Friday, September 16, 2011

Moon e Bá: dupla dinâmica




  
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O redator de obituários que protagoniza (e serve de fio condutor de) Daytripper: parceria dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá conquistou prêmios importantes das HQs, o Eisner, o Harvey
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Os 10 capítulos do original norte-americano foram reunidos num volume único e luxuoso na versão nacional
Paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá lançam no Brasil "Daytripper", HQ editada pela DC Comics que conquistou alguns dos principais prêmios da área
Xará de uma canção dos Beatles, "Daytripper", minissérie em 10 capítulos que a editora Panini Comics despeja a partir deste domingo nas bancas e livrarias nacionais, condensada em 256 páginas, arrebatou em julho o prêmio Eisner, o Oscar das histórias em quadrinhos, tendo o Brasil como cenário e a morte como coadjuvante. Alegria e tragédia se complementam nos contos do cotidiano do redator de obituários Brás de Oliva Domingos, personagem criado pelos gêmeos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, de 35 anos, para revelar que as rotinas da vida também podem ter seu encanto. Laureada ainda com os prêmios Eagle e Harvey e indicada ao Scream Awards, voltado para diferentes segmentos da cultura pop, cujo resultado sai em outubro, a saga de Brás consagrou texto e arte de Bá e Moon no seio de uma das mais cultuadas grifes do mercado editorial dos EUA: a Vertigo, selo de títulos adultos da DC Comics, casa de best-sellers como Batman e Super-Homem. Mas para super-herói, a vocação de Brás é zero.




"Nos anos 1980, quando Frank Miller virou uma voz autoral nos quadrinhos com Batman, os criadores do setor precisavam passar pelo universo dos super-heróis. Hoje, o foco mudou, diversificou-se. Frank Miller é mais autoral fazendo ´Sin City´ ou ´300´ do que escrevendo histórias do Batman. Você pode ser autoral falando de seu próprio universo. No caso de ´Daytripper´, a história de Brás é como um espelho virado para a vida: a partir dele, a gente começa a prestar atenção ao que é essencial", diz Fábio, que despertou a atenção dos quadrinhófilos nacionais ainda anos 1990, ao assinar com o irmão o fanzine "10 pãezinhos".

Graphic novels
Do zine derivaram graphic novels como "O girassol e a lua" (2000) e "Meu coração, não sei por quê" (2001), além de uma leva de álbuns, cuja combinação de traço e roteiro (de inclinação existencialista) concebida pelos dois a quatro mãos resultou em prêmios no Brasil (HQ Mix, Jabuti) e no exterior, além do interesse da DC Comics.

"O convite da DC apareceu no fim de 2006. E eles estavam atrás do tipo de história que a gente está acostumado a contar, e não que a gente se encaixasse no formato deles", diz Bá, que trabalha com Moon a pleno vapor numa adaptação para as HQs do romance "Dois irmãos", de Milton Hatoum.

Para a crítica especializada nacional, "Daytripper" representa mais do que um momento de excelência estética da dupla.

"Melhor trabalho de Bá e Moon, com momentos que evocam a arte de Will Eisner, ´Daytripper´ tem uma importância econômica para o quadrinho nacional que ainda não foi dimensionada, pois venceu um bloqueio", analisa Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ, um dos mais lidos fóruns virtuais brasileiros de análise do segmento. "Durante anos, as editoras americanas de quadrinhos se recusaram a publicar roteiros de brasileiros. Agora, um gibi escrito por artistas de São Paulo, cuja trama é ambientada no Brasil, ganha todos os principais prêmios do quadrinho de língua inglesa".

Sucesso comercial
Até na lista dos quadrinhos mais vendidos do "New York Times" "Daytripper" entrou quando foi lançado nos EUA, em 2009, sendo elogiado pelo lirismo com que Bá e Moon narram as viagens feitas por Brás ora Brasil afora, ora dentro de seu próprio mundinho interior.


"Nunca imaginamos que o convite da DC fosse rolar. Nunca fomos grandes leitores da Vertigo, com exceção da série ´100 balas´, que foi uma influência para a gente, e de ´Escalpo´. O selo sempre valorizou mais o texto do que os desenhos, chegando a trabalhar com muitos desenhistas ruins. Fora que os temas preferidos deles, como magia e mistério, nunca foram a nossa predileção. Gostamos mais do Neil Gaiman pelos livros do que por ´Sandman´", diz Bá, que publica, com o irmão, o quadrinho "Quase nada" na "Folha de S. Paulo".

Entregue durante a última Comic-Con, convenção de cultura pop realizada anualmente em San-Diego, o prêmio Eisner coroou o gibi nas categorias melhor minissérie e melhor colorista (para Dave Stewart). Em 2008, Bá e Moon já haviam conquistado o Oscar das HQs, integrando o coletivo de quadrinistas de "5", ao lado do também brasileiro Rafael Grampá. No mesmo ano, "The Umbrella Academy", desenhada por Bá e escrita por Gerard Way, ganhou o Eisner de melhor minissérie, enquanto "Sugarshock!", de Moon e Joss Whedon, conquistou a láurea de melhor HQ on-line.

Visibilidade
"O Eisner de ´Daytripper´ foi importante por trazer visibilidade para nós dois como um conjunto. Agora, ficou claro para o mercado americano que nós fazemos o pacote completo: texto e arte", diz Moon, analisando a transformação dos quadrinhos na última década. "Nos anos 1990, morreu o quadrinho brasileiro feito para as bancas. Sobrou só a Mônica e alguma coisa de super-herói. Mas quando houve uma migração do quadrinho para as livrarias, os trabalhos autorais ganharam um novo espaço e um novo conceito. Os artistas descobriram que, em primeiro lugar, é preciso ter um produto na mão, de qualidade, antes de procurar editora. Com isso, hoje há mais editoras querendo publicar HQ nacional".


Envolvidos na produção de um álbum sobre São Luís do Maranhão para a coleção Cidades Ilustradas da editora Casa 21, Bá e Moon contam que, apesar da febre de HQs na telona, o cinema ainda não se interessou em transformar "Daytripper" em filme. Mas sonhos cinematográficos não passam pela cabeça dos gêmeos.

"Os mecanismos de linguagem característicos das HQs são o encanto do nosso trabalho", diz Bá. "Não sei se o cinema conseguiria reproduzi-los".

Lançamento Daytripper Fábio Moon e Gabriel Bá
Panini
2011
256 páginas
R$ 62

Fonte:

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