Tuesday, October 25, 2011

Uma terceira onda de cultura periférica?
Depois do hip-hop e dos saraus, há quem espere uma explosão de atividades, em múltiplos gêneros artísticos. Mas para envolver mais gente, ainda falta romper barreiras
A emergẽncia das chamadas “culturas de periferia” foi, para muitos, um dos fenômenos mais marcantes da paisagem social brasileira, nos últimos anos. Fenômenos como o hip-hop e os saraus poéticos espalharam-se pelas quebradas, atraíram milhares de adeptos e repercutiram entre a classe média e os intelectuais. Os “Saraus da Cooperifa” motivaram seguidas reportagens nos cadernos culturais. O grafitti o rap, break, os MCs são tema de teses acadêmicas. Qual é, agora, o futuro desse movimento?
Esta foi à questão central de um debate que aconteceu em 19/10, quinto dia da 4° Mostra Cultural da Cooperifa. O encontro foi mediado por Euller Alvez do Grupo UMOJA e o diálogo ficou a cargo dos convidados Marcio Batista, da Cooperifa, Juninho, do Círculo Palmarino e Fenando, do Sarau Vila Fundão. Duas questões centrais afloraram.
Primeiro, a apropriação rápida, pela periferia, da produção de bens simbólicos — e o sentido profundamente subversivo deste ato. A cultura é ponte para uma reflexão e por meio dela pode-se despertar inquietações no indivíduo. Esta é a posição e o que aconteceu com o Fernando: “essa parada de militar na cultura ficou pequeno dentro de mim”. É importante que a atividade cultural dialogue com o cotidiano da comunidade, que faça sentindo para quem nunca viu significado nela. Um sarau de poesia esta fora de cogitação para alguns moradores, que foram robotizados por meio de políticas assistencialistas que os impedem de raciocinar, este é um dos motivos de encarar a poesia como uma linguagem que sempre foi elitizada, até o momento que a periferia se apropria dela e a resignifica.
O segundo aspecto é uma nota de humildade. Por muitos que tenham sido os avanços, ainda é preciso fazer muito, para que as culturas periféricas toquem as maiorias.
Não é fácil envolver uma comunidade que teve negado, durante gerações, o acesso à cultura. É preciso muita disposição. Em qualquer grupo, existem pessoas com anseios e costumes diferentes. Na periferia, há  obstáculos a mais. Como uma atividade cultural, independente da linguagem, é atrativa para uma senhora que suporta cinco horas de trânsito diário? E que não revela afeto algum diante do ato — não por ser desinteressada, mas porque aquilo nunca esteve presente no seu caminho? A maioria das pessoas que desfrutam atividades artísticas desenvolveram sensibilidade para aquilo. Como extrapolar a barreira da falta de participação e praticar o direito cultural na quebrada?
Os saraus nos bares da periferia tiraram proveito das intervenções e lutas da cultura hip-hop. Era nesta que os jovens encontravam-se e questionavam o poder público. Hoje, o movimento inclui saraus, teatro, música, artes plásticas, educação etc. “A burguesia sempre procurou vender a cultura como enlatado. Nós nos apropriamos de uma cultura da elite, que é os saraus e demos a nossa cara. O terceiro passo é viver a explosão cultural”, sustenta Juninho.
Mesmo com todo este momento positivo, fica o desafio de invadir lares e convidar a comunidade a se apropriar de uma cultura com a cara dela, formada por ela, que dialoga o com questões pertinentes ao dia a dia de todos.
Fonte foto: http://colecionadordepedras1.blogspot.com/
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