Friday, August 5, 2011

A vida no meio dos quadrinhos

Valterci Santos/Gazeta do Povo
Valterci Santos/Gazeta do Povo / Carlos Magno e sua prancheta: 15 horas por dia para dar conta das páginas. Trabalho e filho o impedem de ler quadrinhos há três anosCarlos Magno e sua prancheta: 15 horas por dia para dar conta das páginas. Trabalho e filho o impedem de ler quadrinhos há três anos
VISUAIS
O desenhista Carlos Magno é responsável pela versão de Planet of the Apes da editora americana Boom!
18/07/2011 | 00:01 | HELENA CARNIERI
A Gibicon acabou, mas nem por isso Curitiba vai esquecer os quadrinhos. Além do “fervo” costumeiro de consumidores nas dependências da loja Itiban (Av. Silva Jardim, 845), apaixonados por essa arte continuam enfurnados sobre suas pranchetas, produzindo para grandes editoras do mundo. A Gazeta do Povo conversou com um deles: Carlos Magno, 34 anos, que se esconde em seu escritório em São José dos Pinhais e de lá abastece o hobby de leitura de adolescentes e adultos norte-americanos. Um trabalho frenético que, somado a seu filho de um ano e meio, não o deixa sentar para ler quadrinhos há três anos.
Áreas de conflito
Jornalista Joe Sacco desenha o subjetivo
Faz tempo que quadrinho deixou de ser hobby de criança. Tem gente inclusive desenhando sobre conflitos étnicos, como o maltês-americano Joe Sacco, que define seu trabalho como “jornalismo em quadrinhos”. O autor, que participou há duas semanas da Festa Literária de Paraty (Flip), na costa fluminense, conta que passa longas temporadas nos locais pelos quais nutre interesse antes de pegar no lápis. Em seus livros Palestina (foto), Notas sobre Gaza e Uma História de Sarajevo, ele conviveu com moradores, tirando apenas fotos como referência, e depois mergulhou nos arquivos da ONU sobre os locais em conflito, para só então se trancar em casa e desenhar.
Entre suas influências estão o quadrinista Robert Crumb e o escritor George Orwell, que viveu entre indigentes e mineiros ingleses para escrever sobre eles.
Outra característica de Sacco é se inserir na história: ele desenha a si próprio em meio à trama, para não deixar dúvidas de que seu trabalho, ainda que baseado na realidade, inclui muita subjetividade.
Reprodução
Reprodução / Uma das capas de Planet of the Apes, revista desenhada por Carlos+ ampliar imagem
Uma das capas de Planet of the Apes, revista desenhada por Carlos
Desde 2005, Carlos ganha espaço no mercado dos EUA, desenhando para estúdios gigantes como Marvel (de Hulk e Homem Aranha, entre outros) e DC Comics (de Batman). Juntas, as duas dominam a maior parte do mercado de quadrinhos americano.
No momento, Carlos produz diariamente a revista Planet of the Apes (Planeta dos Macacos), para a Boom!, ainda sem versão em português. Não há alguém com mais de 30 anos que não conheça de cor a história, passada no século 27, quando os primatas tomaram conta da Terra e escravizam seres humanos. “Esse é um projeto muito pessoal. Quando era criança, dizia que estava doente para ficar em casa assistindo”, conta.
Nos quadrinhos, a história se baseia no filme de mesmo nome, de 1968, em que os primatas são mais rudimentares do que no livro original (1963, de Pierre Boulle). As revistas, que passaram a ser publicadas em abril nos EUA, introduzem novidades à epopeia. A quinta edição, que Carlos termina de desenhar nesta semana, fala de como surgiu a inimizade entre macacos e humanos.
Como acontece com outras histórias consagradas, as inovações precisam ser autorizadas pela detentora da marca. No caso de Planeta dos Macacos, a dona é a holding de comunicação Fox. “Cada página que desenho passa pelo crivo deles”, explica Carlos. “Então entra para a história oficial.”
Técnica
No dia a dia de Carlos na prancheta, o roteiro das histórias chega em inglês por e-mail e determina a sequência de diálogos que entrará em cada página, incluindo o número de quadros. Cabe a ele buscar referências para decidir como desenhar tudo aquilo. “Na página que estou fazendo agora, pediam uma ‘gatling gun’, que é uma metralhadora giratória. Não posso inventar outro tipo de arma”, exemplifica.
Primeiro, ele faz um esboço para aprovação, e então desenha os traços finais, com liberdade para mudar detalhes como um ou outro ângulo. “Na Marvel, a política era mais rígida, com menos liberdade.” Cada página leva cerca de 15 horas para ficar pronta. O desenho é então escaneado e enviado por e-mail, e o colorido é dado por outro profissional, já nos EUA.
Como começou
A história de Carlos é uma daquelas de obstinação. Criança, ele respondia à clássica pergunta sobre “o que queria ser” com “desenhista de quadrinhos”. E manteve a decisão, optando por estudar artes plásticas na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Ele fazia ilustrações para agências de publicidade quando soube que um agente de artistas brasileiros estaria em São Paulo. Correu para lá e logo teve a primeira oportunidade, desenhando o personagem Jonah Hex para a DC Comics. Na sequência, veio a Marvel, para quem ele desenhou o Incrível Hulk por um mês. Em 2010, visitou a feira de quadrinhos de Nova York e conversou com os editores da Boom!. Logo tinham um contrato para Planeta dos Macacos, que vai até fevereiro de 2012.
Em tempo: os fãs de Planeta dos Macacos se decepcionaram com o remake de Tim Burton, em 2001 – tanto que a orientação recebida por Carlos é a de desconsiderar essa versão na hora de desenhar. Agora, a Fox tenta retomar a história no cinema em agosto, quando estreia Planeta dos Macacos: A Origem, de Rupert Wyatt, cuja trama conta como os primatas se tornaram inteligentes.
Serviço
As revistas Planet of the Apes podem ser encomendadas pelo site www.boom-studios.com.

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