Friday, November 11, 2011

Entrevista com o quadrinista Marcatti

Por Renato Lebeau | 28 outubro de 2011


No começo desse mês de outubro publicamos um post para falar que estava em nossos planos uma entrevista com o quadrinhista Marcatti, que é a maior referência de quadrinhos undergrounds e escatológicos do País.
Na ocasião divulgamos que queríamos dividir a oportunidade com você leitor do Impulso HQ, e fizemos uma promoção que você deixava a sua pergunta na área de comentários do post e se ela fosse selecionada, você automaticamente estaria concorrendo a um álbum autografado pelo quadrinhista.
Pois bem, hoje é o dia de você conferir a entrevista com o artista mais conhecido do cenário alternativo de quadrinhos brasileiros, e ainda no final saber se foi você o sortudo que ganhou o álbum.
Na entrevista Marcatti fala sobre a sua carreira, suas opiniões sobre o cenário atual dos quadrinhos brasileiros, explica porque parou de produzir quadrinhos, as dificuldades que teve para publicar as suas histórias, sobre seus álbuns e muito mais!
Impulso HQ: Você é conhecido no cenário nacional de HQs, principalmente pela temática escatológica. Por que você decidiu trabalhar com esse estilo?
Marcatti: 
Não foi uma decisão racional. Desde que comecei a desenhar, minha atenção sempre foi voltada ao humor. Minha formação, minhas influências… Sempre foi o humor. Mesmo na fase em que minhas HQs eram meio pessimistas (de 1981 a 1986), o componente humorístico estava latente.
A escatologia veio não sei de onde. Quando começo a desenvolver uma nova história, não penso nem na escatologia nem no humor. Toda a base inicial nasce de argumentos sérios, alguns até tristes, melodramáticos. Se alguém lesse meu rascunhos iniciais, pensaria que naquele estágio, eu estaria me dedicando a escrever uma novela mexicana (rs).
Tanto o humor como a escatologia vêm naturalmente. Acredito que se tomasse essa decisão previamente, a narrativa soaria forçada. Como se houvesse uma obrigação em fazer rir ou sentir nojo. Acho que usar a escatologia como base, não me permitiria aprofundar o tema da história.
IHQ: Alguma vez encontrou dificuldade em publicar alguns de seus trabalhos?
Marcatti:
 É mais fácil pensar se alguma vez encontrei facilidade em publicar… Quando eu me autoproduzo, as dificuldades são enormes. Levantar dinheiro para imprimir, canalizar distribuição, promover a publicação, vender… Facilidade só encontrei com meus livros pela Conrad (Mariposa, 2005 e A relíquia, 2007), Opera Graphica (FRAUZIO – Questão de paternidade, 2001) e Devir (Frauzio – Ares da primavera, 2009).
IHQ: Você ainda possui a sua máquina de cópias dos seus primeiros zines?
Marcatti: 
Não tenho mais. A máquina era uma Rex Rotary, impressora offset de mesa muito ruim. O projeto original da fábrica já era lastimável. Na época, meu sonho de consumo era adquirir uma impressora melhor. Existiam várias marcas muito superiores em qualidade. Mas muito mais caras! Para piorar, a minha máquina sofria de problemas mecânicos crônicos que, por não ter dinheiro, era eu mesmo quem consertava (com gambiarras, é claro)… Exatamente por isso que em certo dia ela deu seu suspiro final. Por volta de 1997, vendi para uma pessoa que tinha condições e conhecimento técnico para restaurá-la.
IHQ: Por que você parou de produzir HQ?
Marcatti: 
Desde que publiquei minha primeira HQ, fiquei mal acostumado (Revista Papagaio nº 1, 1977)… Nunca fiz histórias “de gaveta”. Sempre produzi com algum objetivo imediato de publicação. Por isso que, de 1977 a 1981, produzi somente 4 histórias. Meu período mais produtivo foi quando tinha a impressora.
Cada HQ já nascia com destino traçado: tal edição de tal revista. Quando a máquina “morreu” (início de 1993), eu fiquei editorialmente órfão. Junto com isso, acumulei duas terríveis experiências com editoras que me causaram toda a espécie de prejuízos (Ed. Vidente / Revista Tralha e Sampa / RxDxPx nº 2).
Fiquei na geladeira por sete anos. Foi quando o Worney encabeçou o projeto da coletânea Restolhada (Opera Graphica, 2000). Esse livro iniciou meu contato com o Carlos Mann que abriu as portas para o nascimento do Frauzio (Escala, 2001) e o álbum FRAUZIO – Questão de paternidade.
IHQ: Como foi adaptar A Relíquia de Eça de Queiros? O que motivou você a fazê-lo?
Marcatti: 
Logo que saiu livro Mariposa, eu tinha uma excelente relação com toda a equipe da Conrad. Na época, ainda não havia o “estouro” de adaptações literárias mas eu sempre gostei muito do trabalho do Hunt Emerson (quadrinhista britânico). Eu já admirava bastante o trabalho que ele desenvolveu com O amante de Lady Chatterley (LPM, 1988). Mas A última noite de Casanova (Conrad) foi, para mim, avassalador. Procurei o Alexandre Linares, que na época era meu editor na Conrad, e lhe apresentei meu projeto de adaptar Plínio Marcos para quadrinhos.
De início, ele gostou da idéia, mas alguns dias depois, me enviou um exemplar de A relíquia de Eça de Queiroz. Por telefone, ele me disse: “Marcatti e Plínio Marcos chega a ser óbvio… Inusitado é ver o Eça através do seu traço e do seu humor”.
Eu levei 18 meses nesse trabalho. Só sei disso porque tenho tudo anotado. Mas em minhas lembranças, essa adaptação foi tão estimulante e prazerosa que parece que o trabalho foi simples, fácil e rápido; tudo graças ao brilhantismo da história original (até então nunca havia lido Eça de Queiroz) quanto à total liberdade que a Conrad me deu.
IHQ: Você acredita que o Brasil já achou o seu estilo de quadrinho?
Marcatti: 
Não e espero que jamais encontre! Aquilo que nós temos de melhor, não deve ser perdido nunca. Você olha um quadrinho belga e sabe que ele é belga. Você olha um quadrinho francês e sabe que é francês. A única coisa que define o “quadrinho brasileiro” é a nacionalidade de seus autores. É fascinante apreciar nossa diversidade. Até mesmo mangás feitos aqui (e que conservam nosso “sotaque”) possuem um sabor diferente. E esse sabor (e sotaque) não é o mesmo que degustamos em outros estilos. Se algum dia o Brasil achar um estilo,perderemos nossa fluência, nossa fluidez, nossa “identidade universal”.
IHQ: Como você enxerga o cenário nacional de quadrinhos undergrounds?
Marcatti: 
Talvez com datação por carbono 14 (rs).
Para mim, o “underground” passou a ser uma pecha. Esse termo tem hoje uma conotação perfeitamente substituível por “alternativo”, “independente” ou qualquer outro que determine a viabilidade técnica de sua produção. Não tem mais nada a ver com estilo ou forma de linguagem. Essa era sua marca em décadas passadas, mas hoje perdeu completamente o sentido.
No sentido de publicação independente, o quadrinho nacional precisa manter essa forma viva. E é natural que isso aconteça. Publicar é a única forma que um autor, seja desenhista ou roteirista, tem para amadurecer e se desenvolver. As publicações independentes são a melhor oportunidade de experimentar, arriscar e, ao mesmo tempo, se expor. Em um cenário ideal, as editoras grandes ou pequenas seriam os maiores consumidores desse segmento. Através dessas publicações, os editores poderiam avaliar aquilo que, sob sua ótica e seus critérios, são interessantes para um lançamento comercial. Se é obvio que na realidade de nosso mercado as editoras não podem se arriscar, também seria óbvio que elas acompanhassem os resultados desse imenso laboratório que são as publicações alternativas, os zines etc.
IHQ: Dos seus trabalhos qual é o que você mais admira? Por quê?
Marcatti:
 Não sou um bom leitor do meu trabalho… Tenho muita dificuldade em reler uma HQ minha depois de publicada. Não consigo “gostar” ou mesmo apreciar meu trabalho. Começo a ler e fico criticando meus próprios erros e fazendo anotações para não cometê-los novamente.
Mas algumas HQs me dão orgulho de tê-las feito. É o caso de Creme de milho com bacon (PRO-C, 1991) e Mariposa. Mas é um sentimento perigoso… Corro o risco de admirar alguma coisa, algum ponto específico e, mais tarde utilizar tal recurso, quando na verdade pode não ter sido esse tal ponto que agradou ou emocionou o leitor.
IHQ: Você já se imaginou como um personagem de suas histórias?
Marcatti: 
Não… Hemorróidas, dentes podres, cascas de ferida… Infelizmente não tenho o paladar refinado de minhas personagens.
IHQ: Qual é o seu recado para aqueles que querem trabalhar como quadrinhistas?
Marcatti: 
Trabalhar o tempo todo… Pensar no trabalho o tempo todo… Fazer autocrítica do seu trabalho o tempo todo. Eu sempre fiz isso. Mas tem algo que não fiz e que faz muita falta: independentemente do tempo de experiência, saber se impor como autor e profissional quando lidar com editores, contratantes etc.
PERGUNTAS DOS LEITORES:
Matheus Moura:
Dentro do cenário de HQB não existe nada tão escatológico como o que você faz. Há diferença da sua maneira em abordar essa vertente para o nojento puro e simples? Se sim, o que? Caso não, como aproximaria?
Marcatti: Não sei se existe outro insano como eu andando por aí… Pelo bem da saúde pública espero que não. (rs)
Eu não gosto de pensar no meu trabalho como escatológico, nojento… Sei que é exatamente isso que meu quadrinho é, mas não penso desse modo quando desenvolvo uma HQ. Quero dar substância, solidez e força a cada história. A nojeira vem naturalmente e o humor é consequência…
Diego de Moraes:
Marcatti, nos conte, por favor, como ocorreu sua parceria com o Glauco Mattoso em “As aventuras de Glaucomix, o pedólatra”. Como vocês se conheceram? Demorou quanto tempo para terminar o álbum? Como foi esse processo de desenhar baseado na biografia de um escritor respeitado no circuito underground?
Marcatti: A ideia partiu do Glauco na época que colaborávamos com a Chiclete com banana (Angeli/Circo, meados de 1980). O Glauco tinha todo o projeto desenvolvido em sua cabeça antes de me procurar. Tanto que ele me deu um exemplar do seu livro Manual do podólatra amador com trechos marcados em vermelho que fariam parte da primeira HQ.
Basicamente, o mecanismo era esse: ele escolhia um trecho, desenvolvia parte da quadrinização e me passava suas notas. Depois que a HQ ficava pronta, o Glauco escolhia outro trecho e o processo continuava.
Falando assim, parece até muito prático e burocrático. Quando, na verdade, foi um trabalho extraordinário. Durante dois anos, desenvolvi uma grande admiração pelo Glauco, por sua forma de trabalhar, por sua lucidez narrativa e pelo seu profissionalismo. Minha grande dificuldade foi conter meus próprios ímpetos. Se, por um lado, me é natural “enfiar a mão” nas histórias e remexê-las a meu modo, de outro, eu queria muito preservar e aprender com a forma brilhante como o Glauco trabalha.
Durante todo processo, ele não se postou como “o autor que acompanha uma adaptação”. Ao contrário, o Glauco Mattoso foi o grande responsável por essa adaptação, pois contava com a liberdade plena que só ele poderia ter sendo o autor da obra original. Grande parte de meus métodos de trabalho é fruto do que aprendi enquanto trabalhei com ele.
Bira Dantas:
Marcatti, você acha que seu combate ao status quo hipocritamente moralista imposto por essa sociedade tacanha e ultrapassada rendeu frutos? Quais?
Marcatti: Todas as vezes que eu penso em combater alguma coisa ou levantar um bandeira, pego minhas anotações, rasgo-as com vontade e vou fazer outra coisa… Minhas histórias do início dos anos 1980 são exatamente isso e não me orgulho nem um pouco de tê-las feito. Não quero combater nada com meu trabalho. Existem outros fóruns mais eficazes para isso. A melhor forma de humor é simplesmente jogar merda no ventilador. O que espirrar pode dar muitos frutos, mas o primeiro gesto é sempre o mesmo.
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Parabéns Diego de Moraes, você é o ganhador do álbum autografado pelo Marcatti. A equipe do Impulso HQ entrará em contato para anotar seus dados de envio!
Até a próxima e fiquem ligados aqui no Impulso HQ!
Fonte:

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