Thursday, November 17, 2011

Criatividade e polêmica a toda prova

Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, John Byrne comenta os grandes momentos de sua carreira, fala de seus projetos atuais e futuros, conta quais são seus ídolo e detona Joe Quesada e Bill Jemas, os homens que comandam a Marvel

Equipe UHQ


O prolífico John Byrne que, entre outras coisas, já desenhou X-Men, Namor, Quarteto Fantástico, Hulk, Vingadores, Mulher, Marvilha, Novos Deuses, Batman, Mulher-Hulk, OMAC, Capitão América, Tropa Alfa, Wolverine e também foi responsável pelas reformulações do Super-Homem e do Homem-Aranha No dia 6 de julho de 2002, o inglês John Lindley Byrne completará 52 anos. Há 26 anos no mercado de quadrinhos, esse roteirista, desenhista e (às vezes) arte-finalista é dono de um currículo invejável, pois trabalhou com personagens como Super-Homem, X-Men, Hulk, Quarteto Fantástico, Novos Deuses, Batman, Homem-Aranha, Mulher-Maravilha, Vingadores, Mulher-Hulk, OMAC, Capitão América, Namor, Tropa Alfa, Wolverine e muitos outros.

Responsável por diversas reformulações (sendo a mais famosa delas a do Super-Homem), Byrne é tão criativo quanto polêmico. Suas obras são capazes de despertar nos leitores os mais antagônicos sentimentos, como ódio e paixão, ou repulsa e admiração. Mas é inegável que seu nome, por si só, já é garantia de visibilidade para qualquer título.

No Brasil, os leitores estão acostumados a ver suas histórias de super-heróis, mas poucos sabem que seu primeiro trabalho publicado por aqui foi uma HQ de ficção, em preto e branco, na saudosa revista Spektro (que já foi tema da coluna Museu dos Quadrinhos).

Atualmente, John Byrne assina uma coluna no site Slush Factory e está produzindo a série Lab Rats, para a DC Comics.

Entre um trabalho e outro (ele está fazendo até tiras de jornais, acredite!), esse prestigiado artista concedeu uma extensa e interessante entrevista exclusiva ao Universo HQ, na qual fala de seus futuros projetos; de seus ídolos; da parceria com Chris Claremont, em X-Men; da fase à frente do Super-Homem; de adaptações de quadrinhos para o cinema; das diferenças entre trabalhar para a DC e a Marvel e muito mais. De quebra, Byrne ainda "soltou o verbo" contra Joe Quesada e Bill Jemas, os homens que dirigem a "Casa das Idéias".

Portanto, acomode-se na sua cadeira e prepare-se! Vem aí, Mr. John Byrne!


Lab Rats #1, trabalho mais
recente de John Byrne Universo HQ: Como e por que você começou se interessar por quadrinhos?

John Byrne: Eu vi o programa de TV The Adventures of Superman, na Inglaterra, quando tinha por volta de seis anos. Logo após, encontrei uma encadernação em capa dura chamada Superman Annual, reimprimindo histórias americanas em preto e branco. Um tempo depois, li a minha primeira história do Batman. Fiquei viciado desde então!

UHQ: Qual a sua primeira história paga? Onde ela foi publicada?

Byrne: Essa pergunta pode pregar mais peças do que você pode imaginar! Mas a simples resposta é uma história de duas páginas chamada Do Not Disturb, que apareceu num agora defunto tablóide no estilo jornal/fanzine, cujo nome era The Monster Times.

UHQ: Foi um caminho difícil até conseguir isso?

Byrne: Variou um pouco. Eu poderia ter feito tudo ser muito mais fácil pra mim mesmo, se tivesse me mudado desde o início para Nova York. Mas eu era um garoto do Canadá, e estava assustado com a cidade grande! Levou uns quatro anos para me tornar um "sucesso da noite para o dia".

UHQ: Qual é o seu personagem favorito? E a sua história predileta?


Iron Fist #8, publicado no Brasil como Punho de Ferro, pela Editora Abril, na antiga revista Heróis da TV Byrne: Teve um tempo em que eu tinha que escolher entre o Batman e o Capitão América como meu personagem predileto, mas eu me inclino um pouco mais para o lado do Batman. A história favorita é um pouco mais difícil de escolher, mas acho que diria Meet Doctor Doom, da revista Fantastic Four #5 (Nota do UHQ: a primeira aparição do Dr. Destino, numa história do Quarteto Fantástico produzida por Stan Lee e Jack Kirby). Foi a que me introduziu à Marvel.

UHQ: Quais os artistas que influenciaram sua obra?

Byrne: Nossa, são tantos! Shakespeare, Asimov, Tolkien, Niven... e, é claro, Stan Lee.

UHQ: Ficção científica é um tema constante em seus trabalhos. Quais seus escritores e obras preferidos?

Byrne: Quase respondi essa pergunta na anterior! Vamos fazer assim: Asimov, pela trilogia Robots and the Foundation; Niven, por Known Space Cycle; Frank Herbert, por Dune (a primeira); e Edmond Hamilton, por causa de um livro maravilhoso, City at World's End.

UHQ: Muitas das histórias que você fez na Marvel foram escritas por Chris Claremont (Nota do UHQ: Punho de Ferro, Marvel Team-Up, Luke Cage, Miss Marvel, X-Men, Starlord). Fale-nos sobre essa longa parceria. Como foi trabalhar ao lado dele tanto tempo? Como é seu relacionamento com Claremont hoje?


Marvel Team-Up #67, de março de 1978, uma das revistas produzidas em parceria com Chris Claremont Byrne: Costumo dizer que eu e Chris fomos casados por cinco anos, com um divórcio muito tumultuado no final. Ele ficou com os filhos, que já eram seus... de um casamento anterior.

Nós dois temos uma relação bem no estilo Gilbert & Sullivan (Nota do UHQ: Dupla de artistas ingleses, do final do século 19 e começo do século 20, famosa por suas óperas e peças de teatro) - o brilhantismo (e havia brilhantismo) veio mais de nossas duas cabeças grandes se batendo, do que de uma real síntese de visão. Estávamos constantemente tentando passar um ao outro. Era uma competição onde, em última instância, os fãs ganharam.

UHQ: E a sua relação com Terry Austin? Muitos de seus trabalhos são arte-finalizados por ele. Você tem algum preferido? Por que você passou a arte-finalizar seu próprio trabalho?

Byrne: Eu voltei a arte-finalizar meu próprio desenho, em grande parte, porque Terry desistiu do Quarteto Fantástico. Não havia mais ninguém disponível, pelo menos ninguém bom. Daí, pensei que se fosse pra alguém entrar e bagunçar a revista, esse alguém deveria ser eu!

Levei vários anos e muitos falsos começos para realmente aprender essa arte. É encorajador quando a maioria dos fãs diz que eu sou o meu melhor arte-finalista. Queria dizer que, provavelmente, eu estava indo na direção correta!

Tive o prazer e a honra de trabalhar com grandes arte-finalistas. Joe Sinnott, Tom Palmer, Herry Ordway e, é claro, Terry. Cada um trouxe algo especial e (aí vai uma palavra muito usada, mas que se aplica bem) único ao trabalho.

UHQ: Sua trajetória nos X-Men é, até hoje, relembrada com carinho pelos fãs, e considerada possivelmente a melhor fase dos personagens. Você esperava tamanha repercussão? O que o fez deixar o título?


The Uncanny X-Men #141, um dos clássicos produzidos pela dupla Claremont/Byrne, com arte-final
de Terry Austin Byrne: Eu deixei o título, porque não concordei com Chris [Claremont] sobre as caracterizações dos personagens, até que, um belo dia, finalmente me cansei disso. Não importa o que eu estivesse pensando, era o que ele escrevia que acabava sendo impresso. E se eu não estava gostando do que ele estava escrevendo, no final das contas, isso significava que não estava gostando dos personagens.

Por sorte, abriu uma vaga no Quarteto Fantástico, e Shooter (Nota do UHQ: Jim Shooter, editor-chefe da Marvel na época) me ofereceu a revista.

Tanto eu quanto o Chris não tínhamos a mínima noção de todo o impacto do que estávamos fazendo. Como disse, estávamos apenas em uma competição criativa, tentando constantemente passar um ao outro. Gostaria muito que a revista não tivesse o impacto que teve. Eu culpo a morte da Fênix - ou melhor, a percepção errada e as lembranças nebulosas das pessoas em relação à revista - por isso. Por exemplo, muitos dos problemas que assolam a indústria até hoje derivam disso.

UHQ: Como foi a polêmica da mudança do final da saga da Fênix Negra? (Nota do UHQ: a versão original não incluía a morte de Jean Grey - ou melhor, do que posteriormente foi chamado de Fênix. Haveria um combate com o Professor Xavier e, no final, ela sofreria uma lavagem cerebral).


Phoenix: The Untold Story, edição especial que mostra o final original da saga da Fênix Negra Byrne: Na ocasião, odiei. Mas percebi muito rápido que o que fomos obrigados a fazer era uma história melhor do que a que tínhamos planejado. Só gostaria que Chris também tivesse percebido isso, e deixado tudo como estava.

UHQ: Anos depois, você voltou aos mutantes com X-Men: Hidden Years, mas o cancelamento da série foi marcado por alguns problemas. Como estava sendo retomar esses personagens no início de suas carreiras, e como recebeu a notícia do cancelamento? Hoje, um ano depois, o que pensa sobre tudo isso?

Byrne: Se pudesse dizer que eu tinha um projeto dos sonhos, algo que era um objetivo na minha carreira desde antes mesmo de começá-la, X-Men: The Hidden Years seria ele. É um título que eu queria fazer desde a primeira vez que li os X-Men de Thomas/Adams/Palmer, alguns anos depois da revista ter sido cancelada.


X-Men: The Hidden Years #1, publicado no Brasil
como X-Men: Anos Incríveis Eu falei sobre algo nesse estilo antes, quando X-Factor começou, mas o editor-chefe Tom DeFalco disse: "Outra revista chamada X-Men vai dar muita confusão". Uma certa falta de visão (Nota do UHQ: atualmente, existem, nos Estados Unidos, três revistas dos X-Men - Uncanny X-Men, New X-Men e X-Treme X-Men, sem contar Ultimate X-Men).

Foi maravilhoso trabalhar em Hidden Years. Foi a revista na qual eu mais me diverti, entre todas que fiz. Por um lado, eram os X-Men originais, a equipe original. Os "novos" personagens foram divertidos à sua maneira, mas esse era o título e os personagens que eu mais gostava.

Um ano depois, ainda estou muito chateado com a maneira como o título terminou. Não pelo cancelamento em si, pois já tive outras revistas canceladas antes - entretanto nenhuma que ainda estivesse dando lucro. O que me deixa chateado são as mentiras sem fim que vomitam do lugar onde costumava ser a Marvel - a qual eu passei a me referir como M*rv*l.


Arte de capa de X-Men: The Hidden Years #22, último número da série Só espero que, algum dia, haja alguma maneira de salvar a companhia. Como um colega escritor comentou há algum tempo, durante os loucos dias de Jim Shooter, ele se sentia trabalhando na M*rv*l como se nossos amigos (os personagens) tivessem sido seqüestrados. Agora, é como se eles tivessem sido assassinados.

UHQ: A Tropa Alfa foi criada por você, e sua melhor fase é justamente a que tem seus desenhos e roteiros. Por que deixou a revista? O que acha do trabalho realizado depois de sua saída?

Byrne: Meu grande problema com a Tropa Alfa foi resumido na sua pergunta: eles foram criados para uma história dos X-Men, nunca para estrelarem um título próprio. Eles nunca pareceram reais pra mim, não importa quantas histórias eu fizesse. Depois de dois anos, senti que não havia mais nada pra dizer ou para fazer com eles.

Eu nunca li nenhuma versão da Tropa Alfa depois da minha saída.

UHQ: Durante seu trabalho no Hulk, muita gente achou que você mataria o personagem. Isso passou pela sua cabeça?

Byrne: Não imagino porque alguém poderia pensar isso. Nada poderia estar mais longe de minha mente.


Fantastic Four #260 UHQ: O Quarteto Fantástico é, sem dúvida, um dos trabalhos ao qual você é mais ligado. Sempre foi fã da equipe? Qual o personagem que mais gostava? Você voltaria a escrever suas histórias?

Byrne: Me perguntam freqüentemente se eu retornaria ao Quarteto Fantástico e, por mais que eu sinta a falta deles - durante o tempo em que trabalhei na revista, os personagens se tornaram quase como uma família para mim -,acho que um retorno é improvável.

Em primeiro lugar, minha passagem no título chegou a um status lengendário. "Perde apenas para a fase de Lee e Kirby", dizem os fãs. Verdade? Difícil dizer, mas a única coisa mais difícil do que competir com uma lenda é ter que competir com sua própria lenda!

Quarteto Fantástico, como disse antes, foi a revista que me introduziu à Marvel. Foi uma daquelas experiências que mudam a nossa vida. Eu me apaixonei por aqueles personagens, desde o momento em que os conheci. E foi um momento surpreendente quando me ofereceram o trabalho de desenhar e escrever suas aventuras.

O meu favorito entre os quatro, provavelmente, é o Coisa. Mas a Sue vem em segundo, muito perto!

Fonte:

http://www.universohq.com/quadrinhos/entrevista_byrne01.cfm

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