Sunday, September 25, 2011

Humor gráfico em vários campos do conhecimento: arte, psicanálise, cultura, política, história



entrevista

O riso que nos define

Publicado em 11 de setembro de 2011 
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Isabel Lustosa: Quem trabalha com humor gráfico tem que lidar com referências teóricas e analíticas originadas em vários campos do conhecimento
FOTO: A. CAPIBARIBE NETO
Organizado pela historiadora cearense Isabel Lustosa, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, "Imprensa, humor e caricatura" reúne ensaios de autores brasileiros e estrangeiros sobre a presença dos estereótipos culturais na imprensa ilustrada
A primeira questão é sobre o tema que enlaça os artigos e ensaios presentes no livro: os estereótipos culturais. Por que estudá-los, relacionados ao humor gráfico?
Porque acho que este é o grande tema do humor. É a partir da diferença, do estranhamento, a forma como as pessoas percebem essa diferença, que se produzem boa parte das charges, caricaturas e anedotas. Quantas piadas não conhecem que começam dizendo "estavam um alemão, um inglês e um francês em tal lugar"? Os elementos que caracterizam em geração os povos representados nessas anedotas são relacionados a características que supostamente seriam marcantes nesses povos. Algumas delas são de atitude diante dos problemas, mas outras podem ser representadas graficamente, como o jeito de vestir ou o tipo físico.

Boa parte dos textos do livro recua bastante no tempo para compreender fenômenos e realidades em outros contextos históricos. Como objeto de pesquisas históricas, as charges, os quadrinhos e outras manifestações de humor gráfico já estão bem incorporados aos objetos da disciplina, ou pesa sobre eles um preconceito semelhante ao dar a eles uma posição subalterna dentre as expressões artísticas?
Creio que hoje já não se pode falar de preconceito contra qualquer fonte documental inclusive do humor gráfico. É uma manifestação cultural como outra qualquer que tem, com relação às outras, a vantagem (e a desvantagem) de apresentar muitos textos e subtextos. Seu problema reside no fato de que se presta a múltiplas análises: da imagem em si - o que é que ele está dizendo diretamente; da qualidade e contexto gráfico da imagem; do veículo em que foi publicada, etc. etc. etc. Quem trabalha com humor gráfico tem que lidar com referências teóricas e analíticas originadas em vários campos do conhecimento: arte, psicanálise, cultura, política, história.

No Brasil, como em outras partes do mundo, a imprensa ilustrada teve uma presença expressiva dentre os demais periódicos jornalísticos. O que fez o casamento sátira política & ilustração dar tão certo? A imprensa ilustrada brasileira era, efetivamente, política?
A caricatura começou no Brasil durante a Regência, em 1837, e as primeiras caricaturas visavam duas personalidades do cenário político: o jornalista Justiniano José da Rocha e o deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos. Durante a segunda metade do século XIX, ela foi elemento central do jornalismo brasileiro e, com Angelo Agostini, a caricatura teve papel importante nas grandes campanhas do período. Manteve-se, assim, na primeira metade do século XX, com J. Carlos, Kalixto e Raul Pederneiras nos primeiros anos, seguidos por um grande elenco de artistas de elevado valor artístico. Mas a caricatura nunca foi exclusivamente política. Especialmente nas revistas do século XIX, quando ainda não se usava a fotografia, em que ela cumpria também este papel. Ao mesmo tempo, a crítica dos costumes, típica do cartum, também esteve sempre presente a partir das tantas caricaturas sobre as últimas modas femininas. Os problemas sociais foram um forte tema da caricatura e trataram tanto da violência contra escravos quanto dos problemas de abastecimento d´água do Rio de Janeiro.

Como é possível explicar o declínio deste tipo de imprensa que, ao que me parece, não teve continuidade no século XX?
Certamente, desde o apogeu da caricatura com a Revista Ilustrada, de Angelo Agostini, a caricatura veio perdendo terreno para outras formas de artes gráficas. Mesmo assim, com a possibilidade do uso da cor na primeira década do século XX, revistas como Careta, Fon-fon! e O Malho tiveram enorme sucesso. Gradativamente, a fotografia foi tomando o lugar da caricatura na capa de publicações como O Cruzeiro, lançada em 1928. Mesmo assim, foi só mesmo nos últimos 40 anos que ela realmente passou a ser algo acessório na imprensa, sem a centralidade do passado.

As histórias em quadrinhos de entretenimento foram uma saída para o que foi a chamada imprensa ilustrada?
Não creio. As histórias em quadrinho começaram a aparecer ainda no século XIX e o nosso Agostini foi um dos primeiros, senão o primeiro, a publicá-las na sua Revista Ilustrada. Acho mais apropriado associá-las aos folhetins que, na época, figuravam nos jornais publicando a obra de gente como José de Alencar e Machado de Assis. É um tipo de entretenimento que tem outro público-alvo e tem trajetória própria.

No encontro que deu origem ao livro, autores da AL e da Europa falaram de suas realidades nacionais. O que há, por assim dizer, de universal neste cruzamento de imprensa e humor gráfico e o que há de particular do caso brasileiro, especificamente?
O artigo que publiquei junto com minha então assistente de pesquisa, Robertha Triches, chama-se "O português da anedota" e foi a minha motivação para organizar este seminário reunindo gente de vários países: França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Argentina, México, Colômbia e EUA ¬- além dos brasileiros, claro. Eu queria que meus convidados falassem da razão porque determinados povos escolhem outros como tema de suas anedotas. Naturalmente, há muitas semelhanças entre as anedotas que contamos sobre portugueses e as que os ingleses contam sobre irlandeses. Mas há temas trabalhados no livro que apontam para outros efeitos desse tipo de humor. O artigo de Marcela Gené, sobre as caricaturas de judeus publicadas em jornais argentinos antissemitas, são algo bem impressionante. Assim como o artigo de Tamara Hunt, sobre como as caricaturas de turcos e árabes no começo do século XIX na Inglaterra contribuíram para firmar uma imagem negativa e assustadora daqueles povos, que justificou junto aos súditos da coroa as ações colonialistas de seu governo.

ARTIGOS Imprensa, humor e caricatura Isabel Lustosa (org.)
EDITORA UFMG
2011
563 PÁGINAS
R$ 83

DELLANO RIOSEDITOR

Fonte:

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