Friday, September 9, 2011

Vão faltar alunos para bolsas de estudo do governo


Entrevista: Marcelo Knobel



Para pró-reitor de graduação da Unicamp, Brasil terá dificuldades para cumprir objetivo de Dilma: achar 75.000 candidatos capacitados para estudar no exterior

Nathalia Goulart
"Outro ponto que me preocupa é o caráter unilateral do programa do governo, ou seja, o principal objetivo dele é enviar estudantes para fora, e não adotar mecanismos que tornem nossas universidades uma real possibilidade de estudo para os estrangeiros"
Há cerca de um mês, a presidente Dilma Rousseff anunciou que o governo federal investirá, nos próximos anos, na concessão de 75.000 bolsas de estudo para que brasileiros realizem graduação ou pós-graduação no exterior. É uma ótima iniciativa. Contudo, podem faltar bolsistas gabaritados para esse fim. Ao menos é o que aponta Marcelo Knobel, pró-reitor de graduação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Será um desafio para o Brasil conseguir preencher essa quantidade de vagas, que exige estudantes de alto nível acadêmico e que dominem a língua inglesa. Afinal, eles disputarão uma vaga nas melhores universidades do mundo", diz o acadêmico. Enviar estudantes brasileiros em quantidade desejável para o exterior não é o único problema a vitimar a educação de nível superior no Brasil – e a tirar o sono do pesquisador.
Também falhamos, na visão dele, na tarefa de atrair estrangeiros. Em recente artigo publicado em parceria com a Universidade da Califórnia (UCLA), Knobel discute o baixo nível de internacionalização das universidades brasileiras, o que se traduz na dificuldade dessas instituições de participar de forma intensa do circuito internacional de cultura e conhecimento. Entre as razões do problema, estaria a limitada mobilidade internacional de alunos e docentes nas universidades brasileiras. Basta comparar: na Universidade Harvard, por exemplo, apontada a número um do mundo em diversos rankings internacionais, 20% de estudantes da graduação são estrangeiros. Na Unicamp e na Universidade de São Paulo (USP), duas das principais instituições brasileiras, a taxa não ultrapassa 3%. "A internacionalização tem se consolidado como fator fundamental para a excelência universitária", diz o especialista. "É fundamental que nossas pesquisas tenham impacto internacional e, para isso, temos que promover um intercâmbio intenso", diz. Confira a seguir a entrevista que ele concedeu ao site de VEJA.
Divulgação/Unicamp
Professor Marcelo Knobel, pró-reitor de graduação da Unicamp
Knobel: internacionalizar é preciso
Como o senhor avalia o projeto de financiar 75.000 bolsas de estudo no exterior, para graduação e pós-graduação de estudantes? É uma iniciativa positiva, que auxilia no projeto de internacionalização das universidades brasileiras. Mesmo assim, acredito que seja um projeto ambicioso demais, considerando-se a realidade brasileira. No tocante ao número de bolsas, acredito que ele poderia ser mais modesto. Será um desafio para o Brasil conseguir preencher essa quantidade de vagas, que exige estudantes de alto nível acadêmico e que dominem a língua inglesa. Afinal, eles disputarão uma vaga nas melhores universidades do mundo. Outro ponto que me preocupa é o caráter unilateral do programa do governo, ou seja, o principal objetivo dele é enviar estudantes para fora e não adotar mecanismos que tornem as nossas universidades uma real possibilidade de estudo para os estrangeiros.
A que o senhor se refere exatamente quando fala em internacionalização das universidades? A internacionalização é o processo de cooperação internacional das universidades. Isso significa enviar estudantes de graduação, professores e pesquisadores a instituições de ensino superior estrangeiras e promover a entrada de estrangeiros nas universidades brasileiras. A experiência é enriquecedora tanto para os alunos e docentes envolvidos, que incrementam suas experiências e conhecimentos, como para a universidade, que recebe profissionais mais experientes e que proporcionam um diálogo muito mais rico para o ambiente acadêmico. No exterior e também no Brasil, a internacionalização tem se consolidado como fator fundamental para a excelência universitária.
USP e a Unicamp ainda não figuram entre as cem melhores universidades do mundo, segundo rankings internacionais. Qual é o peso do baixo nível de internacionalização de nossas instituições no desempenho do Brasil naqueles rankings? Existem aspectos positivos que devem ser vistos quando analisamos os rankings. Se por um lado não estamos entre as cem melhores, as estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) são as únicas universidades da América Latina que aparecem entre as trezentas melhores. Não é pouca coisa. Outro aspecto importante é que as universidades brasileiras são muito jovens: a USP é da década de 1930 e a Unicamp tem menos de 50 anos, por exemplo. O ensino superior no Brasil é jovem e tem se consolidado de uma maneira acelerada. Mas é claro que os desafios não devem ser deixados de lado e a internacionalização é parte importante disso. É fundamental que as nossas pesquisas tenham impacto internacional e, para isso, temos que promover um intercâmbio intenso. Tenho certeza que esse quadro será radicalmente mudado nos próximos anos.
As universidades brasileiras estão comprometidas com a internacionalização?Certamente, as universidades públicas despertaram para essa preocupação. O projeto do governo federal de criar mais bolsas de estudo aponta nessa direção. Mas o Brasil ainda enfrenta enormes barreiras para consolidar a atuação internacional de nossas universidades.
Que barreiras são essas? Algumas são de ordem burocrática. Obter um visto, alugar um apartamento, abrir uma conta no banco – tudo isso soa trivial, mas é muito complexo e burocrático para um estrangeiro que venha estudar ou ensinar no Brasil. Outras questões são mais profundas, como, por exemplo, a língua. No Brasil, o inglês ainda é uma barreira para nós: as aulas são ministradas em português e existem poucas iniciativas em língua estrangeira.
Como superar essas barreiras? Em grande parte, isso depende de políticas públicas, ou seja, de iniciativas federais que ajudem de maneira deliberada a entrada e permanência de estudantes e professores estrangeiros no Brasil. Mas as universidades também devem buscar saídas: é possível estabelecer parcerias com instituições ou empresas privadas que estejam engajadas na questão da internacionalização. Um exemplo: cada vez que um estrangeiro vem à Unicamp, tem dificuldade de alugar um apartamento, devido a questões contratuais de qualquer operação desse tipo. Para sanar essa dificuldade, estabelecemos parceiras com as imobiliárias para que o processo seja menos burocrático.
O que Unicamp tem feito em favor da internacionalização? Temos participado de diversas redes de cooperação internacional para enviar e receber um número cada vez maior de alunos. Também temos promovido a vinda de pesquisadores através da concessão de bolsas de estudo. Paralelamente, estamos criando mecanismos para que esses pesquisadores estrangeiros tenham condições de continuar na Unicamp, se assim desejar. Para isso, estamos viabilizando concursos públicos em inglês: dessa forma, a língua deixa de ser uma barreira. Também estudamos maneiras de oferecer disciplinas em inglês na nossa grade curricular.
A parceria entre universidade e empresas privadas, principalmente na área da pesquisa, é uma características das grandes universidades do mundo. No Brasil, ela costuma ser vista com maus olhos. Qual a opinião do senhor sobre o assunto? Na Unicamp, isso é um ponto pacífico. Muitas pesquisas são feitas em parceria com as indústrias e empresas privadas e existe uma transferência de tecnologia. O desafio agora é de outra ordem. É transformar o conhecimento científico em inovação. Hoje, temos um cenário consolidado de pesquisas de ponta e de projetos reconhecidos, mas isso ainda não é transformado em ciência aplicada, em riqueza. Nesse quesito, o Brasil ainda está longe dos principais atores mundiais. A filantropia é outro cenário que precisa ser valorizado no Brasil. Empresas criadas dentro das universidades ou empresários que tenham algum tipo de vínculo com essas instituições deveriam contribuir com a academia, patrocinando pesquisas e institutos. É assim que acontece nos Estados Unidos, por exemplo.
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