Sunday, August 28, 2011

Os quadrinhos despertam a curiosidade de uma criança para os livros




Páginas da Guerra

Luís Felipe Soares
Do Diário do Grande ABC


A história da humanidade é marcada por guerras. De tempos em tempos, novos conflitos surgem para movimentar e marcar a vida de outras gerações. Os combates, tensões, dramas e esperanças que surgem no período também são lembrados nos quadrinhos com obras que retratam os campos de batalha por meio de diferentes perspectivas. As imagens presentes nas publicações apresentam realidades que mais parecem sair de HQs do que baseadas no que vemos no mundo real.
"Guerra é um assunto que não sai de moda e nem deve sair. A humanidade faz guerra o tempo todo e não há uma década sequer sem um conflito. A guerra não deve ser esquecida, porque quem esquece faz de novo", afirma Julius Ckvalheiyro, autor de Guerra 1939-1945 (Conrad, 136 páginas, R$ 29,90). "Trabalhar com fatos dando base pra uma ficção dá um tempero especial para a história. Faz um autor coerente com o que retrata e amplia o alcance do seu trabalho. Pode até ser usado como complemento educativo. Os quadrinhos despertam a curiosidade de uma criança para os livros", acredita.
Em seu livro, o paulista revela seis histórias fictícias de personagens de diferentes nacionalidades que lidam com a Segunda Guerra Mundial de sua maneira peculiar. O destaque da obra são as ilustrações elaboradas em muitas referências fotográficas da época. Ele recorda da dura pesquisa necessária para a base teórica. "Foi um trabalho de muitas horas na biblioteca que me transformou de quadrinista a estudande de história. Os quadrinhos me levaram de volta pra para uma cadeira acadêmica e todo meu material tem fundamento científico", explica.
Os super-heróis não demoraram a entrar nos campos de batalha. Na década de 1940, chegava às bancas norte-americanas a revistinha do Capitão América. O personagem logo se tornou símbolo para que mais e mais jovens apoiassem as tropas de seu país na Segunda Guerra Mundial. Esse universo pode ser visto no filme Capitão América - O Primeiro Vingador, atualmente em cartaz. O protagonista também esteve em meio à Guerra Fria, pano de fundo das versões encadernadas de O Soldado Invernal (Panini, 308 páginas, R$ 75) e A Ameaça Vermelha (Panini, 216 páginas, R$ 60).
Outra abordagem do tema é como uma espécie de reportagem. O maltês Joe Sacco é conhecido pela união um tanto quanto incomum das facetas de jornalista e quadrinista em seus títulos. Um de seus projetos mais conhecidos, Palestina (Conrad, 328 páginas, R$ 69,90) acaba de ganhar edição especial. Lançado originalmente em 1996, o livro é resultado de dura viagem que o autor fez à região do Banco Ocidental e à Faixa de Gaza, no Oriente Médio, durante alguns meses.
As duras experiências vividas e observadas resultaram em um dos mais interessantes projetos da nona arte do século 20. As ilustrações tentam captar o clima tenso com que palestinos e judeus são obrigados a lidar. Refugiados, crianças, fazendeiros e outras pessoas comuns ganham voz (e forma) nas mãos de Sacco, que devido à sua contribuição ao mercado literário foi um dos convidados da edição deste ano da Flip (Festa LiteráriaInternacional de Paraty), no Rio de Janeiro, em julho.
"Não é uma obra objetiva, se por objetividade tomarmos a ideia ocidental de deixar cada lado contar sua versão, sem se importar que a verdade seja revelada. Minha intenção na obra não é ser objetivo, mas honesto", diz o autor na apresentação.
Diferente de livros didáticos e convencionais, as HQs têm como principal sacada fazer com que o pequeno universo de poucos personagens consiga servir de ponto inicial para se analisar todo um contexto histórico - o que muito se assemelha a filmes de guerra. De maneira informal, é possível fazer viagens instigantes por grandes marcos de sangue da trajetória humana pelas páginas dos quadrinhos.

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