Thursday, December 15, 2011

Frank Miller blog Civilização é conflito: Frank Miller, o Islã, e Occupy Wall Street
Escândalo no mundo dos quadrinhos: Frank Miller, o mais famoso quadrinista americano vivo, caiu matando no movimento Occupy Wall Street. O autor de graphic novels como Batman - O Cavaleiro das Trevas, Sin City, 300 e muitos outros gibis sensacionais soltou os cachorros em seu blog.
Chamou os manifestantes de "nada mais que uma gangue de vagabundos, ladrões e estupradores, uma horda estúpida, alimentada por nostalgia da era de Woodstock e um falso e pútrido senso de missão...". Melhor: "movimento, só se for dos intestinos".
E mais: "acordem, seus lixos... a América está em guerra com um verdadeiro inimigo... talvez vocês tenham ouvido os termos Islamismo e Al-Qaeda." Miller fechou seu sermão vociferando: vão se alistar no exército para deixar de serem bebês.
Leia aqui.
O cara está cuspindo fogo. Bebeu mal? Miller é chegado nums tragos. Ou será uma jogadinha de marketing para promover seu gibi mais recente, Holy Terror? O álbum trata de um super-herói usando métodos brucutu contra terroristas islâmicos. Críticas péssimas (não li ainda; o meu está no correio, chegando; poderia ter lido na internet, mas me recuso).
Miller diz que Holy Terror é "propaganda", como os gibis em que oCapitão América socava o nariz de Hitler. Três mil vizinhos meus foram assassinados, explica, e por mim os responsáveis pelo Onze de Setembro queimariam no inferno.
O tom geral das críticas contra Miller: é um fascista, nazista, direitista. Xingam que sempre foi tudo isso, desde os anos 80, e agora só piorou. O tiroteio foi geral. Nunca vi tanta gente politicamente correta. Parece que todos os fãs de gibi do planeta Terra estão acampados em alguma praça do mundo afora, enfrentando o "sistema".
Alguns chegaram a chamar um boicote contra as obras de Miller. A melhor cutucada foi em quadrinhos mesmo, ao estilo do próprio Miller, dica do amigo Marcelo Soares:
quadrinho pequeno ok Civilização é conflito: Frank Miller, o Islã, e Occupy Wall Street(clique na imagem para ampliar)
Miller não é "de direita", no sentido que entendemos no Brasil. É "libertarian", termo muito americano que não tem nada a ver com "libertário", que pelo mundo afora rescende a anarquismo e rebeldia.
Trata-se de corrente de pensamento que defende a supremacia da liberdade individual como o valor fundamental da sociedade. São extremamente desconfiados de leis, regulamentações, e Estado, e anticomunistas ferozes.
É turma com poder nos EUA - no Tea Party, por exemplo, movimento que determina a pauta dos pré-candidatos do Partido Republicano para a próxima eleição presidencial.
Miller é fã de carteirinha de três pessoas, as três mortas. Will Eisner, revolucionário cartunista, criador de The Spirit e da Graphic Novel. Mickey Spillane, mestre do romance policial brutamontes, proletário, maniquísta, cuja prosa Miller parafraseia em literalmente todos os seus trabalhos, há três décadas.
E Ayn Rand, influente escritora e teórica objetivista, e romancista criadora de impolutos heróis super-individualistas, que jamais se curvam à pressão social. Rand é muito importante, e ideóloga de cabeceira de pesos-pesadíssimos das finanças, da high-tech, mídia e mais. Na gringa e aqui também. Leia aqui.
A superdesregulamentação do sistema financeiro internacional foi inspirada por Rand, e capitaneada por Alan Greenspan, seu discípulo, ex-presidente do Banco Central americano. A crise de que reclamam os militantes do Occupy tem o DNA de Rand.
Mundo pequeno, e conexão que escapa, ou não importa, a Mr. Miller. Frank mantém acesas as velinhas para a tríade, mas o ataque às Torres Gêmeas fez ele ajustar sua posição. Sempre esteve muito à vontade no papel de bad boy, peitando o establishment.
Continua, mas se descobriu patriota, "por auto-preservação", explica, e patriotas são "meu país, certo ou errado", e porrada no dissenso. Se for ripongo e reclamento, porrada pra sangrar.
Como a maioria de nós, com a idade Miller se torna cada vez mais quem é, preto no branco. Sabia perfeitamente bem que Holy Terrorprovocaria reações fortes. Idem no texto contra o Occupy Wall Street.
Talvez, encapsulado em seu apartamento em Hell's Kitchen, alguns quilômetros das ruínas do World Trade Center, não tenha calculado com precisão a fúria da rejeição.
(Clique na imagem para ampliar)
Prefiro pensar que fez de propósito, e soltou neste exato momento este texto justamente para causar o máximo de polêmica. Para alienar quem queria alienar, e atrair para ler seu gibi as pessoas com quem quer de fato se comunicar, quem compartilha de seu ideário ou, pelo menos, odeia com a mesma paixão o inimigo comum.
Para Miller, enfrentar o islamismo é imperativo moral equivalente a enfrentar o nazismo, nos anos 40. Discorde ou concorde, é fundamento sólido para os gibis e discursos que anda cometendo.
A reação mais equilibrada veio de antípoda ideológico de Frank Miller. Mark Millar, escocês, talvez o escritor de quadrinhos mais bem-sucedido financeiramente da nova geração, fez fama sacaneando maldosamente tudo que é sagrado princípio do american-way-of-life que você puder imaginar.
Trabalha para grandes editoras remodelando velhos super-heróis, ganha fortunas vendendo para o cinema gibis que criou, comoProcurado Kick-Ass. Em seu fórum, Millar defendeu Frank.
Veja aqui.
Disse que boicotar Miller seria como boicotar H.P.Lovecraft, Steve Ditko, David Mamet ou qualquer outro autor de cuja opinião política discorda. Lembrou um momento muito semelhante, dez anos atrás, quando publicamente criticou os Estados Unidos por iniciar a guerra do Iraque.
Milhares de leitores pediram sua cabeça, exigindo que a Marvel o demitisse. O então publisher da editora, Bill Jemas, bancou Millar, dizendo que uma das boas coisas da América é que você podia dizer o que pensa sem medo de perder o emprego.
É só parcialmente verdade. Mas é totalmente verdade que em alguns cantos do mundo onde o Islã pesa na política, você não pode pensar diferente do que diz o livro sagrado, sob pena de perder o emprego, a liberdade e até a vida.
A imposição de visões religiosas radicais sobre sociedades civis é, neste sentido, "o inimigo". Chutou o balde para explicitar isso, usando as tintas fortes de um cartum.
Exerceu seu direito pessoal e artístico de dar um tapa na cara de quem, a seu ver, merece. Levou uns bons de volta. Está orgulhoso, imagino. Civilização é conflito.
Mark Millar arrematou dizendo que "liberalismo não é jogar na cadeia caras que discordam do SEU liberalismo. Significa aceitar que uma sociedade é mais rica quando todo mundo tem sua própria voz."
Miller assinaria embaixo - furioso. E você?
Fonte:

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