Tuesday, August 16, 2011

A volta do herói militante


A adaptação de Capitão América para o cinema reaviva o debate sobre a política em HQs

Jay Maidment
AMOR AOS EUACapitão América (Chris Evans) agora em versão 3D. O herói personifica o patriotismo americano
Durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem americano Steve Rogers queria entrar para o Exército. Ele sentia como um “dever patriótico” lutar contra os nazistas. Tentou se alistar várias vezes, mas seu físico mirrado e uma série de doenças fizeram com que fosse considerado inapto. A persistência e o idealismo o levaram a participar de uma experiência científica para o esforço de guerra. Recebeu um soro que o transformou em supersoldado com habilidades sobre-humanas. Assim nasceu um dos heróis mais longevos da história dos quadrinhos, o Capitão América. Publicado pela primeira vez em 1941, o personagem é um exemplo memorável do casamento entre política e quadrinhos. O lançamento nesta semana da superprodução Capitão América – o primeiro vingador, com cópias em 3D, sugere que a aliança entre propaganda (ou ativismo político) e entretenimento de massa sobreviveu às mudanças tecnológicas e transformações históricas.
No filme, que tem a guerra como pano de fundo, o Capitão América é adotado pelo governo dos Estados Unidos como garoto-propaganda do alistamento militar. Usa um uniforme com as cores da bandeira americana, participa de eventos sociais e tem sua imagem estampada em cartazes e revistas em quadrinhos. Sua popularidade é testada em um evento para os soldados combatentes na Europa, mas ele é vaiado e chamado de fraude. Para provar que é um soldado de verdade, parte em uma arriscada missão de resgate. E vence. Com seu valor reconhecido, lidera um grupo de soldados que luta para deter o cientista Johann Schmidt (Hugo Weaving), o Caveira Vermelha, inimigo do Capitão nas HQs. Schmidt desenvolve uma arma capaz de dizimar exércitos inteiros, e Rogers é o homem certo para detê-lo. Dirigido por Joe Johnson (Jumanji e Jurassic Park III) , o longa-metragem mantém a boa qualidade das adaptações feitas para heróis da editora Marvel, como X-men Homem-Aranha. Assim como em Homem de ferro, as aventuras foram modificadas para fazer sentido nos dias de hoje.
Na capa do primeiro gibi do Capitão América, o herói aparece dando um soco na cara de Hitler. Em sua versão cinematográfica, as referências ao nazismo estão presentes, mas de modo atenuado. Ele enfrenta nazistas genéricos, com uniformes que remetem aos dos soldados da SS (Schutzstaffel, a força de elite nazista), mas que dispensam as braçadeiras vermelhas com a suástica. As motivações do Capitão América foram recalibradas para a era Obama. O antigo brucutu se transformou num líder idealista e persuasivo, que usa força apenas quando necessário e evita matar inimigos. A ideia de usar a política como tema para HQs nasceu bem antes da Segunda Guerra Mundial. O caricaturista Thomas Nast, considerado o pai do cartoon americano, fez sátiras tão contundentes da corrupção perpetrada por William “Boss” Tweed, eleito para o Senado de Nova York em 1867, que o político acabou sendo preso. Antes, tentou fugir, mas foi reconhecido graças a um desenho de Nast.
A partir dos anos 1930, as revistas em quadrinhos se multiplicaram. Eram muito baratas e vendiam bem mesmo no clima de devastação econômica criado pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Superman, criado em 1932 pelos artistas Jerry Siegel e Joe Shuster, foi muito influenciado pela política do presidente Franklin Roosevelt de recuperar a economia dos Estados Unidos. Em algumas histórias, ele é mostrado como uma espécie de ativista social: combate políticos e empresários corruptos. Depois da Segunda Guerra Mundial, vencida nos quadrinhos pelo Capitão América e um batalhão de heróis de segundo escalão (como o Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino), o inimigo passou a ser o comunismo. O Caveira Vermelha, antes um aliado de Hitler, passou a apoiar o ditador russo Joseph Stálin. O medo de um apocalipse nuclear rendeu personagens famosos como o Hulk e o Homem-Aranha, que ganharam seus poderes depois de se contaminarem com radiação. “As HQs precisam de antagonistas. Na Guerra Fria isso era muito mais simples. Existiam vilões fáceis de ser identificados”, afirma o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Octávio Aragão.
   Divulgação
REPORTAGEM 
Joe Sacco, criador do jornalismo em quadrinhos. O autor usa o poder das imagens para contar suas histórias
Com o escândalo de Watergate, em 1974, que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, a indústria de quadrinhos americana, que antes estava alinhada ao governo, passou a lançar HQs de esquerda. O ápice desse movimento ocorreu em 1986, com o lançamento de Watchmen. A história de Alan Moore e Dave Gibbons mostra um futuro degradado pela Guerra Fria e descrente em relação ao capitalismo. Os heróis representados por Moore são humanos, com falhas morais e dilemas existenciais insolúveis. Embora os quadrinhos voltados para o público adulto já existissem havia algum tempo, Watchmen abriu as portas para histórias mais profundas.
Em 1992, a novela gráfica Maus, um retrato do Holocausto escrito e desenhado por Art Spiegelman, recebeu o Prêmio Pulitzer. Os nazistas são representados por ele como gatos e os judeus como ratos. Na mesma época, o jornalista Joe Sacco, cuja HQ Palestina (Conrad, 328 páginas, R$ 69,90) acaba de ser reeditada no Brasil, criou um gênero conhecido como reportagem em quadrinhos. Partindo de pesquisas de campo, ele publicou obras como Área de segurança Gorazde, reportagem de 2000 sobre uma cidade muçulmana cercada por territórios bósnios durante uma limpeza étnica. A partir de então, várias novelas gráficas que abordaram mudanças políticas ganharam reconhecimento mundial – e chegaram ao cinema. Em Persépolis, de 2000, a iraniana Marjane Satrapi conta sua juventude num Irã sacudido pela revolução islâmica de 1979. Foi adaptado para o cinema em 2007 e concorreu ao Oscar de Melhor Animação. Valsa com Bashir, animação de Ari Folman sobre suas memórias da Guerra do Líbano de 1982, fez o caminho inverso: estreou em 2008 nos cinemas e foi adaptada para os quadrinhos.
Nos últimos anos, muitas HQs voltaram a divulgar aspirações de governos. O primeiro-ministro russo Vladimir Putin encomendou uma série em que é retratado como herói, o Super Putin, que usa superpoderes para deter terroristas da al-Qaeda. Até o presidente americano Barack Obama apareceu em uma revista do Homem-Aranha. Foi a HQ mais vendida da última década: 352 mil exemplares. O alinhamento patriótico com os Estados Unidos deverá chegar ao ápice no próximo dia 11 de setembro, quando o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center completará dez anos. O roteirista Frank Miller, autor de Sin City e 300, prometeu lançar uma HQ chamada Holy terror (Terror sagrado) . Nas poucas imagens divulgadas até agora, o protagonista aparece atacando um homem de turbante. Miller diz que a história vai ser uma peça de propaganda, nos moldes das HQs da Segunda Guerra Mundial. Será uma história tão maniqueísta quanto as do século passado?


Assista ao trailer de Capitão América - O primeiro vingador


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