Thursday, November 24, 2011


Brasília em quadrinhos

Se você é daqueles que acredita que revista em quadrinhos é coisa de criança, está na hora de conhecer as histórias de e para adultos produzidas na capital do país. A turma que reúne roteiros descolados e desenhos criativos veio para ficar. Temas como sexo, drogas e rock’n roll preenchem tiras e páginas de revistas independentes. Mas não só de subversão vivem os desenhistas da nova geração: colocam no papel seus corações feridos e doses fartas de existencialismo.
Caio Gomez chega até mesmo a se desenhar nas tiras em que publica no jornal Correio Braziliense, aos sábados, revezando com colegas ilustradores da casa. “A ideia do editor de cultura era fazer só quadrinhos sobre Brasília, mas com o tempo, a gente saiu disso”, conta. “No jornal tem que pegar leve, não pode usar certos temas, não pode falar palavrão e nem falar mal de nenhum político específico”, explica o ilustrador que considera os quadrinhos que desenha autobiográficos.
A inspiração vem de sentimentos ou de ideias do momento. “É como escrever”, revela. No fim da época da seca, Caio desenhou uma tira que se transformou em um viral no facebook, com dezenas de compartilhamentos e um alto grau de identificação dos brasilienses.
Para o ilustrador, a cena dos quadrinhos em Brasília é promissora. “O pessoal está produzindo cada vez mais. Em todo lugar que a gente vai vender revista aparece alguém novo de Brasília”, afirma. Caio conta que é comum que os ilustradores acabem fazendo quadrinhos em algum momento da carreira e isso movimenta a cena. “É legal ver que o pessoal está investindo em revistas independentes.”
É o caso da revista Samba, que já lançou dois volumes com projeção internacional e foi premiada como melhor publicação na Feira de Quadrinhos do Piauí. Três amigos juntaram-se para fundar uma editora independente e já publicaram, além da Samba, outras três revistas, todas de histórias em quadrinho para adultos.
A Samba é o produto independente de maior destaque no cenário dos quadrinhos em Brasília. Gabriel Mesquita é um dos editores. Trabalha em um banco seis horas por dia e, no restante do tempo, dedica-se à editora. “Conheço poucas pessoas que vivem exclusivamente de quadrinhos e nenhuma que vive de quadrinhos autorais”, revela. No Brasil, os salários mais expressivos na área são dos ilustradores que trabalham para as grandes editoras, especialmente as americanas.
Gabriel acredita que o cenário de quadrinhos na capital do país ainda é tímido. “A gente ainda tem pouca coisa e as perspectivas ainda não são tão interessantes quanto no Rio de Janeiro ou em São Paulo, mas Brasília melhorou muito”, diz. Para o ilustrador, a linguagem dos quadrinhos está cada vez mais em evidência e influencia outros meios de comunicação. “Cada vez mais o cinema, a literatura, a publicidade se apropriam da linguagem dos quadrinhos”, afirma. “E tem cada vez mais autores produzindo no Brasil. A gente percebe pelo aumento no número de títulos e das seções nas livrarias.” Para Gabriel, o alcance dos quadrinhos aumenta à medida que as pessoas começam a conhecer essa linguagem. “Vejo muito forte a identificação com o infantil, mas vejo que isso está mudando”, pontua.
O professor do curso de Cinema do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb) Ciro Marcondes tem um blog especializado em quadrinhos e vê a cena local com bons olhos. “Tem muitos caras talentosos, especialmente como ilustradores”, afirma. O professor acredita que o cenário das histórias em quadrinho está em construção tanto em Brasília como no Brasil. O blog Raio Laser, que criou com um colega jornalista há cinco meses, mostra que tem muita gente interessada no assunto: são sete mil acessos por mês. “É um blog ultraespecializado para quem leva os quadrinhos a sério”, diz Ciro, que já foi professor de uma disciplina de quadrinhos na Universidade de Brasília (UnB).
Ciro defende uma produção de quadrinhos mais elaborada. “As histórias são feitas com ideias mais rápidas e imediatas”, afirma. “Falta um pouco de elaboração nos roteiros, faltam histórias mais consistentes”. Para tanto, o professor defende que os autores bebam da fonte das escolas tradicionais, que constroem grandes narrativas. Mas considera os expoentes brasilienses como bons representantes do cenário dos quadrinhos. “Os caras da Samba estão com projeção nacional e estão conseguindo levar adiante um cenário de publicações 100% independentes”, diz. “E o Caio Gomez é um dos primeiros que faz tiras verdadeiramente originais”.

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