Tuesday, September 27, 2011

44° Festival de Cinema em Brasília







Larissa Santiago
larissa.santiago@clicabrasilia.com.br

Foto: divulgaçãoA mostra competitiva do 44° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa hoje, colocando à prova as principais mudanças da estrutura do mais tradicional prêmio do cinema nacional, o fim do ineditismo e a criação de uma competição para curtas de animação. O primeiro critério, que diferenciava o festival brasiliense das demais mostras do País, foi derrubado por um entendimento da organização de que poderia atrair uma melhor seleção de filmes para sua competição.

Assim, dos seis longas-metragens selecionados para a mostra principal, metade  passou por outros festivais antes.Trabalhar Cansa representou o Brasil na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes, e também passou pelo Paulínia Festival de Cinema; Meu País – primeiro longa de André Ristum, com Cauã Reymond, Rodrigo Santoro e Débora Falabella – também é egresso da seleção de Paulínia; e As Hiper Mulheres, coprodução entre Rio e Pernambuco, chega a Brasília após concorrer no Festival de Gramado.

A outra metade, de filmes inéditos, é representada por Hoje, novo filme da paulista Tata Amaral; O Homem que Não Dormia, que marca a volta do baiano Edgard Navarro ao festival que o consagrou em 2005 (Eu Me Lembro); e o documentário carioca Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, que faz um panorama da cultura da música brega.


Logo neste primeiro dia de mostra competitiva, o Festival de Brasília começa com a exibição de duas animações já premiadas (Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, vencedor do Kikito de melhor curta em Gramado neste ano; eBomtempo, melhor curta brasileiro do Anima Mundi 2011). A projeção é seguida pelos curtas Ser Tão Cinzento(exibido fora de competição na Jornada de Cinema da Bahia), de Henrique Dantas; e o inédito A Fábrica, de Aly Muritiba; e pelo longa-metragem As Hiper Mulheres, de Takumã Kuikuro, Carlos Fausto e Leonardo Sette, também egresso da seleção de Gramado, premiado com a menção especial do júri e com o Kikito de melhor montagem.


Outra novidade na mostra competitiva será a descentralização do Festival de Brasília, com exibições simultâneas no Cine Brasília, Teatro de Sobradinho, Cinemark Taguatinga Shopping e Teatro Newton Rossi, em Ceilândia, às 20h30. A mostra tem reprise na mesma noite, às 22h40, no Cine Brasília; e no dia seguinte, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).


Animação

Foto: divulgação

A competição começa com a animação gaúcha Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John. O curta narra a história de um cachorro com dilemas humanos. Ele está em seu apartamento com dor de cotovelo e empreende uma viagem pelo seu próprio umbigo sem enxergar a realidade. O diretor do filme está empolgado com a seleção do filme para o festival. “O que eu me lembro do festival é que vai muita gente. É muito legal”, diz. “O filme tem ganhado prêmios e espero que as pessoas se identifiquem com os personagens. Eles têm cara de cachorro, mas a vida é bem humana apesar de ter muitos aspectos do mundo canino”, acrescenta.

Foto: Edson Vara/Divulgação
Diretor Rodrigo John levou o Kikito de melhor curta em Gramado


Bomtempo, de Alexandre Dubiela, também é uma animação curtíssima, de apenas um minuto e meio de duração, e pode ser assistida na íntegra no YouTube. Esse é o primeiro filme de Alexandre, que o produziu depois que ganhou um incentivo do 1° Cineambiente – edital de incentivo a cultura realizado pelo Ministério da Cultura, junto com a Secretaria do Audiovisual e do Ministério do Meio Ambiente.


Essa será a primeira vez que Alexandre virá para o Festival de Brasília, mesmo tendo parte da família morando na capital. “Achei fantástico quando recebi o convite. Não que eu não desse crédito ao filme, fiz com todo carinho. Para mim é muito importante ter minha animação sendo exibida no festival”, fala.

Foto: divulgação


Bomtempo fala de um homem que passa por diversas mudanças climáticas até chegar ao trabalho. Dualibe explica o tema. “O edital teve uma temática que era mudança climática. E eu tentei criar uma história que fugisse do padrão, de um roteiro didático, do que pode e não pode. Hoje em dia o tempo muda o tempo todo e o personagem passa justamente por isso ao tentar chegar ao trabalho”, conta.


Sobre o festival, Alexandre fala de suas expectativas. “Eu espero que as pessoas gostem. Durante o Animamundi eu pude ver o filme junto com o público e foi uma sensação boa ver que as pessoas estão respondendo. É gratificante.”


Curta-metragem


Foto: divulgaçãoAbrindo a mostra competitiva dos curtas-metragens de live action está o filme Ser tão Cinzento, do baiano Henrique Dantas, vencedor de quatro troféus Candango, no Festival de Brasília de 2009, pelo documentário Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano. Agora, Dantas volta ao páreo com outro documentário. Em 25 minutos, ele busca recriar a memória do filme Manhã Cinzenta, do cineasta autodidata Olney São Paulo, que fala sobre a ditadura militar. Ser tão Cinzento utiliza imagens do Manhã Cinzenta para dar  suporte e unir as memórias nas vozes dos entrevistados.  “O filme fala dessas vítimas da ditadura, dessas pessoas que são heróis anônimos. E de certa forma lembra de uma história feia, triste e complexa. Tivemos um período negro na nossa história”, disse Dantas.


Sobre o festival, Dantas fala com entusiasmo. “Brasília me aguarda de novo. Para mim o festival é um verdadeiro palco, porque foi aí que mostrei meu trabalho pela primeira vez. Sou muito grato a Brasília”, elogia.  Essa será a primeira vez que Ser tão Cinzento será exibido, após a finalização. “Acho o festival interessante porque é quando se vive e discute o cinema brasileiro no café da manhã, almoço e jantar”, fala.


O segundo curta-metragem da noite é A Fábrica, de Aly Muritiba. Em 15 minutos, o diretor conta a história de um presidiário que convence sua mãe a arriscar a própria segurança para levar um aparelho celular para ele dentro da penitenciária.
Segundo Aly, a ideia para o curta veio da vontade de desmitificar o tratamento que é dado para os presos do Brasil, ele diz que quis também abordar o sistema prisional brasileiro. “Muitos filmes que foram feitos e se passavam em periferias mostravam tudo com uma visão muito mitificada e que tratava os presos como coitados ou caras do mal. Eles eram feitos por pessoas que não conhecem o sistema. Eu conheço e quis abordar o tema de maneira diferente, de um jeito mais cru e menos estereotipado”, revela.

Foto: Rosano Mauro Jr,/Divulgação


Essa é a primeira vez quem um filme de Aly é selecionado para participar do Festival de Brasília. “Eu já mandei outros, mas nenhum nunca tinha sido selecionado. Me senti prestigiado”, fala. Aly conta que A Fábrica começou a rodar em festivais há um mês e já conquistou cinco prêmios.


“O público tem gostado bastante. Esse não é o tipo de filme que as pessoas saem da sala e vão tomar um refrigerante na esquina e falar sobre outra coisa, ele é provocativo”.  Para a exibição em Brasília, o diretor diz estar ansioso. “Ouvi dizer que as salas do festival são lotadas, estou ansioso para discutir o filme com o público”, se anima.


Longa-metragem

Foto: Vincent carelli/Divulgação
O longa-metragem que encerra a primeira noite da mostra competitiva e abre a disputa da corrida principal pelo Candango é o documentário As Hiper Mulheres. O filme mostra um ritual de cântico feminino do Alto Xingu (MT), que se chama Jamurikumalu. Segundo Carlos Fausto, um dos diretores, a ideia era ir para o local e fazer o documentário focado nas músicas femininas, mas até o dia da gravação não havia certeza se o ritual aconteceria ou não, pois a cantora estava doente.

“Nós discutimos, fizemos uma reunião e esse momento gerou a movimentação para a realização do ritual que não acontecia há 30 anos”, revela. Para Carlos o que mais chamou a atenção foi a complexidade do ritual e da dependência de uma só pessoa que ele tinha para acontecer. “Esse ritual tem 500 cânticos diferentes e na aldeia só tem duas pessoas que sabem cantá-lo. Foi muito emocionante.”


O longa foi exibido durante o festival de Gramado deste ano e levou o prêmio especial do júri e de melhor montagem. “A nossa expectativa é de que as pessoas gostem”, torce Carlos. Para a exibição de Brasília, o filme está trazendo um grupo de sete índios – entre eles três mulheres que foram personagens - para assistí-lo.  “O que eu mais quero é que eles possam se assistir em um contexto de festival”.

Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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