editorial. Ele era aquilo que você esperava?
Eu não tinha ilusões do mercado editorial. A repercussão excedeu em muitos pontos  do que eu imaginava. Muito mais pelo retorno das pessoas. Teve gente fazendo peça de teatro com base na história. Pessoas nos mandaram e-mails emocionantes, eu e o Daniel Galera ficamos impressionados. Estamos batendo 6mil exemplares vendido agora no final do ano. É ótimo para um livro caro como é, em um mercado editorial que se vende pouco, para um país como o Brasil. Acho que todo mundo tem seu papel nesse jogo, eu, você, e todo mundo que faz quadrinho. Não somos mais fanzineiros fodidos, que fazia um lance em papel sulfite dobrado. Hoje você pode fazer obras lindas, bem impressas de forma independente. Além de vender e distribuir elas com mais facilidade.
Ano passado fomos convidados para muitos eventos. Eu não parei em casa. Isso não se deve só a Cachalote, mas ao momento nos quadrinhos que é muito do caralho.  Um evento que rola lá em Belo Horizonte (MG) é organizado por um amigo meu, da época que éramos fanzineiros.  Eu faço o mesmo, é uma rede que vai se construindo e formando um mercado.
Então a Cachalote teve um alcance diferenciado? Tomando como base outras publicações tuas?
O Galera foi o primeiro parceiro que eu tive que topou encarar um projeto de longo prazo, tão comprometido o quanto eu estava com o desenho. Isso aconteceu comigo também. O comprometimento do Galera com o roteiro me fez ter um comprometimento com o roteiro que eu nunca tive. Eu queria que aquilo ficasse do caralho. Outras tentativas que eu tive foram frustradas por que um dos dois disistia. Eu geralmente não desistia, era o cara do roteiro que ficava com preguiça. Ter que fazer a quarta, quinta, sexta versão do roteiro, o cara diz “porra desenha logo, termina essa merda e para de encher o saco”.
Então foi muito enriquecido a parceria com o Galera?
Foi muito. E não somos os porta-bandeiras dessa nova onda, já ta acontecendo a algum tempo. Em que escritores, desenhistas e romancistas estão encarando o quadrinho como uma coisa mais profissional.
Faltam bons roteiristas no Brasil?
Faltam.
A que você acha que se deve isso?
Cara, por uma série de motivos, culturais, existências, materiais, imaterias. Eu não saberia te resumir qual é o problema.
Vender o peixe ainda é um problema? Você vai a um evento tem que ficar explicando o que é uma Graphic Novel. Você acha isso um problema?
Não. Acho que a gente passa por um processo de educação. Passar essa mensagem para frente, deixar o quadrinho mais conhecido. Tem duas instâncias, uma é você lidar com um mercado brasileiro tentando bater a cota dos 20 mil vendidos, a outra é entender os 2 mil muito bem. Os 2 mil bem vendidos valem por 50 mil no Brasil. Não adianta me comparar a Marvel, DC ou com os americanos. Os independentes americanos também não batem seus números estratosféricos. Os europeus batem esses números mas tem muito ator de novela que escreve o roteiro, um romancista famosos que assina o roteiro. É sempre uma luta quando se faz um produto não comercial.
É um processo do roteirista, desenhista, trabalhador de quadrinhos que ele tem que ser o comerciante, o divulgador, ele tem que ter um projeto comercial mais bizarro e um autoral mais complicado, precisa lidar com essas forças.
Tem a ver com a fase adulta, cara. Tem a fase pré-adolescente de um desenhista, em que o mundo está contra ele e tudo é uma merda. Tem a outra que você tem que pagar suas contas, tem que ser feliz, tem que fazer sua vida andar no caminho que você quer que ela ande. Isso é uma coisa que transcende o quadrinho. É a vida, cara.
Com o Mensur você pretende fazer algo como o Pedro Franz está fazendo? Disponibilizando na internet?
Não, mas o Beijo Adolescente é assim. Eu curto essas coisas seriadas.




Fonte:
http://revistacatorze.com.br/2011/o-desafio-de-ser-quadrinista

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