Monday, September 26, 2011


Entre o silêncio do budismo e a voz da tecnologia

Publicado por admin - Sunday, 11 September 2011
VISUAL
A nave de Mariko Mori pousa no coração da cidade. E interage com os paulistanos, levando-os a percorrer os espaços zen que a artista apresenta no Centro Cultural Banco do Brasil
LEILA KIYOMURA
Uma nave de seis toneladas pousa em plena rua Álvares Penteado. Prateada e brilhante. Mesmo os mais apressados param curiosos. E não se importam em esperar na fila. Nesta Wave Ufo, criada pela artista japonesa Mariko Mori, só entram três tripulantes de cada vez. Mas, antes, precisam deixar seus sapatos na porta, como se fossem entrar em um templo budista. Juntos, eles ficam com as suas cabeças conectadas a eletrodos e os sensores da nave leem as suas ondas cerebrais. Uma torrente de imagens é projetada em seu interior.
A proposta da artista é conectar os tripulantes aos seus pensamentos, sonhos, essência… Sob a curadoria de Nicola Goretti, a mostra “Mariko Mori – Oneness”, inaugurada no Centro Cultural Banco do Brasil, alia o pensamento milenar japonês, com seus mitos e tradições, à interatividade da tecnologia.  “A exposição incorpora conceitos baseados no zen-budismo e na alegoria da união entre os seres”, explica Goretti. “A ideia é a de união universal amparada em um sentimento de pureza espiritual.”
O viver e o criar coletivo que pontuam a tradição japonesa é expresso na obra Oneness, unidade em português. Nessa instalação que dá título à mostra, outra vez o visitante é pego de surpresa. Precisa retirar um bilhete na portaria. Entrar na fila, esperar pacientemente por sua vez. A porta se abre para um grupo pequeno. Para participar, todos devem tirar os sapatos. Seis crianças alienígenas – bonecos feitos em acrílico com molde de alumínio e magnésio – esperam silenciosamente pelo visitante. Estão em círculo. Querem ser tocadas. O visitante se posiciona na frente dos alienígenas e, ao abraçá-los levemente, eles se iluminam, abrem os olhos e o seu coração começa a bater. Se alguém retirar a mão, bonecos e visitantes se desconectam. Daí a importância da unidade. “A sensação é de estar vivenciando uma espécie de fusão cósmica, penetrando um território desconhecido, induzido pela arte e tecnologia”, observa Goretti.
As obras foram projetadas no espaço – subsolo, térreo, segundo e terceiro andares –, seguindo a estética japonesa do vazio por onde flui a energia. Devem ser contempladas como uma paisagem. O visitante não fica sob pressão. A exposição propicia uma vivência. Embora sejam apenas dez obras, o seu impacto no espectador é curioso. A sensação é a de estar em um templo. Só que, em vez da imagem gigantesca de Buda, há a grande nave metálica.

Oferta –
 A artista consegue fundir a percepção do Japão milenar com as luzes do país high tech. “Procuro fazer o meu trabalho como uma espécie de oferta”, afirma Mariko. “Um artista vê o mundo, olha para o momento presente, com um ponto de vista especial. Minha missão é expressar o que vejo no meu campo de visão. Tenho que criar o mundo para poder respirar no mundo. Eu não existo se não crio.”
Mariko tenta resgatar o Japão de seus ancestrais. Em Miracle, obra de 2001, sugere o momento da criação do mundo em seis desenhos de 69 centímetros de diâmetro exibidos nas paredes. A impressão é de que a artista procurou captar o movimento do ar e da luz. No chão, há um círculo de cristais de sal e 33 bolas de gude. Um pêndulo com uma bola de cristal paira sobre o círculo de sal. As obras da artista destacam sempre o círculo. Mesmo no vídeo, uma extraterrestre de olhos azuis carrega uma bola de vidro nas mãos. Ela se move lentamente, lembrando o gestual do tradicional butô – dança das sombras que o seu mestre Kazuo Ohno definia como “a expressão da alma”.
Mariko Mori: o objetivo é a união universal
Nascida em Tóquio, Mariko Mori tem 44 anos. Suas obras destacam a conectividade do mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, valorizam o budismo, que busca a essência do ser e da natureza. Essa dualidade vem destacando a artista no cenário internacional. Vive entre Tóquio e Nova York. Seus trabalhos integram o acervo do Guggenheim, do  MoMa (ambos em Nova York), do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio e do Centro Georges Pompidou (Paris), entre outros.
Mori já recebeu vários prêmios. Entre eles, a prestigiada Menção Honrosa da 47ª Bienal de Veneza, em 1997, e o 8º Prêmio Anual como artista e pesquisadora no campo da arte contemporânea japonesa, em 2001, da Fundação de Artes Culturais do Japão.
A exposição “Mariko Mori – Oneness” está em cartaz até 16 de outubro, de terça-feira a domingo, das 9 às 21 horas, no Centro Cultural Banco do Brasil (na rua Álvares Penteado, 112, Centro). Entrada franca. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3113-3651 e na página eletrônicawww.bb.com.br/cultura.
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