Sunday, October 23, 2011


Ex-roteirista da Marvel enxerga questões sociais e raciais na saga dos X-Men
Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR 
20/10/2011 | 19h10 | Rio Comicon



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Quadrinhófilos de várias tribos farão da Estação Leopoldina um lar, desta quinta-feira até domingo. Durante quatro dias, a Rio Comicon 2011, a maior convenção de HQs do país, terá mesas-redonas com artistas nacionais e estrangeiros, exposições de Will Eisner, Guido Crepax, mangás e obras da DC Comics, além de debates sobre filosofia e arte sequencial. Estarão no Rio convidados internacionais como a arquiteta e estilista italiana Caterina Crepax, filha do finado criador da personagem Valentina, que vem à cidade abrir a mostra dedicada ao pai, além do inglês Chris Claremont, o cultuado roteirista dos X-Men. Outros destaques serão o americano Peter Kuper, desenhista de Spy vs. Spy; a japonesa Junko Mizuno, pintora e autora do mangáPrincess Mermaid; e os cartunistas Ludovic Debeurme, da França, e Liniers, da Argentina.
Wolverine deve sua reputação de ser o melhor naquilo que faz — seja matar supervilões ou vender milhares de gibis mundo afora — a um senhor inglês de 60 anos que promete ser uma das mais concorridas atrações da Rio Comicon 2011: o escritor Chris Claremont. No sábado, às 20h, a convenção de quadrinhos vai dedicar uma mesa ao homem que transformou a HQ X-Mennuma febre internacional a partir dos anos 1970, quando adicionou complexidade psicológica a um grupo de vigilantes nascidos com poderes especiais. É dele um dos maiores best-sellers do setor, a minissérie Eu, Wolverine, lançada em 1982 com desenhos de Frank Miller, transportando o mutante de garras metálicas a um Japão infestado de ninjas e mafiosos.
"Meu Wolverine era uma espécie de John Wayne, um caubói solitário em meio a um mundo em construção. Mas o Wayne que me interessava não era o dos épicos dos anos 1930 e 1940. Meu modelo era o John Wayne de “Rastros de ódio”, dirigido por John Ford em 1956. Um caubói sombrio, em luta para administrar o ódio contra os índios em seu coração. Wolverine é igualzinho. Ele tem um animal dentro de si, que quer sair e destruir. O maior inimigo de Wolverine é seu lado bicho", diz o escritor, em entrevista por telefone.
Radicado nos EUA desde menino, Claremont se aposentou. Hoje, se dedica à literatura. Trabalhou até com o cineasta George Lucas (Star Wars) na produção de uma trilogia de romances chamada “Chronicles of the Shadow War”, lançada de 1995 a 1999, mas sempre foi reticente sobre roteiros para cinema.
"Comecei escrevendo prosa antes de ser convidado para roteirizar os X-Men. Num gibi mensal, que é a minha especialidade, você tem, no máximo, 22 páginas para dar seu recado. Na literatura, tenho mais liberdade. Um romancista escreve direto para o leitor. Um roteirista de HQs, não. Ele escreve primeiro para o desenhista", explica.
Claremont é respeitado pela crítica por sua concisão na escrita. Sua fama se expandiu internacionalmente após a publicação de sagas como “A Fênix Negra” (1980), onde a telepata Jean Grey adquire poderes cósmicos, e “Dias do futuro do presente” (1981), cujo enredo sobre viagens no tempo inspirou o filme “O exterminador do futuro” (1984), de James Cameron. Ele trabalhou ainda com os heróis do Quarteto Fantástico e do grupo WildC,A.Ts., fenômeno de venda nos anos 1990. Mas até hoje seu nome é atrelado ao de Wolverine e companhia.
"Nos anos 1970, eu e os desenhistas Dave Cockrum e John Byrne enxergávamos nos X-Men um potencial que a Marvel parecia não perceber. Nessa época, as noções clássicas da identidade americana estavam mudando com a chegada de imigrantes e a afirmação de diferentes movimentos culturais até então encarados como minorias. Nossa ideia era buscar o espírito dos EUA daquela década e narrar o processo de adaptação de jovens de diferentes origens, incluindo um canadense como Wolverine e uma africana como Tempestade, a um mundo novo", explica Claremont. "Pegue como exemplo um personagem como Colussus, um garotão russo cuja pele ganha a consistência do aço. Se eu conseguisse provocar alguma identificação entre um jovem leitor americano e um moleque russo que vira uma viga de aço humana, eu estaria fomentando uma reflexão sobre igualdade entre culturas rivais. Esse era o nosso desafio."
Sem qualquer traço de sotaque britânico — “Fui sequestrado por piratas quando bebê e mantido em cativeiro da América”, brinca —, Claremont assumiu os roteiros de “Unccany X-Men” em 1975, quando o título estava ameaçado por baixa nas vendas. Criou personagens, a procura dos leitores cresceu, e ele ficou no título até 1991.
"Nos anos 1980, por conta de um trabalho de publicidade da editora DC Comics, a mídia comprou a lenda de que as HQs adultas, como Watchmen, seriam o futuro. A Marvel Comics jamais embarcou nessa. Sabíamos que uma história adulta limitava o público consumidor. A Marvel queria títulos para as massas, com enredos que atraíssem multidões sem deixar de discutir questões sociais urgentes com uma abordagem sutil", diz Claremont. "Meu papel era ser um manancial de sutilezas."
Por Rodrigo Fonseca, da Agência O Globo
Fonte:
 DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR 

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