Friday, November 4, 2011

A Menina da Lata de Lixo

Por Rickys

             O restaurante universitário iria fechar em vinte minutos e eu teria que correr para conseguir chegar em tempo para poder almoçar. Então fui pelas calçadas em disparada tentando economizar tempo e passos. Ao entrar em uma determinada rua vi, um pouco adiante, uma garçonete sair de um restaurante e colocar  comida em um recipiente para os cães,  na calçada (Essa é uma prática normal aqui em Pelotas). Porém, algo de incomum aconteceu.

             Assim que a garçonete retornou para dentro  do  estabelecimento, uma menina de uns sete anos, de roupas limpas, de cabelo curto, de pés em chinelo havaianas, foi até o recipiente e se serviu do alimento com a voracidade de animal faminto. Eu me aproximei dela não sabendo como agir; se pensava algo... se parava e ficava olhando sua atitude... Não sabia nem se pensar em alguma coisa ajudaria de fato. Era uma cena muito fora de contexto; era uma atitude até aceitável perante a miséria humana perpetuada nos tempos. Entretanto, era uma verdade crua; uma miséria impactante; um gesto; um berro monstruoso que mostra as faces da vida; vidas aflitas; vidas secas; vidas sem grandezas; vidas onde farelos são doces, e restos banquetes.
                Passei por ela evitando sua figura destoante. Quando eu iria dobrar a esquina olhei para trás e a vi  correr para as lixeiras grandes no outro lado da rua. Nelas, uma mulher, no mínimo sua mãe, procurava a sua sobrevivência resumida ao alumínio, ao papel e ao plástico que fora dos reis do lixo. Não fiquei chocado com a coletora, essa é uma atitude comum em Pelotas... Mas a menina entrou na lixeira com a mesma alegria criança de quem entra em uma piscina de bolinhas... Era engraçado vê-la sorrir. Era triste não vê-la triste. Mas enfim, consegui rir  vendo sua alegria. Era só uma criança livre de pré-conceitos. Livre de vergonhas elitistas que impedem a liberdade de um sorriso verdadeiro sem arrogância, sem ironias, sem vergonhas estúpidas... Passado o choque, lembrei que era tarde e minha fome roncava... Assim, voei para conseguir almoçar.
              Retornei pelo mesmo caminho ao voltar do almoço  do almoço para ver se a menina continuava em sua alegria pura, a lixeira estava vazia. Era então só uma lixeira, um local para armazenar o que não tem mais serventia para muitos. Do outro lado da rua um cão lambia, com a tristeza de quem foi logrado, o recipiente onde deveria matar sua fome.
Caminhando para casa pensei em fazer algo por aquelas pessoas... Ajudá-las de qualquer forma. Eu escreveria uma crônica e a publicaria para denunciar o problema ao mundo. Eu veria como se funda uma ONG... No entanto, acabei esquecendo este plano. Precisava cuidar da minha vida. Tecer metas para ter grana, para ter um bom futuro, um carro do ano, um apartamento grande com uma lixeira que coubesse todas as embalagens de meus escapismos... Além do mais, pensei melhor na questão da solidariedade no momento em que me achei um crápula por ser tão despreocupado com o mundo, e fiquei tranquilo por ser omisso, pois, a minha atitude de ignorar os problemas sociais é normal não só em Pelotas, mas também, em qualquer parte do mundo.
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