Monday, August 15, 2011

Os meios e as formas de comunicar



Publicado por admin - Sunday, 7 August 2011
DEBATE
Mercado se mostra impotente diante da realidade dos sistemas de comunicação na América Latina, que não reproduzem a diversidade do continente, diz professor da Universitat Autònoma de Barcelona durante o 1º Confibercom
SYLVIA MIGUEL
A intervenção regulatória no segmento de mídia se faz necessária, uma vez que o mercado se mostrou impotente para fazer frente à realidade dos sistemas de comunicação. Na América Latina, há milhares de canais sem qualquer diversidade, dada a profusão de conteúdos repetitivos, salvo raras exceções. É preciso rever a concentração da propriedade nos meios de comunicação e a regulação do setor deve levar em conta os novos aspectos comunicacionais. Ao mesmo tempo, a defesa da diversidade deve se unir à lógica da cooperação entre pares. Os observatórios devem juntar meios e recursos para a pesquisa, de modo que o trabalho conjunto promova a convergência das pesquisas e seus produtos. Os comentários do professor Emili Prado, da Universitat Autònoma de Barcelona, na Espanha, foram realizados ao final do primeiro painel do 1º Congresso Mundial de Comunicação Ibero-americana (Confibercom), em São Paulo.
Neste painel, intitulado Sistemas Ibero-americanos de Comunicação, a professora Anita Simis, da Unesp de Araraquara, defendeu a constituição de um Observatório Latino-Americano “que congregue não apenas informações e dados de diversos países, mas principalmente que articule-os metodologicamente com vistas a uma política mais democrática”, disse.
Num momento em que se defende a pluralidade cultural e a diversidade, parece um contrassenso que o Brasil tenha mais de 7 mil processos contra rádios comunitárias, disse o professor argentino Martin Becerra, da Universidad Quilmes, da Argentina. Participante do primeiro painel, o professor Becerra disse que é preciso combater a centralização da produção audiovisual na América Latina, em prol da criação de um número maior de cotas de produção. Para Becerra, a “estrutura oligopólica” deve dar oportunidade de ingresso a novos autores, com menos “ânimos de lucros”.
O professor Pedro Jorge Braumann, da Escola de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, em Portugal, mostrou, num panorama sobre sistemas digitais, que o mercado mundial da TV digital é dominado por empresas norte-americanas. Braumann prevê que os “mídia players” que não conseguirem colocar seus produtos em diferentes plataformas “não conseguirão sobreviver no futuro”.
“Os processos de colonização no Brasil e em toda a América Latina não estão bem resolvidos. Os povos originários são invisíveis. Mas hoje há uma diferença em relação ao colonialismo do passado. O processo da globalização tornou evidente que o sentimento humano é igual em qualquer parte do mundo. Isso leva à rejeição dos mitos do passado e à disposição para a descoberta dos nossos reais problemas”, afirmou o professor Bernardo Diaz Nosty, da Universidade de Málaga, na Espanha.
Nosty destacou a necessidade da sistematização dos estudos de comunicação e da construção de indicadores do desenvolvimento midiático para a América Latina, capazes de padronizar informações e dados que possam ser tratados indistintamente por países diversos. “Isso ajudaria a conhecer melhor a realidade da região”, disse. Para Nosty, a América Latina precisa investir na promoção da liberdade de expressão sob os mais diferentes pontos de vista.

Pensar criticamente

Debates durante o Confibercom: participantes discutem os desafios da comunicação num mundo globalizado e plural
“A América Latina precisa de um pensamento crítico e comunicacional”, defendeu o professor Ruy Sardinha Lopes, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP, em São Carlos, durante sua exposição no 6º Seminário Internacional Latino-americano de Pesquisa da Comunicação, promovido pela Asociación Latinoamericana de Investigadores de La Comunicación (Alaic) nos dias 29 e 30 de julho. Realizado no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, o evento integrou a programação do 1º Confibercom.
“A entrada numa fase de acumulação regida pela lógica financeira, ao mesmo tempo em que requisitou uma ampla reestruturação produtiva e a instalação de poderosos mecanismos que dessem mobilidade ao capital – das diversas “desregulamentações”, obtidas muitas vezes pela sedução das armas ou do dinheiro, às infra-estruturas informacionais e comunicacionais, colocando, nesse sentido, as comunicações no centro das estratégias geopolíticas e geoeconômicas – igualmente alterou a balança de poder, ainda que seu núcleo central pouco tenha mudado”, disse o professor Lopes.
Tendo em vista a nova dinâmica do capital, a pauperização da população e a reconfiguração geopolítica do sistema capitalista, o professor defendeu que o campo teórico da comunicação retome a tradição crítica do pensamento comunicacional, cuja exata compreensão das formas atuais de concentração do poder e do dinheiro se faz necessária, tendo em vista a atuação dos agentes sociais e econômicos, e do papel da América Latina nesse novo cenário.
Entre os expositores, a professora Maria Cristina Gobbi, da Unesp, mostrou parte dos resultados sobre a pesquisa realizada para o terceiro volume da obra Panorama da Comunicação e das Telecomunicações no Brasil, uma parceria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com a Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom) e o Fórum Brasil Conectado.
Dividida em três volumes, a obra pode ser baixada pelo site www.ipea.gov.br. Inclui dados sobre o estado do conhecimento, tendências profissionais e ocupacionais, e perfis nacionais das comunicações de forma comparada em relação às nações ibero-americanas.
Fernando Oliveira Paulino, diretor da Asociación Latinoamericana de Investigadores de La Comunicación (Alaic) e professor da Universidade de Brasília (UnB), expôs algumas das ações mais recentes da entidade, entre elas, a reforma do site (www.alaic.net) e a criação da página eletrônica www.twitter.com/alaicnet, além do lançamento do Journal of Latin American Communication Research, disponível em http://www.alaic.net/journal, cuja convocação para publicação de artigos está aberta. Paulino também anunciou o próximo seminário da Alaic, previsto para maio de 2012 em Montevidéu, no Uruguai.

Os 45 anos da ECA

Mais de 40 títulos de livros e revistas científicas foram lançados durante o 1º Confibercom, na sessão de lançamentos coordenada pela professora Maria Cristina Gobbi, da Unesp de Bauru. A obra Pensamento Comunicacional Uspiano – Raízes Ibero-americanas da Escola de Comunicações Culturais (1966-1972), volume 1, organizada pelo professor José Marques de Melo, é comemorativa dos 45 anos da trajetória acadêmica da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
A obra reúne textos e artigos de alguns dos fundadores da ECA e professores do período inicial da sua história, destacando as “ideias e proposições que configuraram um modo de ser e pensar fundacional da escola e de sua vinculação ao pensamento e à cultura ibero-americana”, afirma no texto de apresentação o diretor da ECA, professor Mauro Wilton de Sousa.
Assinam a obra Julio Garcia Morejón, Rolando Morel Pinto, Maria Scuderi, Lupe Cotrim Garaude, José Freitas Nobre, José Marques de Melo, Paulo Emílio Salles Gomes e outros.
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