Tuesday, August 2, 2011

O quadrinista Allan Sieber fala sobre humor, o Rio de Janeiro e religião

Animação, quadrinhos e autobiografia


                                                                                                                               O premiado quadrinista, cartunista e animador gaúcho Allan Sieber é reconhecido por suas tiras de humor ácido, que abordam temas como religião e sexo – tudo que está ao redor do autor tem possibilidade de se transformar em quadrinhos, inclusive sua própria vida. “É tudo mentira!”, afirma -embora confesse que muitas das histórias sejam autobiográficas.

Há 10 anos morando no Rio de Janeiro, fugindo da correria de São Paulo, Sieber leva uma vida tranqüila rodeado dos amigos boêmios, a maioria autores como ele. No “desassossego” de sua produtora Toscographics, numa recolhida vila em Copacabana, entre guimbas de cigarros, manchetes infames de jornais e bonecos de desenhos animados, Allan Sieber cria histórias e desenhos.

Oséias, de Vida de Estagiário, personagem mais famoso do quadrinista, ganhará vida em breve numa série de TV. Em tempo, em parceria com o quadrinista Arnaldo Branco, Allan colabora como roteirista do programa Casseta & Planeta. Essas e outras histórias de sua carreira foram contadas numa entrevista ao Cultura.rj


Você chegou ao Rio de Janeiro em 1999. Por que decidiu trocar Porto Alegre pelo Rio?
Allan Sieber – O natural que os gaúchos saiam para São Paulo porque o mercado é muito maior, todas as revistas estão lá. E, para começo de conversa, eu não dirijo, não tenho carro. São Paulo é muito infernal com aquele trânsito, megalópole demais. Eu não tenho noção da diferença de Barra Funda e Higienópolis, apesar de ter muitos amigos em São Paulo. A Zona Sul do Rio é uma cidade de interior, é ridículo de tão pequena, mas com a vantagem de ter cinemas, livrarias, blábláblá... O calor que é triste! Não suporto calor, precisamos de uma estação fria nessa cidade. Não acha?


De que forma essas cidades interferem em seu trabalho?
AS – Qualquer cidade grande tem seus estereótipos, neuroses e pessoas deprimidas. Meu trabalho é muito de voyeur, observar as pessoas para utilizar em meu trabalho. Está tudo ao redor, as pessoas falam muitas besteiras. Mas não sei precisar as interferências dessas cidades no meu trabalho. Não sei dizer se interfere no jeito que olho para essas coisas.


Quais estereótipos são apontados em seus quadrinhos?
AS – Vários. São os estereótipos humanos: a dinâmica de relacionamento, que todos já escreveram. Porque as pessoas insistem em relacionamentos fracassados? Sou uma pessoa de relacionamentos longos, são acordos mais saudáveis de liberdade. Não temos controle da nossa vida e queremos tomar conta dos outros? Esse é o meu material. Outro exemplo: o clichê dos cariocas: “Me liga, hein!” E eles nem se quer passam o número do telefone. (risos)


Você tem de ler o texto ‘Indireto afetivo na linguagem carioca’, de Francisco Bosco. Fala exatamente sobre esse comportamento.
AS – Esse comportamento é engraçado. O carioca é muito solar e acaba não suportando uma pessoa deprimida. Do tipo: “Não convido você para a festa porque está deprimido”. (risos) A lógica é inversa. Mas não quero generalizar. Gosto do espírito leve e solar do carioca.


A religião, a sexualidade são características muito marcantes em seu trabalho. Por quê?
AS – Não sei. Sei apenas que religião e pornografia (e suas modalidades) sempre me chamaram muita atenção. Hoje em dia um jovem tem a vida muito fácil, a vida está num Google. Sou obcecado pela obsessão das pessoas por esses assuntos. Enfim, esse assunto toma muito tempo... (risos)


Você já foi evangélico?
AS – Adventista do 7º Dia. Minha mãe era muito católica, só uma freira era superior a ela. E eu entrei nessa onda de Igreja, por sorte sai fora. Eu era totalmente fanático para uma criança, era muito preto no branco. Ou você era adventista ou ia amargar o Juízo final. Eu ficava o tempo inteiro fazendo suposições, horrível. Aos 13 anos fiz amigos de minha idade, então resolvi deixar a religião de lado. Optei pelos meus amigos. Tive uma epifania e saí fora, encontrei os quadrinhos. (risos)


Sobre os quadrinhos: Vida de Estagiário, um dos seus trabalhos mais conhecidos, está se tornando numa série de TV.
AS – Sim. Foi através de um edital do MinC. Um amigo sugeriu escrever um projeto como sitcom, eu nunca havia pensado nisso. Tinha apenas o projeto para desenho animado. A série já está filmada, em fase de montagem. Vai passar na TV Brasil. Dos doze pilotos aprovados, parece que é o único de humor. E a vida de estagiário é universal.


Você chegou a ser estagiário?
AS – Não. Mas fui office boy, o que é bastante correlato: ambos ganham uma mixaria, tem uma carga enorme de trabalho, e são explorados por um chefe cretino. Oséias, o estagiário da série, não é um idiota completo, quando pode ele mata trabalho. Um pouco como eu fazia quando era obrigado a pagar contas. Se não tinha vida no banco, pagava as contas e fugia para minha casa jogar vídeo game. (risos)


Como você lida com essas ferramentas de relacionamento na internet?
AS – A internet é ótima, você pode trabalhar em qualquer lugar do mundo. Tenho um amigo que está na Patagônia e trabalha de lá, envia as tiras para jornais e revistas. Isso é incrível. E, por exemplo, já acabei um relacionamento por e-mail. (risos) E depois não preciso utilizar o telefone, que detesto. Mas esse lance de redes de relacionamento eu detesto. O que é isso? Documentar todos os passos? Tô fora. “Partiu, o bar da esquina”. Não! Eu vou para o bar, mas só quero encontrar meus amigos. Esse lance de “minha vida é um livro aberto” é uma bobagem. Que merda de vida é essa?


Você é amigo dos quadrinistas Andre Dahmer e Arnaldo Branco. Como é essa relação com o trabalho. Há competição?
AS – Sou amigos deles, mas “amigos amigos, negócios à parte”. (risos) Brincadeira. Diferente das outras áreas - há muito companheirismo. Indicamos trabalho um para o outro e nos desviamos de possíveis furadas.


Você e Arnaldo estão com uma parceria no Casseta & Planeta.
AS – Sim. Estamos escrevendo alguns roteiros. Eu nunca havia escrito para televisão, mas está sendo uma experiência muito legal. Muito diferente dos quadrinhos, envio as histórias e eles montam tudo por lá.


Que autores são referências?
AS – Sou muito filho do Angeli, Chiclete com banana foi uma bíblia. (risos) E depois fui beber no Krumb, uma fonte óbvia, ele tem uma vertente muito autobiográfica. Eu também sou um pouco assim. Mas, lembre-se: É tudo mentira!



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